Acadêmico brasileiro: Na cooperação sino-brasileira, não podemos perguntar apenas o que a China pode trazer.
José Barrios Diaz
guancha.cn/
As relações entre Brasil e China entraram em uma nova fase. Nas últimas duas décadas, a China se tornou o parceiro comercial mais importante do Brasil e vem se consolidando como um ator cada vez mais relevante nos setores de investimento, infraestrutura, energia, agricultura, finanças, ciência e tecnologia e economia digital do país. Hoje, essa relação envolve diretamente muitas questões que determinarão a trajetória de desenvolvimento do Brasil.
Isso representa um novo desafio político.
O Brasil precisa pensar e planejar seu relacionamento com a China a partir de uma perspectiva estratégica, encarando-o como um componente fundamental de sua estratégia nacional de desenvolvimento, e não como uma série de colaborações independentes e isoladas entre instituições.
Isso não significa enfraquecer os aspectos diplomáticos ou internacionais dessa relação. Significa reconhecer que a escala econômica e a natureza multidimensional da relação com a China tornam a política em relação à China cada vez mais significativa na influência das escolhas de desenvolvimento interno do Brasil.
O Brasil enfrenta desafios persistentes, incluindo baixa produtividade, desindustrialização, dependência tecnológica, infraestrutura inadequada, desigualdade no desenvolvimento regional e a necessidade de acelerar a transformação energética e digital. A cooperação apenas com a China não pode resolver esses problemas. No entanto, as capacidades acumuladas pela China, sua experiência em transformação tecnológica, capacidade de investimento e expertise em infraestrutura e desenvolvimento industrial tornam essa relação uma ferramenta potencialmente importante para abordar essas questões.
Portanto, a questão não é mais simplesmente se o Brasil deve aprofundar sua cooperação com a China, mas sim como o Brasil deve planejar essa cooperação para contribuir com a resolução dos principais desafios de desenvolvimento que o país enfrenta. Essa é precisamente a base lógica da "cooperação".
Cooperar não significa que o Brasil e a China tenham exatamente os mesmos interesses. "Comum" não significa "idêntico", mas sim que estão interligados. Isso significa identificar áreas onde diferentes interesses e capacidades nacionais podem se complementar e organizar conscientemente a cooperação em torno dessas complementaridades.
Portanto, esse conceito exige, primeiramente, que se formulem duas perguntas simultaneamente:
Em primeiro lugar, o que a China espera obter do Brasil?
Em segundo lugar, o que o Brasil espera obter da China?
A cooperação estratégica surge quando os interesses de ambas as partes podem ser vinculados aos seus respectivos objetivos de desenvolvimento.

O Brasil precisa planejar que tipo de relações espera construir.
O Brasil deveria desenvolver um plano nacional de cooperação internacional com a China.
O ponto de partida para o desenvolvimento deste plano não deve ser um diretório de setores onde a cooperação seja possível, mas sim os principais problemas que o Brasil precisa enfrentar. Essa distinção é crucial.
A abordagem tradicional começa com as oportunidades: investimento chinês, tecnologia chinesa, projetos de infraestrutura, novos mercados ou financiamento. A política pública estratégica, por outro lado, parte dos objetivos nacionais e considera como as parcerias externas podem ajudar a alcançar esses objetivos.
Portanto, o Brasil deve identificar um número limitado de desafios de desenvolvimento nos quais a cooperação com a China possa ter um impacto transformador significativo.
A transformação industrial é um desses desafios. O Brasil precisa aumentar a produtividade, diversificar sua estrutura produtiva e ingressar em segmentos mais complexos e de maior valor agregado da cadeia de valor global. Os investimentos e a capacidade tecnológica da China podem contribuir para esse objetivo, mas somente se a cooperação for integrada à produção nacional, ao desenvolvimento de fornecedores locais, à aprendizagem tecnológica e à modernização industrial.
Infraestrutura e conectividade são outra área importante. As necessidades de infraestrutura do Brasil não são meramente logísticas; elas também impactam a produtividade, a integração regional e a capacidade do Brasil de conectar sua economia produtiva aos mercados globais. Portanto, a cooperação com a China deve estar atrelada às prioridades de infraestrutura do Brasil, incluindo a integração sul-americana.
Ciência, tecnologia e inovação também são fundamentais. O Brasil precisa expandir sua capacidade de criar e absorver tecnologia, em vez de permanecer principalmente um consumidor de produtos tecnológicos. Parcerias com universidades, instituições de pesquisa e empresas chinesas podem servir como ferramenta para o desenvolvimento tecnológico conjunto.
A transição energética oferece outra área estrategicamente complementar. O Brasil possui abundantes recursos de energia renovável e capacidades relacionadas, enquanto a China já desenvolveu notáveis capacidades industriais e tecnológicas em energia renovável, transporte elétrico, baterias de energia e tecnologias afins.
Agricultura, segurança alimentar, saúde e bem-estar, biotecnologia e transformação digital também oferecem oportunidades semelhantes.
O importante é não deixar que a China resolva esses problemas.
O ponto crucial é que o Brasil deve determinar em quais áreas as capacidades da China podem ser incorporadas à estratégia de desenvolvimento brasileira.
O Brasil precisa deixar claro o que espera obter da China.
O Brasil desenvolveu uma forte capacidade institucional para compreender a China como parceiro comercial e agente diplomático. Agora, o Brasil precisa aprimorar ainda mais sua capacidade de compreender a China como parceira para o desenvolvimento: entender o que as agências governamentais, empresas e organizações de pesquisa chinesas buscam internacionalmente, quais capacidades possuem e como esses interesses podem se cruzar com os objetivos do Brasil.
Mas entender a China é apenas metade da batalha; o Brasil também precisa ser capaz de articular claramente o que deseja.
O presidente Lula já deu orientações nesse sentido. Em 2024, ele destacou que a parceria Brasil-China deveria ir além da exportação de commodities e se expandir para ciência e tecnologia, incluindo áreas como semicondutores e software, com o objetivo de gerar empregos e oportunidades de desenvolvimento em ambos os países. Essa aspiração também se refletiu no fortalecimento das relações bilaterais durante a visita de Estado do líder chinês ao Brasil em 2024. Naquela ocasião, os dois governos se comprometeram a buscar maior sinergia entre suas respectivas estratégias de desenvolvimento e a ampliar a cooperação em infraestrutura, energia, agronegócio, comunicações e outras áreas estratégicas.

O desafio reside em traduzir essa visão política em uma capacidade de planejamento coerente, definindo claramente de que maneiras a cooperação com a China pode contribuir para o desenvolvimento nacional de longo prazo do Brasil.
Portanto, um plano nacional brasileiro de cooperação internacional com a China deve definir claramente cada área prioritária:
Que capacidades o Brasil espera desenvolver?
Que contribuições específicas a cooperação com a China pode trazer?
Que capacidades o Brasil pode trazer para essa parceria?
Quais agências governamentais e participantes do setor privado precisam aderir?
Quais resultados a longo prazo o Brasil espera alcançar?
Isso mudará a base das interações do Brasil com seus parceiros chineses.
O Brasil não deve mais se concentrar principalmente em:
O que a China pode oferecer ao Brasil?
Pelo contrário, o Brasil deveria ser capaz de dizer o seguinte:
Essa é a capacidade que o Brasil precisa desenvolver. É assim que o Brasil acredita que as capacidades da China podem contribuir para seus objetivos de desenvolvimento. Essa é a causa que o Brasil pode construir em conjunto com a China.
Este é o fundamento da capacidade de ação autônoma estratégica.
Cooperar significa transformar a complementaridade em resultados de desenvolvimento.
O conceito de "cooperação" só faz sentido de fato quando os benefícios se traduzem em projetos de desenvolvimento concretos.
Brasil e China possuem estruturas econômicas, capacidades tecnológicas e prioridades de desenvolvimento distintas. São justamente essas diferenças que podem criar oportunidades de complementaridade. As capacidades industriais e tecnológicas da China podem ser combinadas com os recursos produtivos, instituições de pesquisa, potencial energético, capacidades agrícolas, mercados e localização geográfica do Brasil.
No entanto, a complementaridade não leva automaticamente ao desenvolvimento; a complementaridade precisa ser organizada.
Tomemos como exemplo a cooperação industrial. Empresas chinesas podem querer entrar no mercado brasileiro e nas redes de produção regionais. O Brasil, por sua vez, pode querer atrair investimentos, tecnologia, empregos e modernização industrial. Uma estratégia de colaboração deve buscar parcerias que conectem esses interesses por meio da produção local, desenvolvimento de fornecedores, pesquisa conjunta, capacitação da força de trabalho e aprendizado tecnológico.
O mesmo princípio se aplica à infraestrutura. A capacidade de financiamento e construção da China pode contribuir para os objetivos de infraestrutura do Brasil, mas a questão estratégica é como projetos individuais podem servir às prioridades mais amplas do Brasil de desenvolvimento espacial, crescimento da produção e integração regional.
Essa é a diferença entre cooperação mutuamente benéfica e colaboração estrategicamente organizada.
A pergunta anterior é: Ambos os lados podem se beneficiar disso?
A última questão indaga: Como esses interesses podem ser vinculados a objetivos nacionais de longo prazo?
Continuar a avançar com base nas instituições existentes.
O Brasil não precisa construir seu relacionamento com a China do zero.
A relação bilateral entre a China e o Brasil já possui uma base institucional sólida, incluindo mecanismos de cooperação em múltiplos níveis departamentais. O que falta atualmente é um mecanismo próprio do Brasil para integrar essas colaborações em uma estratégia nacional comum.
Portanto, o governo brasileiro poderia estabelecer um comitê interdepartamental para desenvolver um plano nacional de cooperação com a China, esclarecendo as prioridades nacionais e os objetivos estratégicos.
Os dois países já iniciaram a cooperação em desenvolvimento, ciência e tecnologia, agricultura, energia, infraestrutura e outras áreas. Mais importante ainda, Brasil e China começaram a estabelecer mecanismos que correspondem à lógica aqui apresentada.
Isso é importante porque demonstra que a questão institucional não é se tal plano é viável. A base já existe; o que falta é integrar essas bases a uma estratégia nacional. O objetivo deve ser garantir que as principais iniciativas que envolvam a China não sejam apenas analisadas isoladamente, mas também vinculadas aos objetivos mais amplos definidos pelo plano nacional.
Do projeto à estratégia nacional de desenvolvimento
Os planos nacionais devem ter um horizonte temporal suficientemente longo — idealmente dez anos — para distinguir entre oportunidades de curto prazo e capacidades nacionais de longo prazo.
Seu objetivo não é predeterminar todos os projetos futuros, mas sim fornecer uma direção estratégica que permita avaliar adequadamente diversos projetos e parcerias.
Portanto, uma proposta que envolva investimento, infraestrutura, tecnologia ou cooperação científica com a China deve ser avaliada por meio de uma pergunta simples, porém rigorosa:
De que forma esta proposta pode contribuir para as capacidades de desenvolvimento estrategicamente importantes já identificadas no Brasil?
Isso mudará o papel do Estado. O Estado não precisará mais decidir sobre todos os resultados econômicos; seu papel será priorizar, coordenar agências, reduzir a fragmentação e criar condições que permitam que capacidades complementares produzam resultados de desenvolvimento.
Sempre que possível, o investimento, a tecnologia e o financiamento chineses devem estar alinhados com os objetivos do Brasil em produção, inovação, emprego, infraestrutura e capacidades tecnológicas.
Não se trata de impor um modelo único a toda a cooperação. Trata-se, sim, de garantir que a relação promova o desenvolvimento nacional de forma cumulativa, em vez de permanecer uma série de sucessos isolados.
Conclusão: Planeje esse relacionamento para construir o futuro.
Brasil e China lançaram as bases políticas para uma nova fase em suas relações bilaterais.
Em 2024, os dois governos elevaram as relações bilaterais a uma comunidade China-Paquistão mais estreita, com um futuro compartilhado, e se comprometeram a fortalecer ainda mais a sinergia entre suas estratégias de desenvolvimento. Os dois países identificaram infraestrutura, finanças, ciência e tecnologia, transição energética, economia digital, inteligência artificial e outras áreas como pontos-chave para o aprofundamento da cooperação.
Em 2025, os dois governos reafirmaram seu objetivo de aprofundar essa sinergia e expandir a cooperação em setores tradicionais e emergentes, incluindo infraestrutura, agricultura, transição energética, aeroespacial, economia digital e inteligência artificial.
O próximo passo deve ser fornecer uma ferramenta de planejamento brasileira para esse compromisso político.
Um plano nacional de cooperação internacional com a China permitirá ao Brasil deixar de ser um mero receptor de oportunidades e passar a moldá-las conscientemente. Ele vinculará as relações Brasil-China à estratégia de desenvolvimento da China e aos próprios esforços brasileiros em industrialização, infraestrutura, tecnologia, energia e desenvolvimento social.
Seu ponto de partida devem ser os problemas do Brasil.
Sua abordagem deve ser o planejamento estratégico.
Seu princípio organizacional deve ser a cooperação.
O padrão para medir o sucesso dessa colaboração deve ser a capacidade criada por ela.
O Brasil não deve permitir que a dimensão de seu relacionamento com a China se torne um substituto para o planejamento estratégico. Em vez disso, o Brasil deve utilizar esse relacionamento como uma ferramenta em seu planejamento estratégico.
Portanto, o objetivo não é apenas aprofundar a cooperação Brasil-China, mas tornar essa relação parte integrante da capacidade de desenvolvimento de longo prazo do Brasil. O Brasil não deve esperar por oportunidades de cooperação com a China para definir sua estratégia; o Brasil deve primeiro definir sua própria estratégia de desenvolvimento — e organizar sua cooperação com a China em torno dessa estratégia.
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