ELEIÇÕES 2026 - O Brasil como ponta de lança do neofascismo no Sul Global


Crédito: Wikimedia Commons

Dentro desse quadro instável e grave, tudo parece indicar que estamos frente a uma das eleições mais consequentes das últimas décadas

Rafael R. Ioris e Leandro Saraiva

A eleição presidencial brasileira ainda nem ocorreu, mas a desmobilização do Sul Global liderada pela extrema direita internacional já está em curso. Apesar de ser um dos sócios fundadores do bloco que mais tem redefinido as principais linhas de poder e da própria (des)ordem global nos últimos anos, o Brasil não foi representado pelo seu chefe de Estado no recente encontro anual dos Brics em Nova Delhi. Esse quadro reflete o enfraquecimento do país no cenário mundial em razão de um quadro de duradoura polarização doméstica e associado ao aumento do apelo por um (des)projeto nacional de alinhamento automático à potência hegemônica histórica do hemisfério. Essa situação se estende ao cenário mais amplo da América Latina como um todo e, a depender do que ocorra no próximo mês, esse processo pode se aprofundar de forma acelerada, com consequências preocupantes para além da nossa região.

Interessantemente, no início do século XXI o aprofundamento da democracia e a forte redução da desigualdade que ocorreu em quase todo o nosso continente pareciam indicar que oferecíamos algo novo para o mundo. Essas experiências foram tão significativas que foram capazes, inclusive, de dar origem a novas organizações de governança regional, como a Unasul e Celac, que buscam aumentar a presença regional por meio de uma atuação mais altiva e independente.

Tragicamente, muito desse quadro foi revertido de forma rápida e desordenada. E embora quando da eleição de Lula para seu terceiro mandato fôssemos um continente fragmentado ideológica e politicamente, hoje o Brasil pode ser visto como um dos últimos bastiões de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo e multilateral. Mas se o clã Bolsonaro for alçado novamente ao controle direto do país, nos tornaremos não só o principal parceiro (e promotor dos interesses) dos Estados Unidos no mundo, como muito provavelmente o porta-voz e um dos representantes mais importantes da concertação da extrema direita mundial no Sul Global.

O papel histórico do Brasil nos Brics e no Sul Global em geral

A procura por autonomia no cenário global sempre foi uma característica da política externa brasileira, assim como da própria inserção internacional do país no mundo. Apesar da centralidade do relacionamento histórico com os Estados Unidos, desde a famosa guinada diplomática da Europa para as Américas, conduzida pelo Barão do Rio Branco no início do século XX, houve sempre a tentativa de não se alinhar automaticamente com nenhum aliado, por mais importante e poderoso que fosse. E ainda que tenhamos presenciado momentos de desvio desse objetivo tão importante, com o caso mais exemplar da vergonhosa tentativa de alinhamento automático junto aos Estados Unidos no primeiro mandato de Trump e de Jair Bolsonaro, o padrão do comportamento internacional brasileiro tem sido muito mais pautado pela busca consistente de flexibilidade e espaço de manobra.

Talvez como nunca antes – já que a principal tentativa anterior de busca de uma política externa independente tenha ocorrido no governo de João Goulart, projeto que foi revertido com o golpe de 1964 – tais objetivos foram realizados quando, no início do presente século, o Brasil, como um dos principais países emergentes no mundo de então, sob a batuta de Lula e Celso Amorim, conseguiu, ao mesmo tempo, manter um bom relacionamento com aliados tradicionais, como Europa e mesmo os Estados Unidos de George W. Bush, e aprofundar relações com novos países-chave, como Índia e, especialmente, China.

Além de ações dentro da esfera de ação bilateral, tais esforços também ocorreram, de maneira inovadora e eficaz, por meio de novas iniciativas diplomáticas de base multilateral, lideradas pelo Sul Global, como o G-20 e, especialmente, os Brics. Em ambos os projetos, o Brasil desempenhou um papel central, o que angariou um nível histórico de respeito ao nosso país na cena internacional. Tragicamente, esse reconhecimento não se traduziu nos mesmos parâmetros no contexto doméstico, onde nossas elites continuam hesitando entre o que se demonstrou sempre mais benéfico, isto é, a busca da autonomia no contexto internacional e o eventual atrelamento diplomático ao hegemon do continente americano.

Essa contradição faz pouco sentido ao se considerar que sempre foi exatamente quando buscamos maior altivez na nossa política externa que fomos mais respeitados, inclusive pelas grandes potências. Só para lembrar um episódio relativamente recente, no início do primeiro governo Lula, a Venezuela passava por profunda crise política. No ano anterior, Chávez tinha sofrido uma tentativa de golpe, mas, com forte resistência popular, conseguiu retornar ao poder. O clima interno do país continuou muito tenso. E, no começo de 2003, uma paralisação do setor petrolífero chamou a atenção do governo norte-americano. Foi quando Lula propôs a criação do Grupo de Amigos da Venezuela, medida que recebeu apoio do governo Bush, evitando uma possível intervenção externa no país vizinho. Ou seja, quando agimos com autonomia, somos valorizados e levados “a sério”.

Isso também se dá na esfera econômica, onde nossa diplomacia tem forte atuação multilateral, sobretudo nas negociações de condições favoráveis aos produtos do agronegócio – esses que hoje, com a memória seletiva da direita de sempre, lançam Ronaldo Caiado como candidato à presidência. Rápido retrospecto histórico recente, quando em 2003, numa reunião da OMC em Cancún, Brasil e Índia lideraram a criação do G-20 como resposta a barreiras alfandegárias criadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, ajudando a ampliar as esferas de governança global de forma duradoura.

De maneira efetiva, na negociação sobre o mercado mundial do algodão nacional, acionamos a OMC contra os excessivos subsídios fornecidos pelo governo norte-americano. Tivemos ganho de causa, embora os norte-americanos não tenham cumprido a decisão. Mantivemos a pressão, ameaçando quebrar as patentes de mais de cem produtos dos Estados Unidos, o que levou empresários norte-americanos a pressionarem seu governo a negociar e, por fim, ceder. O contencioso encerrou-se em 2014, já sob o governo Dilma, com os Estados Unidos pagando US$ 300 milhões para um fundo brasileiro de desenvolvimento do setor.

Apesar de todas essas, e várias outras, evidências do que conseguimos quando não nos subordinamos a qualquer ator hegemônico, é um possível atrelamento – provavelmente o mais dramático da nossa história – que está em jogo hoje. Esse caminho já foi tentando, com resultados pífios para o Brasil, pelo chefe do clã Bolsonaro, quando seu mandato coincidiu com o primeiro governo Trump. Hoje aquele país busca manter a América Latina ainda mais sob a sua tutela, o que deveria preocupar a todos que ainda acreditam que um país continental, como o nosso, não tem nada a ganhar com um alinhamento automático com qualquer potência, seja ela declinante ou ascendente.

A crise imperial em curso e os crescentes riscos de um caminho subordinado

Após um caminho continuado de guerras sem fim e aumento brutal da concentração de renda, processo que se desdobra há mais cinquenta anos, mesmo ainda sendo o país mais poderoso militarmente no mundo, os Estados Unidos se encontram hoje frente a duas encruzilhadas. A primeira é interna, qual seja, aprofundar ainda mais a trajetória das últimas décadas, administrando a crescente polarização doméstica por meio da intensificação dos aparelhos repressivos do Estado, ou reverter tal rumo a fim de, talvez, se tornar, de fato, uma democracia multicultural. Se tais opções são de impossível reconciliação, no cenário internacional, onde se encontra a segunda encruzilhada, as coisas não são menos complicadas.

Com um declínio tecnológico e perda de competitividade em vários setores, os Estados Unidos enfrentam crescentes desafios para manter seu poder e influência globais. E é nesse quadro que a agressividade da atual política externa dos Estados Unidos tem que ser entendida. Afinal, por que atacar aliados tradicionais, desmantelar a própria ordem internacional liberal que ajudou a criar no contexto do pós-guerra, ameaçar tomar territórios de vizinhos, a não ser como expressão de um país que já não acha que os elementos de cooptação (soft power) da sua hegemonia não mais dão conta do recado. E é nesse claro-escuro de um mundo em rápidas transformações (na expressão consagrada de Gramsci), que os monstros aparecem.

Que fique claro que os atores da extrema-direita internacional sabem bem o que fazem. Contra a ordem liberal carcomida, tanto das velhas democracias ocidentais quanto dos organismos a ela associados, a violência do mais forte é hoje vista como necessária, quando não como redentora, num milenarismo típico do fascismo zumbi dos dias de hoje. Como versão mais bizarra de tal movimento, para os Bolsonaros e seus asseclas, só cabe ocupar o papel de coadjuvantes em um filme B, sendo rodado sob nossos olhos. É isso que tem buscado seu articulador-mor, Eduardo Bolsonaro, em terras gringas – após ter abandonado seu cargo de deputado e passar a viver no Texas com recursos oriundos da maior fraude financeira da história do país, lavados através da produção também fraudulenta de uma peça publicitária ao chefe do clã. O ex-deputado chegou a se gabar da sua suposta influência direta junto à Casa Branca no episódio de taxação norte-americana imotivada sobre produtos de exportação brasileiros. Retaliação, agora política, mirando o governo Lula, mas atingindo as exportações nacionais. Tudo isso acontecendo, e as nossas (supostas) elites ainda em dúvida sobre qual caminho seguir, quando não mesmo aplaudindo o encaminhamento da subordinação almejada pela versão caipira do trumpismo.

Iremos mesmo sucumbir ou saberemos retomar as rédeas do nosso destino?

Dentro desse quadro instável e grave, tudo parece indicar que estamos frente a uma das eleições mais consequentes das últimas décadas. Sabemos bem quem representa a possibilidade de avançar na busca por autonomia. Detemos a segunda maior reserva do que promete ser a mais importante matéria-prima do século XXI. Mas boa parte do país quer abrir mão, uma vez mais, de um caminho de desenvolvimento de matriz nacional e independente. Afinal, em 7 de setembro, no ritual anual de mau gosto e entreguismo típico do bolsonarismo – este ano embalado por orações que se elevavam ao Senhor dos Exércitos louvando o pastor e ministro do STF André Mendonça –, um enorme boneco de Trump celebrava seu Deus, sua pátria e a tal família de bem(bens).

Lembremos que no ano passado, na mesma data – interessantemente, nossa data da independência(!) – uma enorme bandeira dos Estados Unidos cobriu a massa bolsonarista da Paulista, comemorando sabe-se lá que ideia de “pátria” seria essa. No mesmo sentido, já em maio de 2019, logo após sua posse, Jair Bolsonaro foi indicado personalidade do ano, pela Brazilian-American Chamber of Commerce, dos Estados Unidos, evidentemente (tirem suas próprias conclusões) ao que o presidente da República do Brasil agradeceu batendo continência à bandeira norte-americana. O ensaio geral tinha sido em outubro de 2017, já pré-candidato, quando o então deputado Jair prestou continência à mesma bandeira estrangeira, num evento em Dallas.

Voltando ao que está em jogo hoje, o atual candidato da família macabra (lembremos da tragédia genocida da pandemia da Covid-19) afirmou recentemente que o Brasil seria a solução para os Estados Unidos se livrarem da dependência industrial das terras raras chinesas. Na outra ponta do complexo digital, o mesmo candidato também se demonstrou alinhado à total desregulação da atuação das big techs em solo brasileiro, o que, em dupla com a inacreditável intenção de um eventual (des)governo de transição ser implementado sob o beneplácito oficial de membros do governo dos Estados Unidos, configura uma renúncia total a qualquer projeto de soberania nacional.

Em um contexto de enorme instabilidade como o atual, o que menos precisamos é subserviência. Mas essa parece ser a principal característica de um possível novo governo do clã. Poderemos não só vir a entregar, sem nenhuma contrapartida, nossos recursos naturais, como talvez mesmo abrir o caminho para bases militares dos Estados Unidos em nosso território. Já somos vistos como a próxima peça-chave na estratégia neocolonial norte-americana avançando a passos largos em nosso continente.

E em algumas semanas, decidiremos se conseguiremos seguir numa postura de não subordinação a Washington, ou se nos contentaremos em nos tornarmos a principal ponta de lança do neofascismo da extrema direita internacional dentro do Sul Global. Seja qual for nossa escolha, seus impactos não ficarão restritos às nossas fronteiras.


Rafael R. Ioris é professor da Universidade de Denver.

Leandro Saraiva é professor de Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos.



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