Antes de votar no sujeito, olhe o Código Penal

Nonato Menezes

O sujeito é criminoso, certo? Embora ainda não tenha sido julgado e condenado, dada a proteção das “poderosas forças nem tanto ocultas”, ele contratou pessoas para praticar as “rachadinhas”. Até ontem não conseguiu justificar que pagar com dinheiro vivo pela compra de 51 imóveis não foi uma operação ilícita. É acusado pelo (MP-RJ) por lavagem de dinheiro ao ter feito 1.512 depósitos em dinheiro vivo com cor, cheiro e rastro produzidos pelas “rachadinhas”. Toda essa dinheirama foi movimentada na suposta venda de “chocolates folheados em ouro” na loja do Shopping Via Parque, localizado na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. E o crime mais grave, de conspirar contra o próprio País. Este, aliás, o colocaria como primeiro a ser executado, fosse em país que adota a pena de morte.

É um contexto que me permite dizer que “O bolsonarismo” e, por extensão, quem vota na Famiglia Bolsonario, não representa apenas uma questão política para o País, mas um problema de saúde pública”.

Concordem ou não, mas a premissa não é baseada em ódio ou algo do tipo, mas em fatos. Fatos tirados da vida cotidiana, das ações coletivas e das manifestações individuais observadas.

Alguns exemplos.

Do ponto de vista coletivo, alguns fatos registrados são autoexplicativos. Ao depararmos, por exemplo, com um grupo de adultos, em círculo, orando para um pneu, em plena via pública, não podemos identifica-lo como autor de uma ação política, sob pena de ter havido intervenção dos órgãos de segurança. Por outro lado, tivesse havido iniciativa dos que estavam fora do evento, o correto seria acionar ambulâncias do SAMU. Entre uma e outra, deixou-se para a História o registro de um dos eventos mais bizarros do nosso tempo.

Seguindo o mesmo perfil, grupos de pessoas foram vistos clamando aos Extraterrestres por intervenção política no Brasil, com vozes estridentes em defesa de um golpe de Estado.

Do ponto de vista individual o problema é bem mais dramático, porque expõe a índole de quem é estúpido que pode agir por interesses escusos ou aqueles que se revelam simplesmente como doentes mentais.

 Perguntei a uma senhora o que a levaria votar em alguém da "Famiglia Bolsonaro". Ela disse que tinha nos Bolsonaro um “exemplo de família padrão”. Entendi, e escorreguei da conversa.

Em outra oportunidade, a justificativa por votar em qualquer um dos Bolsonaro porque que eles, os Bolsonaro, são “homens bonitos”. Interessante, não é mesmo?

Mas o padrão das respostas, quando pergunto o porquê de votar em alguém da Famíglia Bolsonaro, é dizer: Porque o “Lula é ladrão”.

Neste caso, perguntar o que teria como prova do que Lula teria roubado, a resposta tem sido sempre a mesma: “a mídia fala”.

A despeito dessas bizarrices, o que mais me chama atenção não é essa doença visceral, bem identificada como analfabetismo político, no dizer de Bertolt Brecht. O que me intriga mesmo é o fato de a maioria que vota no sujeito, vota sabendo que ele é um criminoso. E não digo isto baseado no que a “mídia fala”. Digo porque há inúmeras publicações que confirmam os crimes. Matérias jornalísticas diversas, vídeos com depoimentos e acusações graves que nunca foram contestados. Há até livro publicado como “O Negócio do Jair: A história proibida do clã Bolsonaro”, de Juliana Dal Piva. Todos disponíveis no terreno que pisamos.

O acervo é extenso, à disposição de quem tiver um celular conectado à internet. E para quem “preferir” levar em conta apenas o que ouve, basta lembrar das “rachadinhas”, termo conhecido até por quem “odeia política”, cuja referência é tão forte que poderia muito bem ser usado como “nome social” ou mesmo como “sobrenome”.

A palavra “inocente” que possa ser usada como justificativa para votar nesse sujeito não é por desconhecer os crimes dele, não é por erro, nem por dúvida. É por deliberada cumplicidade. E quem é cúmplice, meu amigo, minha amiga, é bom que veja o que diz o Artigo 29 do Código Penal, antes de votar. (O "cúmplice"): É quem não executa diretamente o crime, mas colabora de forma secundária para que ele aconteça.

É claro que no terreno do Direito, a verdade pode ser tão subjetiva e circunstancial que a versão a convencer os operadores da Lei tanto pode ser a “razoável”, quanto “tácita”, ou simplesmente “não ser”, por “falta de provas”, “erros no processo” ou por outras, muitas outras possíveis tipificações do gênero.

 Mas cá entre nós; votar para presidir o País em alguém que carrega tantas suspeitas, acusações com provas, inquéritos fluindo na maciez das ações judiciais, certamente não é por imprudência, mas por cumplicidade mesmo. E se essa ação tem caráter tão evidente é, na pior das hipóteses, razoável responsabilizar quem vota nesse sujeito que quer ser presidente da República.

Por fim, devo acrescentar que, de todos esses eleitores, duas categorias deveríamos considerar: a dos idiotas que veem nos Bolsonaro “uma família padrão”, por exemplo, e dos que votam no sujeito mesmo sabendo que ele é um criminoso, numa ação deliberada de cumplicidade.




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