O século XXI segundo Lula: soberania em tempos de guerra híbrida


Luiz Inácio Lula da Silva - CRÉDITO: REUTERS/MIKE SEGAR

Na ONU, Lula reuniu tarifas, plataformas, desinformação, sistemas de pagamento e minerais estratégicos numa leitura de soberania que desloca a disputa pelo poder muito além do campo militar


Há momentos em que um discurso político vale menos pelas palavras escolhidas do que pela maneira como organiza o mundo. Foi isso que me chamou atenção ao ouvir Lula na ONU. Ele não usou a expressão guerra híbrida. Não precisava. Falou de tarifas como instrumento de coerção, interferência eleitoral, plataformas digitais, inteligência artificial, desinformação, sistemas de pagamento, minerais estratégicos, crime transnacional e presença militar estrangeira. Temas que a política costuma distribuir em gavetas diferentes, mas que já não funcionam separados.

Quem procura a guerra apenas onde há soldados, tanques e mísseis continua olhando o século XXI com os olhos do século XX. A força militar permanece como a expressão mais brutal do poder, mas deixou há muito tempo de ser sua única linguagem. Um Estado pode ser pressionado sem que um soldado atravesse a fronteira. Pode perder margem de decisão pela dependência financeira, tecnológica, informacional ou logística. Pode conservar intacto o mapa do país e, ainda assim, descobrir que boa parte das decisões fundamentais já não passa inteiramente por ele.

Por isso a fórmula “soberania ou subordinação” me pareceu a chave do discurso. Não como recurso de tribuna, mas como definição de um problema histórico. Soberania, hoje, não se mede apenas pela integridade do território. Mede-se pela capacidade concreta de decidir quando poder econômico, tecnológico, informacional e militar se cruzam. A guerra não abandonou o território. O território da guerra é que se expandiu.

É aí que a ideia de guerra híbrida recupera sentido. O termo foi banalizado a ponto de caber em quase tudo, e justamente por isso precisa ser usado com rigor. Uma sanção, uma tarifa ou uma campanha de desinformação, isoladamente, não bastam para definir uma guerra híbrida. O ponto está na combinação dos instrumentos e no objetivo político que os organiza. Finanças, informação, tecnologia, diplomacia, pressão econômica e força militar podem operar sobre a mesma vulnerabilidade. As próprias doutrinas contemporâneas de segurança tratam essa sobreposição como parte central das ameaças híbridas.

Nada disso significa que o algoritmo substituiu o míssil. Gaza e Ucrânia lembram todos os dias o contrário. O que mudou foi o tamanho do arsenal. Uma cadeia tecnológica pode produzir dependência. Uma plataforma pode alterar a circulação da informação. Uma infraestrutura crítica controlada de fora pode se converter em instrumento de pressão numa crise. Uma sociedade submetida continuamente à manipulação informacional pode ter sua capacidade de escolha corroída antes que qualquer fronteira física seja tocada.

É nesse mapa que Pix, Big Techs, minerais críticos e tarifas começam a fazer sentido juntos. Todos tocam o controle dos fluxos que sustentam a vida material de uma sociedade. Dinheiro, informação, tecnologia, energia, matéria-prima. Quem controla os nós decisivos desses circuitos ganha poder para impor custos e estreitar as escolhas do outro.

O caso do Pix tornou essa disputa visível. Em 2026, a investigação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil reuniu comércio digital, decisões envolvendo plataformas, serviços eletrônicos de pagamento e política tarifária. O USTR sustentou que políticas brasileiras favoreciam um “campeão nacional” nos pagamentos eletrônicos. Quando Lula fala na ONU de tarifas usadas como coerção, defende o Pix e, na mesma arquitetura de discurso, enfrenta o poder das Big Techs, há uma disputa concreta por trás das palavras. Não se trata apenas de mercado. Trata-se de quem controla infraestruturas pelas quais circulam dinheiro, informação e poder.

Com os minerais críticos ocorre algo semelhante. Seis dias antes da Assembleia, o Brasil havia sancionado uma política nacional que trata dependência externa, riscos geopolíticos e gargalos tecnológicos como questões estratégicas. Na ONU, Lula afirmou que o acesso aos minerais brasileiros deveria vir acompanhado de geração de valor no país, transferência de tecnologia e atendimento a setores nacionais estratégicos. Possuir a reserva, sozinho, vale pouco se o conhecimento, o processamento industrial e a cadeia de valor permanecem sob controle de outros.

Durante muito tempo aprendemos a reconhecer soberania olhando para o mapa. Hoje é preciso olhar para a infraestrutura. Um país pode ter fronteiras intactas e depender de fora para processar dados, movimentar pagamentos, produzir tecnologias essenciais, organizar sua comunicação ou transformar os próprios recursos naturais. A bandeira continua no mastro. Formalmente, o Estado continua ali. Materialmente, porém, sua margem de decisão pode ter encolhido.

Isso não leva necessariamente ao fechamento. E esse cuidado aparece no próprio discurso. Lula fala em comércio, investimento, integração e cooperação internacional. O conflito não está entre isolamento e abertura. Está nas condições em que a interdependência é construída. Há uma diferença entre negociar com parceiros e entrar numa relação em que o resultado já vem condicionado pela assimetria de poder.

A passagem sobre o crime organizado resume bem essa diferença. Lula rejeita forças estrangeiras assumindo funções que pertencem ao Estado brasileiro e diz que o país não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”. Pede cooperação para interromper fluxos de armas e dinheiro. A palavra importante é cooperação. Soberania não significa fazer tudo sozinho. Significa poder definir os termos da cooperação sem aceitar tutela.

Para os países do Sul Global, esse talvez seja o ponto mais sensível. A velha periferia fornecia matéria-prima, importava tecnologia, absorvia decisões tomadas nos centros de poder e chamava isso de integração. O século XXI acrescentou novas camadas a essa dependência. Dados, plataformas, sistemas financeiros, semicondutores, nuvem, inteligência artificial e minerais críticos passaram a compor a infraestrutura da soberania. A pergunta deixou de ser apenas quem possui o território. Passou a ser quem controla aquilo que faz o território funcionar.

Por isso o final do discurso importa. Lula começa diante de guerras abertas e termina falando de eleições, desinformação e interferência sobre a vontade popular. O percurso vai do campo de batalha à disputa pela percepção. Não vejo isso como acaso retórico. É uma leitura do poder contemporâneo. A defesa de um país passa pelo mar territorial e pelo ambiente digital, pela indústria e pela informação, pelas Forças Armadas e pelas infraestruturas invisíveis que organizam a vida cotidiana.

Foi essa a novidade política que encontrei no discurso. Soberania deixa de ser palavra de cerimônia e volta a significar capacidade material de decisão. No século XXI, o poder corre por cabos, plataformas, cadeias logísticas, sistemas financeiros, minerais e redes de informação muito antes de chegar ao campo de batalha. Do porta-aviões ao algoritmo, é nessa geografia que a soberania está sendo disputada.

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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