O Paraguai era capaz de derrotar a Inglaterra no século XIX?

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Bruna Frascolla

Somente na América do Sul as pessoas acreditam que o Paraguai – um pequeno país sem litoral – quase se tornou uma potência mundial no século XIX , a ponto de ser temido pela Inglaterra no auge do colonialismo.

Quando se fala em Paraguai, a primeira palavra que vem à mente dos brasileiros é muamba: um termo de origem quimbundo, língua angolana, que originalmente significava “cesta” ou “carga”, mas que em português brasileiro se refere a mercadorias contrabandeadas ou falsificadas. Para se ter uma ideia, na cidade brasileira de Feira de Santana, a quase 3.000 quilômetros do Paraguai, existe uma zona comercial chamada “Feiraguay” (ou seja, Feira + Paraguai) onde a muamba é (ou era) vendida. Brasileiros atravessam a Ponte da Amizade para comprar mercadorias sem pagar impostos de importação e revendê-las. Do ponto de vista legal, há também a questão da menor tributação, então alguns brasileiros ricos se naturalizam cidadãos paraguaios para fins fiscais, e algumas empresas brasileiras estão até mesmo se mudando para lá.

O Paraguai, por outro lado, parece preso ao século XIX, ainda associando o Brasil à Guerra do Paraguai (1864-1870), instigada pelo desastroso ditador Solano López. Isso fica evidente tanto por um recente ataque histérico-diplomático quanto pelas narrativas nacionalistas que circularam durante a Copa do Mundo: alegações de que o Paraguai é uma nação corajosa porque resistiu a um império escravista que, em seu zelo imperialista, atacou a pequena nação guarani.

incidente diplomático ocorreu justamente porque Lula, ao discutir a importância de uma indústria de defesa nacional, mencionou que o Paraguai certa vez decidiu invadir o Brasil. O que é um fato histórico simples e inegável – que o Paraguai invadiu o estado de Mato Grosso em 27 de dezembro de 1864 – ofendeu o Paraguai de 2026, que agora exige a devolução de um canhão do século XIX atualmente em posse do Brasil. De todas as reivindicações de restituição de artefatos históricos, apenas o Paraguai consegue reivindicar uma arma de guerra usada para atacar o outro país, enquanto simultaneamente se faz de vítima. Como se a promessa de devolver o canhão não bastasse, Lula também autorizou exercícios militares conjuntos envolvendo os exércitos dos EUA (de Trump), do Paraguai e da França em solo brasileiro.

Uma figura central na atual histeria paraguaia é o senador e historiador Eduardo Nakayama, que reivindica o canhão como um símbolo dos esforços do povo paraguaio e condena o ensino de história no Brasil. Segundo ele , “a narrativa oficial das escolas brasileiras sobre a 'Guerra do Paraguai' [...] segue essencialmente a versão triunfalista do Império – que agiu em legítima defesa e 'libertou' a região. Dá-se ênfase aos feitos de Caxias e ao sacrifício brasileiro, enquanto o impacto devastador da guerra sobre a população paraguaia, as violações do direito internacional e as origens do conflito na intervenção brasileira no Uruguai são omitidos.”

Dado que o historiador obteve seu mestrado em história em uma universidade pouco conhecida do Rio Grande do Sul (Brasil), ele pode – com alguma plausibilidade – convencer o público paraguaio de que as salas de aula brasileiras são bastiões de doutrinação patriótica. Na realidade, a historiografia da Guerra do Paraguai é, ela própria, um tema de investigação histórica.

Comecemos pelo sistema educacional brasileiro: do jeito que está, já seria uma vitória se os alunos ao menos soubessem quem foi o Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro e comandante-em-chefe do Brasil durante a Guerra do Paraguai. Eu, um brasileiro com menos de quarenta anos, aprendi na escola que o Brasil, a Argentina e o Uruguai foram enganados pela Inglaterra para destruir o Paraguai. O Paraguai era supostamente uma nação 100% alfabetizada e industrializada, prestes a ultrapassar a Inglaterra como potência mundial; consequentemente, a pérfida Albion manipulou três países muito tolos para destruí-lo. O mais tolo de todos, o Brasil, cometeu genocídio no processo, matando todos os homens e até mesmo as crianças-soldado que serviam sob o comando de Solano López. Somente na América do Sul as pessoas acreditam que o Paraguai – um pequeno país sem litoral – quase se tornou uma potência mundial no século XIX , a ponto de ser temido pela Inglaterra no auge do colonialismo. Pode-se perguntar, então, de onde vem essa crença peculiar.

Para responder a essa questão, recorro a Maldita Guerra: Nova História do Paraguai, de Francisco Doratioto. A primeira edição do livro foi publicada em 2002 e a segunda em 2022. A primeira edição surgiu poucos anos após a desclassificação dos arquivos secretos do Exército Brasileiro referentes à Guerra do Paraguai, que ocorreu somente em 1994. Contudo, a desclassificação serviu mais para desmistificar a guerra do que para fornecer novos documentos, visto que a maior parte do material consistia em informações já conhecidas por outras fontes desde o século XIX. O diferencial de Doratioto na historiografia brasileira reside em sua extensa pesquisa nos arquivos dos outros países envolvidos no conflito. Ele possui legítimas pretensões de imparcialidade, tendo se apoiado amplamente na assistência da região de Platina para obter acesso à documentação. É membro correspondente tanto da Academia Nacional de História (Argentina) quanto da Academia Paraguaia de História.

Doratioto chama seu livro de “nova história” porque substitui tanto a historiografia tradicional quanto a revisionista. A historiografia brasileira tradicional, originada no período imediatamente posterior à vitória, é triunfalista e, segundo Doratioto, falha por sua tendência a exagerar as conquistas brasileiras, ao mesmo tempo que negligencia o papel da Argentina. Essa historiografia sustenta que o Brasil lutou bravamente para deter Solano López, um tirano insano. A historiografia revisionista, por outro lado, é a versão que encontrei na escola: Solano López como um herói anti-imperialista frustrado pelos fantoches da Inglaterra.

Segundo Doratioto, “desde a morte de Solano López na Batalha de Cerro Corá, em março de 1870, até o final do século XIX, não havia dúvidas de que ele era um ditador que mergulhou seu país em uma guerra insensata contra vizinhos mais poderosos. Ele era odiado pelos sobreviventes [...]. O sentimento era muito semelhante nos países vizinhos – tanto que a historiografia tradicional, inclusive a do Paraguai, centrou sua explicação das causas da guerra na figura de Solano López, marginalizando assim os processos históricos que levaram ao conflito” (pp. 87-88). O primeiro intelectual revisionista foi o paraguaio Juan Emiliano O'Leary. Curiosamente, o próprio O'Leary – filho de uma das vítimas de Solano López – havia escrito certa vez um juramento apaixonado, prometendo jamais esquecer o homem que atormentou sua mãe e sua pátria. Sua mãe fora casada com um juiz que morreu após ser preso por desagradar Solano López; ela própria foi acusada de traição, exilada e forçada a caminhar com pouca comida ao lado de seus filhos pequenos, todos os quais pereceram. O'Leary era filho de seu segundo casamento.

A mudança repentina de posição de O'Leary só faz sentido quando analisada no contexto do legado complexo de Solano López. Embora López nunca tenha se casado, ele viveu com Elisa Lynch, uma irlandesa que conheceu em Paris, e teve filhos com ela. Durante a guerra, pensando no futuro de sua família, Solano López tornou Elisa Lynch proprietária de 33.000 km² de território brasileiro reivindicado pelo Paraguai, 4.000 km² de território argentino que na época era paraguaio e impressionantes 135.000 km² de território paraguaio, além de 27 propriedades em Assunção. Ele pode ter acreditado que o Paraguai deixaria de existir e contava com a cidadania britânica de Elisa para ajudar a manter as propriedades. Os bens móveis foram retirados do país com a ajuda da Embaixada dos EUA, que os transportou em 1869 como bagagem diplomática.

Naturalmente, isso desencadeou uma disputa de propriedade de terras que se estendeu por três países. No Brasil, ninguém menos que Ruy Barbosa concordou em representar Enrique Solano López – filho do ditador – que reivindicava a propriedade de Dourados e buscava receber aluguel de uma empresa brasileira. No Paraguai, no entanto, não houve disposição para reconhecer a “venda” de terras para Elisa Lynch. Grande parte disso decorria da má reputação do falecido ditador; foi do interesse na herança que surgiu um movimento revisionista, liderado por Enrique Solano López, O'Leary e Ignacio Pane.

Essa narrativa não teria ganhado força se o país não estivesse tão carente de heróis nacionais. Desde a independência de Buenos Aires (1811), o Paraguai foi governado por três ditadores de mão de ferro: o “Ditador Perpétuo” Gaspar de Francia (1814–1840), Carlos López (1844–1862) e seu filho Solano López (1862–1870). O surgimento de um grande herói paraguaio encontrou eco em um público ávido por figuras nacionais positivas.

Mais tarde, o mito de Solano López também serviu a futuros ditadores, que o reivindicaram como seu próprio predecessor. O primeiro a fazê-lo foi o Coronel Rafael Franco, que orquestrou um golpe de Estado e, em 1936, decretou que Solano López era um herói nacional. Outro marco importante foi a ditadura de Stroessner (1954-1989), quando “o lupismo tornou-se onipresente, apoiado pelo governo, e intelectuais que ousaram questionar a glorificação de Solano López foram perseguidos e até exilados” (p. 95).

No contexto paraguaio, o anti-imperialismo dirigia-se contra o Império do Brasil (1822-1889) – isto é, contra um Brasil independente e monárquico que se distinguia dos seus vizinhos tanto pelo seu regime político como pelo seu vasto território não balcanizado. Durante as décadas de 1960 e 1970, em meio às ditaduras militares no Cone Sul, a esquerda argentina e brasileira empreendeu uma campanha contra os exércitos dos seus respectivos países. O Paraguai de Solano López era retratado como uma espécie de Cuba do século XIX , sitiada por vizinhos que agiam como lacaios do imperialismo – já não o do Império do Brasil, mas sim o da Inglaterra, que ocupava uma posição análoga à dos EUA na época.

A “bíblia” do revisionismo argentino é La Guerra del Paraguay: ¡Gran Negocio! (1968), do historiador peronista León Pomer, que fugiu para o Brasil na década de 1970. Lá, o jornalista Júlio José Chiavenato escreveu Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai (1979), que se tornou a bíblia do revisionismo brasileiro. E foi assim que eu, o autor deste texto, aprendi na escola que o Paraguai quase se tornou uma potência mundial no século XIX : um punhado de “historiadores” de esquerda estava ocupado demais para estudar história de verdade porque se dedicava a difamar o Brasil durante o regime militar – um hábito que não desapareceu com o retorno à democracia; muito pelo contrário. Agora nos dizem que devemos aprender que somos racistas, sexistas, homofóbicos e assim por diante.

Francisco Doratioto apresenta diversos argumentos que demonstram que essa versão não faz o menor sentido. Acredito que o ponto mais relevante seja uma carta de Edward Thornton – o cônsul britânico em Buenos Aires (os EUA eram o único país com presença diplomática no Paraguai) – ao Ministro das Relações Exteriores paraguaio, José Berges, datada de 7 de dezembro de 1864. Nela, afirma-se: “Não posso deixar de lamentar a necessidade que seu governo sente de romper relações amistosas com o Brasil”. Doratioto encontrou a carta no Arquivo Geral de Assunção, Coleção Rio Branco, documento 3277. A Inglaterra manteve-se neutra, assim como todas as nações ocidentais – com exceção dos EUA, que mantiveram uma relação próxima com o Paraguai desde o século XIX até os dias atuais (como evidenciado pela participação conjunta em exercícios militares). Os banqueiros britânicos não negaram empréstimos ao Paraguai por pura malícia, mas porque o risco de inadimplência era obviamente alto.

Há muita confusão em torno da Guerra do Paraguai porque as questões políticas da região do Rio da Prata no século XIX são geralmente desconhecidas do público em geral. Em resumo, o Brasil e a Argentina de Mitre uniram forças para intervir no Uruguai quando o governo uruguaio começou a entrar em conflito com cidadãos brasileiros e argentinos dentro de suas fronteiras. (O próprio Uruguai era um país criado com apoio britânico após uma guerra pelo território entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires.) A Argentina ainda não era um Estado-nação consolidado; a província de Entre Ríos, governada pelo ex-presidente Urquiza, estava em rebelião e informalmente aliada ao Paraguai.

Solano López almejava transformar o Paraguai em uma potência regional capaz de arbitrar o conflito entre o Uruguai e seus vizinhos, forjando uma aliança entre as províncias argentinas rebeldes e o governo uruguaio. Consequentemente, ameaçou o Brasil com medidas caso invadisse o Uruguai. O Brasil invadiu o Uruguai sem levar a ameaça paraguaia a sério; contudo, Solano López interpretou isso como uma declaração de guerra e invadiu o estado brasileiro de Mato Grosso. Posteriormente, decidiu invadir também o Rio Grande do Sul, mas para isso precisava atravessar o estado argentino de Corrientes, que negou permissão. Solano López interpretou essa recusa como uma declaração de guerra, decidindo, na prática, guerrear contra as duas maiores nações da região, enquanto seu parceiro no Uruguai já havia sido deposto.

Outro fator a ser considerado é a navegação na bacia do Rio da Prata, uma fonte constante de atritos. Para o Brasil, essa hidrovia era vital porque Mato Grosso não possuía conexões terrestres com o resto do país. Disputas entre Assunção e Buenos Aires frequentemente deixavam o Paraguai isolado do mundo exterior, já que a hidrovia era indispensável naquela região pantanosa.

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