Por JOSÉ RAIMUNDO TRINDADE*
A burguesia brasileira parece ter se dado conta de que para ela é preferível um governo controlado por setores milicianos com o estabelecimento de uma relação de subserviência colonial
1.
Faz muito que as crônicas políticas do Brasil dos últimos cinquenta anos se referem ou, de algum modo, remetem a presença no cenário social da figura histórica de Luiz Inácio Lula da Silva. A interseção entre estórias individuais e a história política e social brasileira nos parece ser uma boa forma de tratar a construção estética de como a realidade nacional se alterou, mas sobretudo como os diversos ciclos político-eleitorais se entrelaçam.
A crônica que apresento reconstitui meu próprio envolvimento político no longo período histórico dos últimos quarenta anos, tendo o sentido tanto de rememoração das disputas sociais, mas também demarcar o profundo sentido da resistência que significa reeleger Lula neste ano de 2026.
Refiro-me a seis encontros que tive com Lula que marcam já este longo período, sendo parte de uma trajetória que trilhamos um “mar da história agitado”, como nos ensinou Vladímir Maiakóvski. O meu primeiro encontro pessoal com Lula já vai no distante ano de 1986. Naquele ano tivemos a importante campanha pela Constituinte exclusiva, livre e democrática.
Nos encontrávamos em um momento quase único de mobilização popular, o movimento pelas “Diretas Já” e a oposição a “ditadura civil-militar”, aliado a crescente organização da juventude brasileira estabelecia a década de 1980 como a década da construção de um projeto de nação para o Brasil. Diferentemente do que proclamavam os “economistas” aquele período não foi de perdas, mas de ganhos, sendo que a construção da CUT (Central Única dos Trabalhadores), do MST e de partidos políticos de viés popular fazem daquele período um momento daqueles que Florestan Fernandes batizou de “contra hegemônicos”.
As “Caravanas” para Brasília foram o auge daquele ano. Participamos mobilizando e organizando os ônibus que foram de Belém. Em maio daquele ano tivemos enormes concentrações populares na Praça dos Três Poderes, justamente fruto dessas manifestações que tive meu primeiro encontro com Lula. Na reunião que participaram também Florestan Fernandes, José Genoíno, Virgílio Guimarães, Luiz Gushiken, entre outros. Tive a oportunidade de debater e tratar de parte das propostas que seriam estabelecidas na Constituição de 1988.
2.
O segundo encontro com Lula se deu na memorável campanha de 1989, um momento de potencial inflexão política na história brasileira. A burguesia brasileira realizou naquele momento uma das maiores peripécias bonapartistas. Recorreu a segmentos do “submundo”, algo que se repetirá de forma mais forte nos últimos anos, para contornar a crescente radicalidade da população brasileira e maior capacidade organizativa.
As eleições de 1989 não foram somente um mero momento eleitoral, representou significativa mobilização radicalizada, infelizmente o movimento de aproximação com segmentos do “lumpemproletariado” e voltados a desorganizar a sociedade civil nacional saiu vitoriosa, sendo que a eleição de Fernando Collor de Mello em grande medida antecipa o processo de “mafialização” das relações de poder político, algo que encontra seu ponto máximo no atual momento.
Naquele ano de 1989 participamos da organização da campanha de Lula e estivemos presente em uma das maiores marchas realizadas em Belém. Marchamos por mais de dez quilômetros e o número de pessoas participando, em grande medida jovens, refletiam a força em ascensão da esquerda brasileira.
Ao longo dos anos 1990 a disputa contra o projeto neoliberal que se impunha desde os EUA e do chamado Consenso de Washington (1989) foi intenso, sendo que dois momentos foram marcantes e constituem o terceiro e quarto encontros com Lula. Em 1993, a “Caravana da Cidadania” se iniciava, o projeto de conhecimento do Brasil profundo tinha um toque “prestista” de algum modo rememorando a incrível marcha de Prestes na década de 1920.
A “Caravana das Águas” em 1994, percorreu uma parte do Pará, especialmente tive a grata oportunidade de estar em Abaetetuba, cidade ribeirinha que passava a ser influenciada por grandes projetos, sendo que o caráter de análise e contato direto com a realidade dos povos fluviais foi naquela altura um enorme fator de reforço da figura pública de Lula.
O quarto momento se deu nas eleições frustradas daquele mesmo ano, quando a lógica neoliberal se impôs como uma ideologia preponderante que, somado ao significado econômico do Plano Real, fez com que FHC se elegesse ainda em primeiro turno. Novamente o comício pouco expressivo realizado em Belém naquele ano de 1994, demarcava um pouco do próprio sentido nacional daquelas eleições e de como a ideologia neoliberal e do empreendedorismo tinha se tornado um movimento de reorganização da classe dominante.
Quebrou parte da organização da sociedade civil brasileira e atraindo novamente setores médios para uma parcial conciliação, aquele momento definiria às novas condições de dependência e subordinação da sociedade brasileira ao imperialismo estadunidense, aprofundando a perda de soberania nacional, inclusive da capacidade fiscal do Estado nacional e impondo um amplo choque de desindustrialização.
3.
O meu quinto encontro pessoal ou coletivo se deu nas manifestações que antecederam a eleição de 2002. Como Lula declarou, pela primeira vez na história brasileira um indivíduo das forças de baixo esteve à frente do poder executivo, algo inusitado e que se deu sob enorme tensão social e econômica.
Os governos petistas foram uma parcial reação ao choque neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, sendo que três elementos tornaram os governos Lula/Dilma como “reação antineoliberal”: (i) priorização as políticas sociais e não o ajuste fiscal; (ii) fortalecimento da integração regional; (iii) prioriza o papel do estado como indutor anticíclico. Esses governos, de fato, constituíram uma parcial “reação antineoliberal”.
Meu último encontro com Lula se deu no magnífico comício de 29 de setembro de 2026 realizado na esplendida Praça da República, centro da capital paraense. Esse comício e minha participação se dá quase trinta e sete anos após a grande marcha realizada em 1989, mostra que a conjuntura nacional se enredou em profundas mudanças, mas dois pontos parecem comum na permanente reconfiguração da dependência brasileira: a busca das classes dominantes por impedir quaisquer mínimas alterações em seu projeto de subordinação e exploração dos trabalhadores brasileiros e, em contraposição a isso, a nossa pertinaz resistência que mesmo após tantos anos mantém na figura de Lula ainda sua melhor manifestação.
A eleição de Lula neste ano se reveste de um caráter novamente inusitado. A burguesia dependente brasileira parece ter se dado conta que para ela é preferível um governo executivo controlado por setores milicianos e, ao que parece, estabelecer uma relação de subserviência colonial e na esfera do banditismo, do que manter alguns anéis de parcial soberania, o que os próximos dias nos dirão.
Uma última observação, a exemplo da marcha de 1989, o comício de 2026 foi constituído em grande maioria por jovens rostos ansiosos por escultar Lula e querentes de algo novo. Ao que nos parece a juventude brasileira quer fazer como Noel Rosa e “fechar a porta da direita com muito cuidado!”.
*José Raimundo Trindade é professor do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA. Autor, entre outros livros, de A disputa das ideias na atual conjuntura: neoliberalismo, resistência e redes sociais (Edições AVL). [https://amzn.to/4sdcENq]
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