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O trumpismo deve ser compreendido como modalidade do fascismo eterno, e não como cópia do nazismo ou do fascismo italiano, bastando algumas características para produzir uma coagulação fascistizante
O debate sobre o caráter fascista ou não da ação de Donald Trump segue desenvolvendo-se na França e nos Estados Unidos. Tal debate foi relançado após 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio com seu apoio, enquanto ele pressionava o vice-presidente Mike Pence a recusar-se a certificar os resultados das eleições presidenciais que o davam como derrotado. Desde então, a ação política de Donald Trump, que voltou ao poder em 2025, tem fornecido novos elementos para alimentar este debate. A posição que aqui defendemos é que Donald Trump, sua ação no poder, sua ideologia, as pessoas que o cercam e o movimento MAGA constituem um fenômeno de tipo fascista.
Abordaremos esta questão de uma forma diferente daquela mais frequentemente utilizada pelos especialistas. Geralmente, para definir se um regime político pode ou não ser considerado fascista, recorre-se ao padrão de fascismo construído a partir destes dois fenômenos históricos que foram o nazismo alemão e o fascismo italiano: este regime está mais próximo ou mais distante destas únicas expressões autênticas do fascismo? Partimos de uma ideia diferente, sugerida por Umberto Eco numa conferência proferida em 1995 na Universidade de Columbia, em Nova Iorque: a de um “fascismo primitivo e eterno” (Ur-fascismus), que não se encarna num modelo particular, mas desenvolve características dentre as quais basta que algumas se manifestem para que se produza uma coagulação fascistizante.[i]
Para nós, este “Ur-fascismus” deve ser compreendido e estudado como um modelo antagonista, entre outros (nacionalista-conservador, comunista…), à democracia liberal, da qual ele é historicamente produto das crises. Deste ponto de vista, o fascismo italiano e o nazismo alemão (entre os quais, aliás, convém ressaltar as diferenças) representam expressões históricas, dentre outras, do fascismo e não sua única expressão autêntica. Não se trata, portanto, em primeiro lugar, de compararmos o trumpismo ao nazismo ou ao fascismo italiano, mas de ver até que ponto ele pode ser considerado uma das modalidades do fascismo, tal como o entendemos.
Constatamos que o desenvolvimento do fascismo ocorreu no seio das democracias liberais ao longo de dois períodos específicos: o período entre as duas guerras mundiais e o período atual, ambos marcados por uma crise e um enfraquecimento da democracia liberal. No final do primeiro período, os regimes fascistas entraram em colapso, principalmente na Alemanha, na Itália e no Japão, na sequência das guerras que travaram contra os regimes democráticos. Hoje, os Estados Unidos estão, na nossa opinião, sendo arrastados para uma dinâmica de fascistização.
A questão é saber se essa dinâmica prevalecerá ou se a democracia liberal poderá, tal como no período anterior, resistir a ela. Nosso objetivo é, portanto, demonstrar que existe hoje, nos Estados Unidos, uma ofensiva de tipo fascista que visa destruir o regime político americano estabelecido no final do século XVIII, mas também, de forma mais geral, o conjunto dos regimes de democracia liberal.
Um projeto de destruição da democracia liberal
Uma definição minimalista de democracia é que os cidadãos podem mudar seus governantes através do voto nas eleições e que os partidos no poder devem aceitar a perda de eleições. Com sua atitude em 6 de janeiro de 2021, recusando-se a reconhecer a validade dos resultados das eleições presidenciais, Donald Trump deixou de ser um democrata. Ao manter essa posição desde então, posicionou-se claramente como inimigo do regime democrático. Afirmou que apenas eleições fraudulentas poderiam levá-lo a perder o poder e reivindicou sua escolha por uma ditadura pessoal, declarando que era um ditador porque “muitas vezes é necessário um ditador”.
Para funcionar, a democracia representativa exige que os diferentes grupos parlamentares cheguem a compromissos ou, pelo menos, se considerem representantes de um mesmo povo. A visão trumpista é oposta a esta concepção, retomando a visão fascista de Carl Schmitt, segundo a qual o povo e seus representantes estão divididos em amigos e inimigos, entre os quais é impossível qualquer compromisso. Consequentemente, a função deliberativa do Parlamento torna-se inútil, uma vez que o Partido Republicano vota, em geral, de acordo com as ordens do presidente.
Para Donald Trump, a importância e o papel do poder legislativo no dispositivo institucional devem ser reduzidos ao mínimo. Foi por isso que ele não respeitou a obrigação de consultar o Congresso antes de entrar em guerra contra o Irã. Quanto ao Partido Democrata, pretende enfraquecê-lo ao máximo, declarando que buscava combater “os inimigos internos”, em particular os líderes democratas que ele descreve como radicais loucos e traidores manipulados pelos marxistas. Quanto aos eleitos republicanos, eles correm o risco de ter que enfrentar a concorrência de candidatos trumpistas, caso se recusem a obedecer ao chefe.
Adversário declarado do pluralismo, o projeto do presidente em matéria institucional consiste em substituir a democracia liberal por um regime de poder pessoal que se apoie numa base popular disposta a seguir seu chefe até o fim e independentemente do que ele faça, incentivando a organização de um culto à sua personalidade.
Assim, durante a recente convenção do Partido Republicano em Dallas, ele exigiu de seus apoiadores que prestassem um juramento coletivo de fidelidade, cujos termos ele próprio definiu: “Por favor, levantem a mão direita e digam: ‘Juro ao maior presidente da história dos Estados Unidos, que nos ama tanto que nem consegue respirar, que irei votar com minha família e meus amigos. Votarei de qualquer modo. Não importa se estou inscrito ou não. Vou trapacear muito, tal como eles fazem. Nunca houve maiores trapaceiros’”. O presidente do Comitê Nacional Republicano apresentou-o da seguinte forma: “Donald Trump é o maior porta-voz republicano de nossa época, o líder da América está de volta, o melhor presidente que este país já teve”.
Donald Trump sugeriu, durante sua campanha de 2024, que poderia pôr fim à Constituição para reverter os resultados das eleições caso estes lhe fossem desfavoráveis e afirmou que seria um ditador no primeiro dia de seu novo mandato, mas não depois disso. Ele constrói, peça por peça, um Estado autoritário que substitui o Estado de direito. A administração do Estado deve estar inteiramente a seu serviço. Não para de utilizar o Departamento de Justiça para acertar suas inúmeras contas pessoais e perseguir seus inimigos políticos. Ele mencionou sua intenção de recorrer ao Insurrection Act de 1807 para mobilizar o exército nos estados e cidades democratas. Mantém assim, de forma permanente, um clima de guerra civil no país.
Donald Trump compartilha com seu vice-presidente um projeto de enfraquecimento das democracias liberais em todo o mundo e, em particular, no hemisfério americano e na Europa, bem como de destruição das organizações internacionais e do direito internacional, tal como outrora a Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão nacionalista.
São proferidas ameaças contra a Groenlândia, o Canadá e a União Europeia. Quando se trata de democracias liberais, Donald Trump afasta-se de seus aliados de ontem, não só na Europa e no continente americano, mas também no Pacífico, onde trata o ditador norte-coreano de amigo, ao mesmo tempo que anuncia o adiamento de manobras conjuntas com a Coreia do Sul. Aceita que as despesas do casamento de seu filho sejam pagas por um oligarca russo amigo de Vladimir Putin e incentiva Javier Milei, o presidente argentino próximo de suas ideias, a tentar recuperar as Malvinas dos ingleses. Sabe-se também de sua aversão à OTAN.
Donald Trump baseou parte do sucesso de sua campanha presidencial na “recusa das guerras prolongadas”. Isto, como já se disse, diferencia-o dos regimes fascistas do período entreguerras mundiais, que cultivavam o belicismo. Mas é impossível não constatar que ele pratica um intervencionismo em todas as frentes, no Oriente Médio, na América Latina e até mesmo na África, com os bombardeios na Nigéria. Sua forma de se apropriar dos recursos dos diferentes países do continente americano (na verdade, da Venezuela e amanhã talvez de Cuba) não está longe de evocar um novo “espaço vital”! Como no final da década de 1930, o mundo reorganiza-se, assim, em torno de uma divisão entre ditaduras e democracias.
Uma visão da sociedade que poderia levar a uma guerra civil
O projeto trumpista de destruição da democracia liberal é fruto de sua visão da sociedade. Ela baseia-se na oposição entre “eles” e “nós”, ou seja, a oposição entre os “verdadeiros americanos” e os “de fora”, que são os muçulmanos, os imigrantes, a esquerda e os intelectuais. Partindo de uma visão conspiracionista, ele considera que estes grupos, interligados entre si, já comprometeram o país, auxiliados por um Estado profundo no qual se infiltraram e que ameaça destruir os Estados Unidos.
Trata-se, portanto, de se livrar, por todos os meios, destes grupos, daí, especialmente, a guerra contra as liberdades acadêmicas e contra os imigrantes. Durante a conferência de Dallas, o vice-presidente J. D. Vance retomou os temas da extrema-direita segundo os quais os imigrantes cometem crimes e provocam desordens, declarando: “Estamos fartos de ser chamados de racistas por termos reparado que nosso país se tornou mais sujo, mais pobre, menos seguro e menos próspero”.
Sua concepção racista do povo americano vai muito longe na busca por uma raça americana pura, uma vez que, num discurso proferido no Clermont Institute em julho de 2025, afirmou: “Penso que as pessoas cujos antepassados lutaram na Guerra Civil têm muito mais direito à América do que as pessoas que dizem que não pertencem a ela”. Em 7 e, posteriormente, em 24 de janeiro de 2026, dois cidadãos americanos foram, assim, mortos por agentes armados da milícia do ICE (Immigration and Customs Enforcement), uma agência federal.
O Departamento de Justiça recusou-se então a abrir uma investigação sobre estes assassinatos. Depois que o general Mark Milley declarou que Donald Trump perseguiria seus opositores caso vencesse as eleições presidenciais de 2024, este último sugeriu que o general deveria ser executado por traição.
Donald Trump e seus apoiadores consideram que as elites liberais falharam e provocaram o declínio do país. Através delas, são os próprios valores liberais, o humanismo e o universalismo do Iluminismo que são rejeitados e combatidos. Donald Trump opõe-lhes a lei do mais forte, o dinheiro como único padrão, o culto da força e o gosto pela violência, defendendo a supremacia branca. Ele apropria-se por conta própria da retórica fascista para convencer os cidadãos a romper com a democracia, utilizando mentiras, intimidações, ameaças, grosserias, insultos e invectivas, ou mesmo ao terror, sempre em busca de bodes expiatórios.
Chamou seus adversários políticos de “vermes”, lembrando assim um certo Hitler e um certo Mussolini. Seu objetivo é desumanizar as minorias e os opositores, explorando os ódios e ressentimentos que animam grande parte de sua base. Não cessa de purgar todas as administrações federais, substituindo pessoas competentes por lacaios. Seu revisionismo leva-o a censurar programas universitários e livros escolares.
Para quando a queima de livros? Sua política em relação à comunidade LGBT+ caracteriza-se por medidas de retrocesso nas políticas inclusivas e por restrições que visam particularmente as pessoas transgênero. Sua política de separação de famílias de imigrantes tem sido comparada à utilização de campos de concentração pelos regimes fascistas do passado.
O perigo fascista realmente existe hoje em dia
Na sequência dos resultados das recentes eleições na Saxônia-Anhalt, um editorial do semanário Der Spiegel, de 6 de setembro, afirmava: “O fim da democracia liberal não é inevitável”. Muitos considerarão, sem dúvida, que é exagerado atribuir tanta importância ao sucesso, em suma, regional, de um partido que não se reivindica explicitamente nazista, mesmo que pretenda fazer esquecer seu peso histórico. Mas este fato não é, contudo, um caso isolado.
Insere-se, de fato, numa onda mundial que assume, necessariamente, características específicas consoante os países, mas que revela inúmeras semelhanças. É importante destacar que, depois de seu vice-presidente, foi o próprio presidente Donald Trump que felicitou o AfD por sua vitória. Emmanuel Macron não estava errado, há algum tempo, ao falar de uma “Internacional reacionária”. Para qualificá-la, tornou-se habitual falar de “populismo”. A noção é, no entanto, a nosso ver, muito vaga.
Ela permite, é certo, apontar o sintoma de uma crise de nossas democracias ocidentais que se alimenta, por um lado, da rejeição das consequências da globalização econômica, com suas transformações tecnológicas e as evoluções na estrutura do emprego, e, por outro, de sociedades que tendem a desintegrar-se social e culturalmente. Consideramos, no entanto, que não devemos limitar-nos ao confronto entre um “populismo de direita” e um “populismo de esquerda”, que se unem nas críticas à democracia liberal, o que levou à criação do conceito recente de “democracia iliberal”, tendo sido a Hungria, na última década, o laboratório europeu para tal.
É preciso ir mais ao fundo da questão e evitar eufemismos. Talvez alguns se lembrem da frase que concluía o ensaio póstumo do presidente Georges Pompidou, Le Nœud gordien (publicado em 1974!): “O fascismo não é assim tão improvável. Está mesmo, creio eu, mais próximo de nós do que o totalitarismo comunista. Cabe a nós decidir se queremos resistir…”
Numa coluna do jornal New York Times de 16 de setembro, Jamelle Bouie iniciava seu artigo com a seguinte frase: “O Partido Republicano tem um problema neonazista”. Talvez algum movimento sísmico consiga impedir que a extrema-direita tome conta do Partido Republicano. Mas isso parece-nos ser apenas “wishful thinking”. Os momentos decisivos serão as próximas eleições de meio mandato e, posteriormente, as eleições presidenciais de 2028.
Assistiremos então a um golpe de Estado se os trumpistas perderem essas eleições? Saberemos então se, mais uma vez, as democracias são capazes de resistir com sucesso a uma onda fascista. A realidade complexa da sociedade americana, com todas as possibilidades de oposição que encerra, permite-nos pensar e ter esperança nisso. Entretanto, seria muito imprudente ignorar sua realidade e o perigo que ela representa para as liberdades.
*Alain Bergounioux é historiador. Autor, entre outros livros, de Les socialistes (Le Cavalier Bleu).
*Gérard Grunberg é diretor de pesquisas no CNRS-França. Autor, entre outros livros, de La loi et les prophètes: Socialistes français et les institutions (CNRS). [https://link.amazon/B04zI6Uek]
Publicado originalmente na revista Telos.
Tradução: Fernando Lima das Neves.
Nota
[i] Umberto Eco, Reconnaître le fascisme, Grasset. 2010. [https://link.amazon/B01jA30MQ]
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