Um aviso que vem da Bahia


Nonato Menezes

É como se fosse um mandato de 24 anos. Do ponto de vista partidário é isso mesmo. Em 2030 o Partido dos Trabalhadores completará 24 anos consecutivos na administração do Executivo do Estado da Bahia. Não é pouco tempo. Tempo em que já foi feito muito, que há muito a ser feito e, claro, muito por deixar de ser realizado.

Se considerarmos a estrutura política de poder no Brasil, o que está ocorrendo na Bahia não é um feito trivial, por dois motivos: por ser em momento democrático-representativo e pelo poder Executivo do Estado ser exercido por um partido do campo progressista. Algo que não tem registro na História brasileira.

Se observarmos a História da nossa governança, seja no Executivo federal, estadual ou municipal, a contar da instalação da República, em 1889, até o presente momento, a dominância, quase ininterrupta, nos estados e nos municípios, tem sido dos partidos que representam as oligarquias, inclusive com famílias que ainda estão no poder por mais de 50 anos. O PT, com mandato que começou em 2008, rompeu esse ciclo, ainda que seja apenas em um único Estado.

O que está ocorrendo na Bahia, porém, é uma novidade na História Política institucional brasileira, e como toda novidade, sobretudo, com essa envergadura, era de se esperar um olhar apurado, curioso e, talvez, preocupado dos dirigentes partidários do campo progressista, não pelas eleições consecutivas em si, mas pelos desdobramentos políticos verificados a partir delas.

Há algumas questões importantes que devemos levar em conta nesse caso, não como causas e ou efeitos das eleições ou como resultado direto da própria gestão pública, mas como eventos paralelos. Eventos que deveriam ser considerados para eventuais estratégias do próprio PT, para ampliar o escopo de governança e organizar bases de sustentação política e envolvimento social.

Me refiro às eleições e exercícios dos vereadores, justamente por apresentarem um contraste em relação aos mandatos dos governadores.

Enquanto o executivo estadual chegará a 24 anos nesta gestão, os vereadores eleitos do PT são, para um partido que precisa da Base para crescer como partido e envolver a sociedade nas relações políticas e na defesa de seus interesses, beira ao insignificante.

Não precisamos de muito esforço para reconhecer a importância, do ponto de vista político-partidário, dos vereadores como vetores de envolvimento social. É tudo, eu diria, que um partido precisa para criar uma Base de envergadura, capaz de interferir no crescimento do partido e na dinâmica social.

No entanto, o que vemos a partir da situação baiana, sendo o PT como instituição política diretamente envolvida, são duas realidades completamente opostas, sobretudo, dos interesses e das perspectivas. Por um lado, o esforço, o exercício do poder que tem resultado em apoio popular inegável. Por outro lado, os dados representam desprezo total, exatamente onde o futuro partidário, sob muitos aspectos, pode ser construído.

Vejamos alguns dados* que ilustram o desprezo que o Partido dos Trabalhadores tem dispensado ao Legislativo Municipal.

Salvador, por exemplo, cidade com quase 1.600.000 habitantes elegeu em 2024 apenas uma vereadora. No total o PT tem apenas 422 vereadores, no universo de 4.599, em 417 municípios do Estado. No Brasil, por sua vez, o PT elegeu, em 2024, apenas 3.118, do universo de mais de 58 mil vereadores em todo País.

Ainda na Bahia, há casos interessantes, para dizer o mínimo. Um Exemplo é o de uma cidade com aproximadamente 5.000 habitantes que em 2008, já no primeiro mandato de governador do PT, elegeu 5 vereadores, de 9, mais o prefeito e o vice. Hoje, talvez por obra do acaso, não tem nenhuma dessas funções ocupadas por quadros do Partido.

Esse quadro, sob qualquer ponto de vista, aponta para o óbvio: que o PT não tem se preocupado com a organização das Bases. Não ver, em mais de 58.000 vereadores, como fator importe e com potencial político para o envolvimento social e para o próprio crescimento do Partido. Hoje, que o PT tem apenas 3.118 vereadores, nada justifica falta de ação e o olhar desinteressado de seus dirigentes para essa questão.

Não sei, mas este aviso que vem da Bahia, poderia muito bem servir de alerta aos estrategistas do PT, se é que existem, pelo simples fato de mostrar que a eleição para o Executivo, mesmo com vários mandatos consecutivos, não garante enraizamento social, nem cria condições de “crescimento sustentável” do próprio partido.

Por fim, é bom que os partidos progressistas em geral e o Partido dos Trabalhadores, em particular, olhem para o que vem ocorrendo na Bahia. Não apenas para constatarem essa singularidade, mas para usá-la como referencial, seja para impulsionar o crescimento dos partidos, seja para formação e organização de suas Bases e, consequentemente, oferecer à sociedade meios para participar efetivamente da construção  da Democracia brasileira.

Estado da Bahia 
417 Municípios - 4.599 vereadores




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