Por que o Brasil precisa de uma estratégia nacional para a China?



Zhiyu Wang

A questão não é mais se o Brasil deve aprofundar sua cooperação com a China, mas como.

Como construir uma cooperação compartilhada entre o Brasil e a China? Transformando a relação com a China em uma política pública estratégica.

As relações entre Brasil e China entraram em uma nova fase. Nas últimas duas décadas, a China se tornou o parceiro comercial mais importante do Brasil e um ator cada vez mais significativo em investimentos, infraestrutura, energia, agricultura, finanças, ciência e tecnologia e economia digital. O relacionamento agora abrange diretamente muitas das questões que determinarão a trajetória de desenvolvimento do Brasil.

Isso cria um novo desafio político.

O Brasil precisa pensar e planejar estrategicamente seu relacionamento com a China, tratando-o como um componente-chave de sua estratégia nacional de desenvolvimento, e não como um conjunto de compromissos institucionais individuais e desconexos.

Isso não significa reduzir as dimensões diplomáticas ou internacionais da relação. Significa reconhecer que sua escala econômica e seu caráter multidimensional tornam a política em relação à China cada vez mais relevante para as escolhas de desenvolvimento interno do Brasil.

O Brasil enfrenta desafios persistentes como baixa produtividade, desindustrialização, dependência tecnológica, déficits de infraestrutura, desigualdade regional e a necessidade de acelerar suas transições energética e digital. A cooperação com a China, por si só, não resolverá esses problemas. No entanto, as capacidades acumuladas pela China, sua transformação tecnológica, capacidade de investimento e experiência em desenvolvimento industrial e de infraestrutura fazem dessa relação um importante instrumento potencial para enfrentá-los.

A questão, portanto, não é mais simplesmente se o Brasil deve aprofundar a cooperação com a China.

A questão é como o Brasil deve planejar essa cooperação para que ela contribua para a solução dos principais desafios de desenvolvimento do país.

Essa é a justificativa para a cooperação mútua.

Cooperação compartilhada não significa que Brasil e China tenham interesses idênticos. Compartilhada não significa igual; significa conectada. Significa identificar onde interesses e capacidades nacionais distintos podem se complementar e organizar deliberadamente a cooperação em torno dessas complementaridades.

O conceito, portanto, começa com duas perguntas que devem ser feitas simultaneamente:

O que a China quer do Brasil?

O que o Brasil quer da China?

A cooperação estratégica surge quando esses interesses podem ser conectados aos objetivos de desenvolvimento de ambos os países.

1. O Brasil precisa planejar o relacionamento que deseja.

O Brasil deveria estabelecer um Plano Nacional de Cooperação Internacional com a China.

O ponto de partida de um plano como esse não deve ser um catálogo de setores em que a cooperação é possível, mas sim os principais problemas que o Brasil precisa enfrentar.

Essa distinção é fundamental.

Uma abordagem convencional começa com as oportunidades: investimento chinês, tecnologia chinesa, projetos de infraestrutura, novos mercados ou financiamento. Uma política pública estratégica começa com os objetivos nacionais e questiona como as parcerias externas podem contribuir para alcançá-los.

O Brasil deve, portanto, identificar um número limitado de desafios de desenvolvimento nos quais a cooperação com a China possa ter um efeito transformador significativo.

A transformação industrial é um desses desafios. O Brasil precisa aumentar a produtividade, diversificar sua estrutura produtiva e ocupar segmentos mais sofisticados das cadeias de valor globais. O investimento e a capacidade tecnológica da China podem contribuir para esse objetivo, mas somente se a cooperação estiver atrelada à produção nacional, ao desenvolvimento de fornecedores, ao aprendizado tecnológico e à modernização industrial.

Infraestrutura e conectividade constituem outro ponto crucial. As necessidades de infraestrutura do Brasil não se resumem a problemas logísticos; elas afetam a produtividade, a integração regional e a capacidade do país de conectar sua economia produtiva aos mercados globais. A cooperação com a China deve, portanto, estar atrelada às prioridades de infraestrutura do próprio Brasil, incluindo a integração da América do Sul.

Ciência, tecnologia e inovação são igualmente fundamentais. O Brasil precisa expandir sua capacidade de gerar e absorver tecnologias, em vez de permanecer principalmente um consumidor de produtos tecnológicos. Parcerias com universidades, instituições de pesquisa e empresas chinesas podem se tornar instrumentos de desenvolvimento tecnológico conjunto.

A transição energética oferece outra área de complementaridade estratégica. O Brasil possui importantes recursos e capacidades em energias renováveis, enquanto a China desenvolveu extraordinárias capacidades industriais e tecnológicas em energias renováveis, mobilidade elétrica, baterias e tecnologias afins.

Agricultura, segurança alimentar, saúde, biotecnologia e transformação digital oferecem oportunidades semelhantes.

A questão não é que a China deva resolver esses problemas.

Trata-se de o Brasil identificar em que pontos as capacidades da China podem ser integradas a uma estratégia de desenvolvimento brasileira.

2. O Brasil precisa saber o que quer da China.

O Brasil desenvolveu uma capacidade institucional considerável para compreender a China como parceiro comercial e ator diplomático. Agora, precisa de maior capacidade para compreender a China como parceiro de desenvolvimento: o que as instituições, empresas e organizações de pesquisa chinesas buscam internacionalmente, quais capacidades possuem e como esses interesses podem se cruzar com os objetivos brasileiros.

Mas entender a China é apenas metade da tarefa.

O Brasil precisa ser capaz de articular o que deseja.

O presidente Lula já apontou nessa direção. Em 2024, ele argumentou que a parceria Brasil-China deveria ir além da exportação de commodities e se expandir para ciência e tecnologia, incluindo áreas como semicondutores e software, com o objetivo de gerar emprego e desenvolvimento em ambos os países. Essa ambição se refletiu na elevação das relações bilaterais durante a visita de Estado de Xi Jinping ao Brasil em 2024, quando os dois governos se comprometeram a buscar maiores sinergias entre suas estratégias de desenvolvimento e a expandir a cooperação em infraestrutura, energia, agronegócio, comunicações e outros setores estratégicos. O desafio é traduzir essa ambição política em uma capacidade de planejamento coerente no Brasil, que identifique onde a cooperação com a China pode contribuir para o desenvolvimento nacional a longo prazo.

Um Plano Nacional Brasileiro de Cooperação Internacional com a China deve, portanto, identificar, para cada área prioritária:

• a capacidade que o Brasil busca desenvolver;

• a contribuição específica que a cooperação com a China poderia trazer;

• As capacidades que o Brasil pode trazer para a parceria;

• Os atores institucionais e do setor privado que precisam participar;

· e os resultados a longo prazo que o Brasil busca alcançar.

Isso alteraria a base sobre a qual o Brasil se relaciona com seus parceiros chineses.

Em vez de perguntar principalmente:

O que a China pode oferecer ao Brasil?

O Brasil deveria estar em posição de afirmar:

É isso que o Brasil precisa construir. É aqui que o Brasil vê as capacidades da China contribuindo para seus objetivos de desenvolvimento. E é isso que o Brasil pode construir com a China.

Essa é a base da agência estratégica.

3. Cooperação compartilhada significa transformar a complementaridade em desenvolvimento.

O conceito de cooperação compartilhada ganha significado quando os interesses são traduzidos em programas de desenvolvimento concretos. Brasil e China não possuem as mesmas estruturas econômicas, capacidades tecnológicas ou prioridades de desenvolvimento. Suas diferenças são justamente o que pode criar oportunidades de complementaridade. As capacidades industriais e tecnológicas da China podem se cruzar com os recursos produtivos, instituições científicas, potencial energético, capacidades agrícolas, mercado e posição geográfica do Brasil.

Mas a complementaridade não produz desenvolvimento automaticamente.

Tem que ser organizado.

Considere a cooperação industrial. Empresas chinesas podem buscar acesso ao mercado brasileiro e às redes de produção regionais. O Brasil, por sua vez, pode buscar investimentos, tecnologia, empregos e modernização industrial. Uma estratégia de cooperação compartilhada buscaria desenvolver parcerias que conectem esses interesses por meio da produção local, desenvolvimento de fornecedores, pesquisa conjunta, formação de mão de obra e aprendizado tecnológico.

O mesmo princípio se aplica à infraestrutura. O financiamento e a capacidade de construção da China podem contribuir para os objetivos de infraestrutura do Brasil, mas a questão estratégica é como os projetos individuais contribuem para as prioridades mais amplas do Brasil em termos territoriais, produtivos e de integração regional.

Essa é a diferença entre cooperação mutuamente benéfica e cooperação compartilhada estrategicamente organizada.

A primeira pergunta questiona se ambas as partes se beneficiam.

Esta última questão indaga como esses benefícios podem ser conectados a objetivos nacionais de longo prazo.

4. Construir sobre as instituições já existentes

O Brasil não precisa construir um novo relacionamento com a China do zero.

A relação bilateral já possui bases institucionais substanciais, incluindo múltiplos mecanismos setoriais. O que falta é um mecanismo brasileiro para integrar esses compromissos em uma estratégia nacional comum. O governo brasileiro poderia, portanto, estabelecer uma comissão interministerial para elaborar um Plano Nacional de Cooperação com a China, identificando prioridades nacionais e objetivos estratégicos.

Os dois países desenvolveram cooperação em desenvolvimento, ciência e tecnologia, agricultura, energia, infraestrutura e outras áreas. Mais importante ainda, Brasil e China já começaram a criar instrumentos que correspondem à lógica aqui proposta.

Isso é importante porque sugere que a questão institucional não é se esse planejamento é possível. Os fundamentos já existem. O que falta é consolidá-los em uma estratégia nacional.

O objetivo seria garantir que as principais iniciativas que envolvam a China sejam consideradas não apenas individualmente, mas também em relação aos objetivos mais amplos estabelecidos pelo Plano Nacional.

5. De projetos a uma estratégia nacional de desenvolvimento

O Plano Nacional deve ter um horizonte suficientemente longo — idealmente dez anos — para distinguir oportunidades de curto prazo de capacidades nacionais de longo prazo. Seu propósito não seria o de predeterminar todos os projetos futuros, mas sim o de fornecer a direção estratégica a partir da qual projetos e parcerias podem ser avaliados. Uma proposta de investimento, infraestrutura, tecnologia ou cooperação científica com a China deve, portanto, ser avaliada por meio de uma pergunta simples, porém exigente:

De que forma isso contribui para uma capacidade de desenvolvimento que o Brasil identificou como estrategicamente importante?

Isso altera o papel do Estado.

Não se espera que o Estado determine todos os resultados econômicos. Espera-se que ele defina prioridades, coordene instituições, reduza a fragmentação e crie as condições para que capacidades complementares possam gerar desenvolvimento.

O investimento, a tecnologia e o financiamento chineses devem ser conectados, sempre que possível, aos objetivos brasileiros em produção, inovação, emprego, infraestrutura e capacidade tecnológica.

Não se trata de impor um modelo uniforme a toda a cooperação.

Trata-se de garantir que a relação contribua cumulativamente para o desenvolvimento nacional, em vez de permanecer uma coleção de sucessos isolados.

Conclusão: Planeje o relacionamento para construir o futuro.

Brasil e China já estabeleceram as bases políticas para uma nova etapa em seu relacionamento. Em 2024, os dois governos elevaram os laços bilaterais a uma comunidade China-Brasil com futuro compartilhado e se comprometeram com uma maior sinergia entre suas estratégias de desenvolvimento. Identificaram infraestrutura, finanças, ciência e tecnologia, transição energética, economia digital, inteligência artificial e outras áreas como prioridades para uma cooperação mais profunda.

Em 2025, os dois governos reafirmaram o objetivo de aprofundar essa sinergia e expandir a cooperação em áreas tradicionais e emergentes, incluindo infraestrutura, agricultura, transição energética, aeroespacial, economia digital e inteligência artificial.

O próximo passo deve ser transformar esse compromisso político em um instrumento de planejamento brasileiro.

Um Plano Nacional de Cooperação Internacional com a China permitiria ao Brasil deixar de reagir às oportunidades e passar a moldá-las deliberadamente. Conectaria a relação com a estratégia de desenvolvimento da China aos próprios esforços brasileiros em industrialização, infraestrutura, tecnologia, energia e desenvolvimento social.

Seu ponto de partida devem ser os problemas do Brasil.

Seu método deve ser o planejamento estratégico.

Seu princípio organizador deve ser a cooperação compartilhada.

E a sua medida de sucesso deve ser as capacidades que a cooperação cria.

O Brasil não deve permitir que a dimensão de seu relacionamento com a China se torne um substituto para o planejamento estratégico. Deve usar esse relacionamento como um instrumento de planejamento estratégico.

O objetivo, portanto, não é simplesmente aprofundar a cooperação Brasil-China. É fazer com que essa relação se torne parte da capacidade de desenvolvimento de longo prazo do Brasil. O Brasil não deve esperar por oportunidades com a China para definir sua estratégia. Deve definir sua estratégia de desenvolvimento e organizar a cooperação com a China em torno dela.

Editor: Zhiyu Wang




Comentários