Imagem: Andrew Ruiz
Por MÁRCIO DOS SANTOS*
Elaboramos uma pergunta ao ChatGPT, ao Gemini, ou a qualquer outra ferramenta de inteligência artificial e logo em instantes obtemos a resposta sintetizada. Às vezes sem contexto. Sempre, diferentemente se pedirmos, a fonte aparece. Isso dá a falsa ilusão de não precisarmos saber sobre as coisas. A futilidade do conhecimento humano diante do domínio da máquina. Caminho perigoso se pensarmos na capacidade humana que nos levou até esse estado. Pensamos, através disso, para onde isso pode nos levar. Continuaremos crescendo intelectualmente como seres pensantes capazes de adequação e inovação, ou deixaremos essa tarefa ardilosa para as máquinas que temos criado¿
Consideramos normal o embate entre gerações na contemporaneidade. Não posso dizer se sempre foi assim na nossa história como seres humanos ou se isso é produto dos novos tempos, com tecnologias cada vez mais avançadas no que diz respeito a inovação, um produto da cultura pop ou um “efeito colateral” da quantidade de dados a nossa disposição. Os velhos já não são mais guardiães do conhecimento, e os mais jovens os olham com desconfiança. Costumávamos aprender com nossos antepassados, pois eram esses, pela experiência e o conhecimento acumulado, os responsáveis por nos iniciar em um mundo já pré-fabricado no qual iriamos atuar.
Em um estudo publicado pela Nature Communications disponível no site da Universidade de Cambridge intitulado, “pontos de inflexão topológicos ao longo da vida humana” de autoria de Alexa Mousley, Ricardo Al Belém, Fang Cheng Yeah e Duncan E. Astle, há acordo com o que pensadores que vão de Sócrates a Hayek já diziam a tempo; isto é, o conhecimento é incompleto. Segundo o estudo, o desenvolvimento do cérebro humano vai dos nove aos noventa anos, sugerindo a ideia de que o desenvolvimento cognitivo acontece a vida toda.
Do ensino básico ao superior, encontramos cada vez mais jovens acreditando conhecer mais sobre seus professores, pais, amigos, vizinhos. Julgam conhecer, como se o conhecimento já viesse embutido em nosso DNA desde o nascimento. Todos opinando sobre todas as coisas e sobre todos os assuntos com a alegação de que merecem o direito de opinar. Confrontando seus professores e pais vistos ou, como velhos ultrapassados que não entendem os novos tempos, ou como doutrinadores de uma ideologia vista apenas aos olhos daqueles que não tiveram o mesmo percurso de formação na cadeia do conhecimento. Não defendo a proibição da liberdade de expressão e nem contesto, mas é preciso entender que opiniões são construídas através daquilo que aprendemos com a teoria e a experiência vivida.
Na internet, campo de atuação de pessoas iludidas com a ideia de que a voz do leigo tem a mesma força da autoridade da voz de um cientista que estudou a rigor durante anos sobre determinado assunto, proliferam coisas como; “a escola não serve pra nada” e “você não vai ganhar dinheiro estudando”. No Brasil, o avanço do curso superior alcançou uma escalada impressionante nas últimas décadas. Se alcançamos mais jovens com curso superior completo, também é verdade o declínio da qualidade do ensino e dos modelos controversos do modo como esse ensino chega aos nossos formandos. Ter um curso superior, dentro de uma realidade de mercado de trabalho precário e baixos salários, não representa de fato possibilidade de ascensão social a quem poderia imaginar ser esse o caminho. Enquanto o professor faz malabarismos para atingir o aluno nos bancos escolares do ensino básico, predomina a apatia de alguém, mesmo em tenra idade, que não consegue encontrar conexão ou validade para uma aprendizagem que parece não dialogar com a realidade. E isso se reflete em todos os níveis de ensino. Se na base a coisa não vai bem, não podemos esperar que melhore na ponta da pirâmide de formação.
Os conflitos observados envolvendo professores e alunos e problemas de indisciplina nas escolas estaduais e municipais de todo o País, não são simples de interpretar, e talvez, em uma visão apressada e sem profundidade, posso correr o risco de além de raso, parecer incoerente. Mas é visível o descontentamento dos profissionais da educação frente aos problemas do ensino, à burocratização e à plataformização do sistema educacional, somado à falta de apoio dos planos de governo e à cobrança massiva por resultados que têm adoecido os professores. Professores esses, que disputam atenção com influencers vendendo ilusões na internet de uma vida inacessível para a grande maioria do nosso alunado. É como se o mundo digital ditasse as regras para o convívio com a realidade social. Esse mundo digital, diga-se de passagem, comandado por algoritmos e controlado por uma meia dúzia de big techs, interferindo em todas as camadas da sociedade como um vírus infiltrado em um corpo fragilizado. O resultado; o Brasil segue nas últimas posições no Pisa 2025, como reportagem apresentada pelo portal g1.
Não é falta de esforço da parte dos professores para sensibilizar nossos alunos. A interferência e a influência do meio digital costumam ser colossal se comparada ao universo da sala de aula. Pipocam aqui e ali as dancinhas que são gravadas dentro das escolas para a postagem nas redes sociais. A preocupação com o vídeo, se vai viralizar ou não. Alunos reproduzem ideias sobre a deslegitimação do sistema de ensino. Ainda, jovens estão certos sobre todas as coisas, e as vezes, professores são questionados e enfrentam conflitos por tentarem apenas lecionar.
Em uma conversa com um colega dia desses falávamos sobre a redução da jornada de 6×1. O colega alegava prejuízo as empresas, sem perceber que os problemas enfrentados nas escolas todos os dias pode ter algum alívio justamente se pensarmos em outras formas da sociedade, do Estado e das empresas, lidarem com o tempo livre dos trabalhadores.
Em um passado, não tão distante, era tarefa da mulher educar as crianças e a ela cabia os trabalhos domésticos não remunerados, enquanto o homem provedor enfrentava o mercado de trabalho. Hoje, homens e mulheres trabalham fora de suas casas e deixam a cargo da escola a responsabilidade de educar as novas gerações. Essa responsabilidade é delegada a escola, o que poderia pressupor uma confiança na instituição de ensino, mas isso não reflete a realidade. Quando pais são chamados para questões referentes a seus filhos na escola, principalmente casos de indisciplina, os pais se colocam contra a escola quando deveriam trabalhar lado a lado. A escola coube o papel de cuidar e não de corrigir. Conflitos como esses enfraquecem o trabalho do professor e toda a pedagogia escolar. Diante desse cenário, os jovens são educados pela internet, no meio virtual, a família se distancia e professores adoecem.
Não estou afirmando que o fim da escala 6×1 seja a solução para todos os problemas que jovens, suas famílias e a escola enfrentam no dia a dia. Mas, precisamos entender que a sociedade precisa, além do trabalho, de tempo. Tempo para lazer, tempo para refletir, tempo para acompanhar uma geração que cresce diante da tela do celular. Não podemos continuar delegando essa responsabilidade a outros. Enquanto a legitimidade da escola como instituição educacional e de ensino vai para o vinagre, é o youtube, a meta, o X que têm educado esses jovens. Não posso dizer com alarmismo que nossa sociedade está caminhando para o colapso, mas precisamos começar a pensar que talvez o que esses jovens necessitem, seja de um acompanhamento familiar que aconteça mais de perto. Isso, a diminuição da jornada de trabalho, pode conseguir.
*Márcio dos Santos é professor da Rede Estadual de Ensino de São Paulo.
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