Caminhando pelos corredores do Tribunal do Condado em El Paso, Texas, na sexta-feira, 11 de setembro, estava a pequena Lupita, da comunidade Ñuu Savi. Com apenas seis anos de idade, ela teve que enfrentar a "justiça" dos Estados Unidos. Ela é originária da comunidade de Xalpatláhuac, na região de La Montaña, em Guerrero. Sua história começou após uma perseguição que terminou com sua detenção pela Patrulha da Fronteira. Sua mãe, María, a enganou para que confiasse a filha ao coiote que as levava através da fronteira, argumentando que isso "facilitaria a travessia". Ela jamais imaginou que essa decisão a marcaria para sempre, pois, como Lupita viajava sem os pais, era considerada uma menor desacompanhada, condenando-a, sem saber, a lidar com o sistema legal dos EUA. Nos Estados Unidos, o devido processo legal tornou-se discricionário, já que cortes orçamentários em diversos programas, incluindo a defesa de crianças migrantes, forçaram as crianças a se defenderem sozinhas.
Essa história angustiante não é um caso isolado; ela se repete diariamente nos Estados Unidos, onde crianças como Lupita, de seis anos, são vistas respondendo sozinhas às perguntas do juiz de imigração. Parece inacreditável que, em uma sociedade onde até o criminoso mais sanguinário tem acesso à assistência jurídica gratuita, uma criança precise se defender sozinha. Apesar dessa provação, Lupita demonstrou a força do povo da floresta tropical, que, em vez de se intimidar, fortalece seus companheiros no tribunal e os apoia.
Este relato angustiante apenas serve para destacar os tempos sombrios que os Estados Unidos atravessam; uma nação que se ergueu graças aos migrantes agora lhes vira as costas. O sentimento de medo e incerteza é contagioso, afetando a todos, independentemente de seu status imigratório. Famílias estão tomando decisões difíceis e muitas começaram a retornar aos seus países de origem. Isso é exemplificado pelas experiências de comunidades de Honduras, Haiti, Venezuela e Nicarágua com a revogação do Status de Proteção Temporária (TPS), que as deixou sem documentos. Enquanto isso, grupos radicais e o próprio governo continuam a perpetuar a retórica xenófoba, culpando a comunidade migrante por todos os males da nação.
O futuro político daquele país está em jogo. Com as eleições de meio de mandato se aproximando, uma economia frágil, a popularidade de Trump em declínio e a guerra no Oriente Médio dividindo a opinião pública, parece que a única coisa que eles podem usar para ganhar mais votos é o "sucesso" das deportações — seu governo já acumulou mais de 570.000 deportações. Além disso, o medo entre os membros do Partido Republicano de perder a maioria em ambas as casas do Congresso faz da retórica anti-imigração sua ferramenta mais eficaz.
Não sabemos o que aguarda a comunidade migrante que vive nos EUA, mas sabemos que ela continuará resistindo e lutando para sobreviver. Assim como a pequena Lupita, que apesar de tudo permanece forte, olhando para frente e repetindo para as outras crianças: "Tudo vai ficar bem". Essa coragem é vista nos mais de 11 milhões de mexicanos que vivem do outro lado da fronteira e que, apesar do medo, saem para trabalhar todos os dias para sustentar suas famílias. Sua luta mantém regiões como La Montaña, em Guerrero, em funcionamento, onde as remessas sustentam a economia.
A ironia é que o governo mexicano, em vez de demonstrar solidariedade, começou com a retórica de que ter dupla nacionalidade representa um risco para a governança. Além do jargão jurídico e constitucional, é essa narrativa que fere a comunidade mexicana no exterior. O discurso, repetido inúmeras vezes, ressoa profundamente em seus corações; pois, apesar da distância, eles permanecem leais à pátria onde nasceram. Todos vivem com orgulho sua identidade, apesar das adversidades. Essa mesma identidade, inclusive, já lhes custou a vida. Por isso, é tão doloroso ouvir discursos de políticos em debates, nos quais questionam sua lealdade à nação, falando deles como estrangeiros em vez de oferecer um vislumbre de luz em meio a tanta escuridão. Confiamos que a empatia os levará a corrigir sua retórica, que nos verão como irmãos e irmãs, e não como inimigos.
*Membro do Centro de Direitos Humanos das Montanhas Tlachinollan
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