A escória do Brasil

Imagem: Pascal Küffer


Por LUIS FELIPE MIGUEL*

Flávio Bolsonaro é aquele sujeito sem sal, o tipo que vai na festa, fica do começo até o fim, e depois a gente não lembra se esteve lá ou não. Flávio Bolsonaro é só um nada

Anos atrás, nos sombrios tempos em que Jair Bolsonaro era o presidente do Brasil, escrevi um texto intitulado “A raposa de Rio das Pedras”. Falava da decadência da elite política brasileira, não em termos de seus valores, mas de sua habilidade.

Tinha um tempo em que a política nacional era dominada por gente como Tancredo Neves, Petrônio Portella, Leonel Brizola, Francelino Pereira, Ulysses Guimarães, José Sarney. Podemos gostar ou não de cada um deles, mas temos que reconhecer que eram todos políticos habilidosos. “Raposas”, como se dizia.

Agora (eu dizia naquele artigo, e o “agora” era um governo que deixava o povo morrer com a condução criminosa da pandemia, conspirava a céu aberto contra a Constituição, mas ainda assim alcançava um modus vivendi com o Congresso e com o Judiciário), em vez de gente matreira, ardilosa, o cenário político via o triunfo de um truculento como Jair Bolsonaro, incapaz de um raciocínio sutil, de uma manobra elegante.

E agora (o nosso “agora”, deste segundo turno tenso e desafiador), como tudo que existe no mundo é capaz de piorar, corremos o risco de ver, na presidência da República, o filho deste sujeito.

Eu costumo dizer que há uma coisa boa que podemos falar sobre Jair Bolsonaro: um dia ele vai morrer. Em Flávio Bolsonaro, podemos reconhecer uma outra qualidade. Ele é a reunião de tudo o que de pior a escória do Brasil é capaz de produzir. Um mostruário de defeitos. Um catálogo de vícios.

Ele é daqueles sujeitos que são definidos integralmente pela palavra “filho”. Tudo o que conquistou na vida, conquistou por causa do pai, desde o primeiro emprego fantasma na Câmara dos Deputados, quando tinha apenas 19 anos, até a candidatura a presidente da República.

Foi o sobrenome paterno que lhe garantiu sucessivos mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro e, depois, a cadeira de senador. Seu irmão Eduardo, que obviamente também não é flor que se cheire, mas ao menos tem mais personalidade, foi mandado para São Paulo, para conquistar sua vaga na Câmara dos Deputados. Flávio Bolsonaro, não. Flávio Bolsonaro ficou agarrado a barra da saia do pai, por assim dizer, no Rio de Janeiro.

Foi Jair Bolsonaro, também, quem apresentou Flávio Bolsonaro ao ambiente em que ele se sente mais em casa, o das milícias.

Lembram do Queiroz?

Flávio Bolsonaro é aquele sujeito sem sal. Se não fosse o filho de quem é, seria o tipo que vai na festa, fica do começo até o fim, e depois a gente não lembra se esteve lá ou não. O pai é tosco, um irmão é hidrófobo, o outro é delirante. Flávio Bolsonaro é só um nada.

Tem um olhar baço, de peixe morto. Está muito bem ensaiado pelos seus marqueteiros, mas não consegue deixar de ter um jeito meio robótico. Flávio Bolsonaro grita, mas não empolga. Balança, mas não tem gingado. Aqueles que o aplaudem, não o aplaudem: estão aplaudindo o pai, por interposta pessoa.

O caso do debate para o Senado no Rio de Janeiro, em que ele desmaiou e borrou as calças, com medo de enfrentar as perguntas, é emblemático. Mostra de que madeira ele é feito. Certamente não a de um líder.

O caso do fim da escala 6×1 também é emblemático. Flávio Bolsonaro era contra. Quando viu que era impossível adiar a votação no Senado, votou a favor. Mas prometeu a seus apoiadores no patronato que, se eleito, vai fazer uma nova PEC para voltar atrás. É a postura de quem não consegue afirmar sua própria posição. A postura de quem não tem compostura. E de um mentiroso.

Não surpreende. Ele não fez propaganda dizendo que vai acabar com as milícias? Depois de tantas declarações públicas de amor a elas, depois de tantas homenagens, depois de tudo o que recebeu delas, vai cuspir no prato em que comeu? Certamente, por trás dos panos, os chefes já foram assegurados de que tudo continuará bem.

Aos 45 anos, ele não é um menino. É natural pensar que ele se sente frustrado, que a essa altura da vida já gostaria de ter feito algo por si mesmo, construído uma personalidade própria, se tornado algo além do 01. Mas parece que não Flávio Bolsonaro está contente, acomodado na sua posição de nulidade, pior ainda, de preposto de uma nulidade.

João Moreira Salles publicou um texto, logo antes do primeiro turno, indigitando os expoentes da elite econômica brasileira, herdeiros como ele, banqueiros, investidores, executivos de grandes corporações, a turma do dinheiro, enfim, que estava apoiando o filho do Bolsonaro mesmo sabendo quem ele é.

A questão central é essa: eles sabem.

Não se trata de gostar ou não gostar de Lula. Esse pessoal até podia gostar, tanto cuidado que os governos do PT tiveram para não machucar seus interesses. Mas não gostam, é claro, seja porque um operário ter chegado ao poder dá um péssimo exemplo, seja porque nossa classe dominante tem alergia à igualdade e não tolera qualquer política redistributiva, por mais tímida que seja. Mas uma coisa, dizia João Moreira Salles, é não gostar de Lula. Outra coisa é estar disposto a colocar um criminoso no poder.

Flávio Bolsonaro não é só um despreparado, embora tenha dado provas cabais de sua absoluta ausência de conhecimento, de competência ou de ideias para administrar qualquer coisa, quanto mais para comandar um país de dimensões continentais.

Não é só um extremista de direita, embora também o seja, com sua defesa da tortura, sua ojeriza aos direitos, seu apreço por todas as formas de preconceito e discriminação, sua defesa das hierarquias sociais, seu desprezo pela solidariedade, seu gosto pela violência. Não é só alguém que não tem compromisso com a democracia, embora realmente vilipendie e trabalhe para subverter as instituições democráticas.

Não é só uma pessoa desumana, embora se mostre incapaz de um gesto de empatia ou de compaixão pelo próximo. Não é só um entreguista, embora não esconda seu desejo de submeter o Brasil aos Estados Unidos, oferecendo nossas riquezas e sua subserviência canina aos senhores de Washington.

Não é só um corrupto, embora também não haja dúvidas quanto a isso, alguém que começou como funcionário fantasma, com emprego presencial em Brasília enquanto fazia graduação também presencial no Rio de Janeiro, passou pelo esquema de rachadinha no gabinete, com aquela predileção insuperável por depósitos em dinheiro vivo, e chegou nos esquemas de Daniel Vorcaro, o maior escândalo financeiro de nossa história, do qual ele desponta como protagonista, mesmo com todos os esforços do pau-mandado de seu pai, André Mendonça, para abafar sua participação.

Inepto, extremista, desumano entreguista, corrupto: tudo isto está dentro da “normalidade” dos tristes tempos atuais.

Crime organizado

Mas Flávio Bolsonaro é também um expoente do crime organizado, cujos interesses defende de forma permanente e com o qual mostra ter vínculos ainda mais estreitos do que os de seu pai. Uma vinculação que ele fez questão de ostentar ao longo de toda a sua vida pública.

Ou alguém consegue imaginar um deputado homenageando um bandido que está preso e indo cadeia lhe dar uma medalha, se não se sente obrigado a expressar publicamente sua lealdade? Ou um senador, no exercício de seu mandato, atuando como advogado do assassino de uma criança de apenas cinco anos – por que ele faria isso, se não fosse para mostrar um “contem comigo” para os integrantes de seu bando criminoso?

Quem assistiu ao seriado Narcos sabe que Pablo Escobar tentou uma carreira política e sonhava ser presidente da Colômbia. Flavio Bolsonaro está próximo de realizar aqui, no Brasil, o sonho do chefe do cartel de Medellín.

Que o nepobaby da milícia tenha chegado, com vantagem, ao segundo turno da eleição presidencial é culpa de muita gente. Sim, dos endinheirados listados por João Moreira Salles.

Mas também da nossa imprensa corporativa, que sempre foi e continua sendo complacente com o clã Bolsonaro. Ah, vão dizer, eles noticiam os escândalos. É verdade, noticiam alguns deles, não todos, mas nunca de forma capaz de dar a dimensão de quem realmente é o candidato do PL. Como se fossem os escândalos “normais” a que já estamos acostumados na nossa elite política.

Também de muitos pastores e padres, que sabem perfeitamente quem estão apoiando, em nome de um Cristo que prega o ódio e defende os privilegios. Dos políticos do Centrão, que se deixam levar pelo oportunismo imediato. Dos influenciadores que recebem grana e que não se importam de dar sua contribuição para a vitória do mal. De tantos “cidadãos de bem” que se deixam guiar pelo ódio ao PT e a Lula e que sabem muito bem que estão entregando o Brasil a um bandido.

O que nos espera é a destruição do país. Temos poucos dias para evitar esse resultado.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de ciência política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente no substack do autor Amanhã não existe ainda.



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