Por REGINALDO NASSER
Entre o 7 de outubro e a incitação racial, a disputa israelense gira em torno de como controlar, combater ou excluir os palestinos
1.
Iniciou-se a campanha eleitoral para as eleições do parlamento israelense, previstas para o mês de outubro, período em que se completarão três anos do ataque ocorrido em 7 de outubro de 2023. Embora Israel tenha participado de três guerras desde então, em Gaza, Líbano e Irã, as lembranças dos ataques aparecem com destaque na campanha partidária.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é acusado de desconsiderar alertas sobre a preparação do Hamas para uma operação de grande escala e de não ter preparado adequadamente a defesa do país. Seus concorrentes, como Naftali Bennett e Gadi Eisenkot, exigem uma investigação independente sobre as falhas.
Por outro lado, Benjamin Netanyahu e aliados procuram desviar do tema, dirigindo-se para os “bodes expiatórios” de sempre, por meio de uma virulenta campanha de incitação racial contra árabes israelenses, visando tanto os partidos árabes quanto a própria população. Itamar Ben-Gvir, Ministro da Segurança Nacional de Israel, e seu partido pediram ao Comitê Central de Eleições que impedisse a participação da Lista Árabe Unida nas eleições, argumentando que o partido apoia o terrorismo.
Em outra direção, a mídia de direita tem incitado ações contra trabalhadores árabes, estudantes e professores de forma generalizada. Itamar Ben-Gvir foi além e pediu para matar “30 ou 40” pessoas a cada noite em Gaza, ressaltando que isso valeria até mesmo para aqueles que não são considerados ameaças a Israel. Afinal de contas, enfatizou o ministro, para ninguém ter dúvida do que ele está falando: “Há pessoas lá (Gaza) que não são dignas de viver. Eles não deveriam viver. Eles nem são pessoas”.
As lideranças políticas do “change bloc“, aliança de partidos de oposição, têm expressado preocupações com a imagem do país no mundo. Elas afirmam que “Itamar Ben-Gvir não representa Israel” e que não apoiam o boicote dos partidos árabes, mas não se atrevem a mencionar a possibilidade, ainda que retórica, de se ter um Estado Palestino. Seu líder, Yair Golan, tem o cuidado de se referir à Cisjordânia como Judéia e Samaria e, além disso, não faz nenhum tipo de crítica ao genocídio em Gaza.
Infelizmente, a linguagem de desumanização empregada por Itamar Ben-Gvir em relação aos palestinos encontra amplo respaldo entre os judeus israelenses.
2.
Entre março e abril de 2024, 39% dos israelenses afirmaram que a resposta militar de Israel a Gaza foi adequada, e que as ações não foram suficientes, sugerindo que deveriam ser ainda mais agressivas. Somente 19% consideraram a resposta exagerada e 26% dos israelenses acreditavam que Israel poderia coexistir pacificamente com um Estado palestino.
As pesquisas de opinião em 2025, de certa forma, preservam a mesma visão do ano anterior. Chama a atenção entre os dados o fato de que 79% dos judeus israelenses disseram não se sentir perturbados pelo sofrimento da população civil palestina. Uma parte considerável da amostra da comunidade judaica, 76%, declarou acreditar que “não há inocentes em Gaza”.
Os dados sugerem que a questão palestina ainda é central no debate político da sociedade israelense, mas adquiriu uma configuração específica. Não há preocupação com os direitos humanos, nem muito menos com qualquer menção a um eventual Estado Palestino. Mas trata-se muito mais de uma eventual disputa entre os partidos majoritários sobre a forma pela qual a população palestina será controlada, combatida ou eventualmente excluída da comunidade.
De outro lado, os palestinos da Cisjordânia e Gaza não votam nas eleições israelenses; ao mesmo tempo, os cidadãos palestinos de Israel, que participam, são objetos frequentes de deslegitimação ou exclusão na campanha atual. Essa dissociação entre território, população e participação autônoma remete a uma questão mais estrutural, qual seja, os limites da própria democracia israelense e a definição de quem constitui a comunidade política que decide sobre o futuro dos territórios palestinos.
Como compreender uma democracia na qual a população majoritária pode decidir sobre a questão territorial, direitos políticos e direitos humanos de outra coletividade que não integra seu corpo eleitoral, ou mesmo daqueles que, apesar de votarem, o fazem sob constrangimentos?
O discurso hegemônico israelense, que encontra forte respaldo no Ocidente, se gaba de ser a única democracia no Oriente Médio. Na verdade, há uma fachada democrática por meio de um sistema eleitoral competitivo e imprensa livre; na prática, esse mecanismo serve para perpetuar e até expandir o controle de um grupo étnico, prejudicando princípios democráticos universais e a autonomia de comunidades minoritárias.
Ou seja, o próprio sistema político está inserido em um processo de controle e domínio territorial e populacional com conotação étnica. Instituições formalmente democráticas, como as eleições, podem coexistir perfeitamente com uma estrutura de poder que procura preservar a predominância de um grupo étnico sobre outro.
Como já disse o historiador sionista Benny Morris, “até a grande democracia americana não teria existido sem a extinção forçada dos nativos americanos”. De forma análoga, podemos dizer que, longe de serem questões antagônicas, a democracia israelense só poderia existir com a limpeza étnica e genocídio dos palestinos.
*Reginaldo Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de A luta contra o terrorismo: os Estados Unidos e os amigos talibãs (Editora Contracorrente). [https://amzn.to/46J5chm]
Publicado originalmente na revista Carta Capital.
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