Leituras pertinentes - II

OS CARACTERES
CARÁTER DOS JOVENS

Os jovens, mercê do caráter, são propensos aos desejos e capazes de fazer o que desejam. Entre os desejos do corpo, a principal inclinação é para os desejos amorosos, e não conseguem dominá-los. São inconstantes e depressa se enfastiam do que desejaram; se desejam intensamente, depressa cessam de desejar. Suas vontades são violentas, mas sem duração, exatamente como os acessos de fome e de sede dos doentes.

São coléricos, irritadiços e geralmente deixam-se arrastar por impulsos. Domina-os a fogosidade; porque são ambiciosos, não toleram ser desprezados, e indignam-se quando se julgam vítimas de injustiça. Gostam das honras, mais ainda da vitória, pois a juventude é ávida de superioridade, e a vitória constitui uma espécie de superioridade. (...)
A índole deles é antes boa do que má, por não terem ainda presenciado muitas ações más. São também crédulos, porque não foram, todavia vítimas de muitos logros. Estão cheios de sorridentes esperanças; assemelham-se aos que beberam muito vinho, sentem calor como estes, mas por efeito de seu natural e porque não suportam ainda muitos contratempos. Vivem, a maior parte do tempo, de esperança, porque esta se refere ao porvir, e a recordação, ao passado; e para a juventude o porvir é longo e o passado, curto. Nos primeiros momentos da vida, não nos recordamos de coisa alguma, mas podemos tudo esperar. É fácil enganar os jovens, pela razão que dissemos, pois esperam facilmente.
São mais corajosos que nas outras idades, por serem mais prontos em se encolerizarem e propensos a guardar um êxito feliz de suas aventuras; a cólera faz que ignorem o temor, e a esperança incute-lhes confiança; com efeito, quando se está encolerizado, não se teme coisa alguma e o fato de esperar uma vantagem inspira confiança.
São igualmente levados a se envergonhar, pois não suspeitam que aja algo de belo fora das prescrições da lei que foi a única educadora deles. São magnânimos, porque a vida ainda não os envelheceu nem tiveram a experiência das necessidades da existência. Aliás, julgar-se digno de altos feitos, esta é a magnanimidade, este o caráter de quem concebe amplas esperanças. Na ação preferem o belo ao útil, porque na vida deixam-se guiar mais por seu caráter do que pelo cálculo; ora, o cálculo relaciona-se com o útil, a virtude, com o belo. Mais do que acontece em outras idades, gostam dos amigos e companheiros; porque sentem prazer em viver em sociedade e não estão ainda habituados a julgar as coisas pelo critério do interesse, nem por conseguinte a avaliar os amigos pelo mesmo critério.
Cometem faltas? Estas são mais graves e mais violentas, (...) pois em tudo põem a nota do excesso; amam em excesso, odeiam em excesso, e do mesmo modo se comportam em todas as outras ocasiões. Pensam que sabem tudo e defendem com valentia suas opiniões, o que é ainda uma das coisas de seus excessos em todas as coisas. As justiças que cometem são inspiradas pelo descomedimento, não pela maldade São compassivos, porque supõem que todos os homens são virtuosos e melhores do que realmente são. Sua inocência serve-lhes de bitola para aferirem a inocência dos outros, imaginando sempre que estes recebem tratamento imerecido. Enfim, gostam de rir, e daí o serem levados a gracejar, porque o gracejo é uma espécie de insolência polida. Este é o caráter da juventude.


Caráter dos velhos

Os velhos e aqueles que ultrapassam a flor da idade ostentam geralmente caracteres quase opostos aos dos jovens; como viveram muitos anos, e sofreram muitos desenganos, e cometeram muitas faltas, e porque, via de regra, os negócios humanos são malsucedidos, em tudo avançam com cautela e revelam menos força do que deveriam. Têm opiniões, mas nunca certezas. Irresolutos como são, nunca deixam de acrescentar ao que dizem: “talvez”, “provavelmente”. Assim se exprimem sempre, nada afirmam de modo categórico. Têm também mau caráter, pois são desconfiados e foi a experiência que lhes inspirou essa desconfiança. Mostram-se remissos em suas afeições e ódios, e isso pelo mesmo motivo;(...) amam como se um dia devessem odiar e odeiam como se um dia devessem amar. São pusilânimes, porque a vida os abateu; não desejam coisa alguma de grande ou de extraordinário, mas unicamente o bastante para viver. São mesquinhos, porque os bens são indispensáveis para viver, mas também porque a experiência lhes ensinou todas as dificuldades em os adquirir e a facilidade com que se perdem. São tímidos e tudo lhes é motivo de temor, porque suas disposições são contrárias às dos jovens; estão como que gelados pelos anos, ao passo que os jovens são ardentes. Por isso a velhice abre o caminho à timidez, já que o temor é uma espécie de resfriamento. Estão apegados à vida, sobretudo quando a morte se aproxima, porque o desejo incide naquilo que nos falta e o que nos falta é justamente o que mais desejamos. São excessivamente egoístas, o que é ainda sinal de pusilanimidade. Vivem procurando apenas o útil, não o bem, e nisso mesmo dão provas de excesso, devido ao seu egoísmo, uma vez que o útil é o bem relativamente a nós mesmos; e o honesto, o bem em si.
Os velhos são mais inclinados ao cinismo do que à vergonha; como cuidam mais do honesto do que do útil, desprezam o que dirão os outros. São pouco propensos a esperar, em razão de sua experiência - pois a maior parte dos negócios humanos só acarretam desgostos e muitos efetivamente são malsucedidos - mas a timidez concorre igualmente para isso. Vivem de recordações mais que de esperanças, porque o que lhes resta de vida é pouca coisa em comparação do muito que viveram; ora, a esperança tem por objetivo o futuro; a recordação, o passado. É essa uma das razões de serem tão faladores, passam o tempo repisando com palavras as lembranças do passado; é esse o maior prazer que experimentam. Irritam-se com facilidade, mas sem violência; quanto a seus desejos, uns já os abandonaram, outros são desprovidos de vigor. Pelo que já não estão expostos aos desejos que cessaram de os estimular e substituem-nos pelo amor do ganho. Daí a impressão que se tem de os velhos serem dotados de certa temperança; na realidade, seus desejo afrouxaram, mas estão escravizados pela cobiça.
Em sua maneira de proceder, obedecem mais ao cálculo do que à índole natural - dado que o cálculo visa o útil, e a índole, a virtude. Quando cometem injustiças, fazem-no com o fim de prejudicar, e não de mostrar insolência. Se os velhos são igualmente acessíveis à compaixão, os motivos são diferentes dos da juventude; os jovens são compassivos por humildade; os velhos, por fraqueza, pois pensam que todos os males estão prestes a vir sobre eles e, como vimos, esta é uma das causas da compaixão. Daí vem o andarem sempre lamuriando-se, e não gostarem nem de gracejar, nem de rir; pois a disposição para a lamúria é o contrário da jovialidade. Tais são os caracteres dos jovens e dos velhos. como todos os ouvintes escutam de bom grado os discursos conformes com seu caráter, não resta dúvida sobre a maneira como devemos falar, para, tanto nós, como nossas palavras, assumirem a aparência desejada.

 

Caráter da idade adulta


       Os homens, na idade adulta, terão evidentemente um caráter intermediário entre os que acabamos de estudar, com a condição de suprir o excesso que há nuns e noutros. Não mostrarão nem confiança excessiva oriunda da temeridade, nem temores exagerados, mas manter-se-ão num justo meio relativamente a estes dois extremos. A confiança deles não é geral, nem a desconfiança, e em seus juízos inspiram-se de preferência na verdade. Não vivem exclusivamente para o belo, nem para o útil, mas para um e outro igualmente. Não se mostram sovinas nem esbanjadores, mas neste particular observam a justa medida.
O mesmo se diga relativamente ao arrebatamento e ao desejo. Neles, a temperança vai acompanhada de coragem e a coragem de temperança, ao passo que nos jovens e nos velhos estas qualidades são separadas; pois a juventude é a um tempo corajosa e intemperante, e a velhice temperante e tímida. Numa palavra, todas as vantagens que a juventude e a velhice possuem separadamente se encontram reunidas na idade adulta; onde os jovens e os velhos pecam por excesso ou por falta, a idade madura dá mostras de medida justa e conveniente. A idade madura para o corpo vai de trinta a trinta e cinco anos; para a alma, situa-se à volta dos quarenta e nove anos. Tais são os caracteres respectivos da juventude, da velhice e da idade adulta.”


ARISTÓTELES. Arte retórica e arte política. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1959. Livro 8º.
GADOTTI, Moacir. História da Idéias Pedagógicas .São Paulo, Ática, 1993.

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