Inicialmente idolatrado como líder da caça às bruxas,
presidente do Supremo perdeu apoio de seus pares, foi criticado por Ministério
Público e OAB, e acabou só até entre a imprensa que o encorajou
por Helena Sthephanowitz
Enquanto apenas petistas protestavam contra atos
considerados abusivos de Joaquim Barbosa, o presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF) não recuou, encorajado pela mídia tradicional. Pelo contrário,
aumentou a escalada de perseguição aos réus petistas, o que provocava manchetes
e imagens para a imprensa oposicionista, sedenta de "sangue", principalmente
farejando interesses eleitorais.
Uma perseguição só comparável à época da ditadura
brasileira, ou ao macartismo nos Estados Unidos, chamado de período de caça às
bruxas.
Nas últimas semanas, o pêndulo virou. A Comissão de Justiça
e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou manifesto
protestando contra retrocessos no já problemático sistema prisional brasileiro
com a decisão de Barbosa de revogar o direito ao trabalho externo para apenados
no sistema semiaberto antes de cumprir um sexto da pena.
A Ordem dos Advogado do Brasil (OAB) também manifestou
apreensão contra esta e outras decisões que representam retrocesso. O
Ministério Público também ficou preocupado com um colapso no sistema prisional
brasileiro. Até governadores, responsáveis pela administração de presídios, não
comentaram em público, mas ficaram preocupados com o colapso e risco de
rebeliões se retirassem direitos de presos e aumentasse a superlotação de
presídios, a partir da decisão destemperada de Barbosa.
Barbosa estava a caminho de repetir a saga do senador
estadunidense Joseph McCarthy na década de 1950. McCarthy conseguiu muita
popularidade quando, em investigação do Senado dos EUA, começou a perseguir
pessoas diversas e artistas de Hollywood por suas ideologias, comportamento e
amizades, acusando-os de traição por supostamente simpatizarem com o comunismo,
ou mesmo de espionagem pró-soviética. Criou-se um clima de histeria semelhante
à caça às bruxas no período da inquisição medieval. Listas negras foram criadas
destruindo carreiras, fazendo pessoas perder empregos, levando alguns à prisão,
ao exílio e ao suicídio.
Aos poucos a opinião pública foi enxergando atitudes
fascistas de McCarthy, injustiças e ficando indignada com as flagrantes
violações dos direitos individuais. A atuação destemida do jornalista Edward R.
Murrow na TV CBS desmascarou McCarthy, que ficou desacreditado, considerado
infame e morreu no ostracismo.
Voltando ao Brasil de hoje, a própria imprensa tradicional
que antes apoiava Barbosa passou a abandoná-lo, justamente por perceber que o
clima de macarthismo era contraproducente para os interesses políticos dos
barões da mídia.
Assim Barbosa resolveu pendurar as chuteiras no STF antes de
um desfecho semelhante ao de McCarthy, o que queimaria sua imagem para uma
carreira política.
Ao passar o bastão para o ministro Ricardo Lewandowski, seu
futuro sucessor na presidência do STF, Barbosa dá à mídia tradicional munição
para voltar à carga contra o PT no período eleitoral. Ele ficar com a imagem de
perseguição a petistas estava sendo contraproducente, mas Lewandowski,
simplesmente por seguir a lei e a jurisprudência, concedendo os direitos ao
trabalho externo a petistas, como tem esse direito qualquer preso, será acusado
pela imprensa antipetista de conceder "privilégios".
Barbosa já teve uma atuação politizada no STF, mas, assim
que se aposentar, poderá oficializar seu ingresso na política partidária.
E já começou a fazer seus primeiros gestos na articulação
política. Barbosa escolheu o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do
Senado, para comunicar à imprensa sua decisão em primeira mão, em vez de ser
ele mesmo a anunciar.
Primeiro o presidente do STF marcou uma audiência na manhã
de quinta-feira (29) com a presidenta Dilma Rousseff para comunicar sua decisão
de aposentar. A presidenta não costuma comentar com a imprensa conversas que
não sejam temas administrativos, e nada disse. Depois Barbosa visitou o
presidente do Senado, Renan Calheiros, para comunicar o mesmo. Assediado pela
imprensa, nada comentou. Coube a Renan Calheiros relatar a conversa para os
repórteres que aguardavam, certamente autorizado por Barbosa.
Uma decisão estranha. As revistas e jornais que retrataram
Barbosa como um Batman da moralidade, são as mesmas que demonizaram Renan
Calheiros. Isto deve ter desapontado alguns admiradores de Barbosa,
influenciados por este tipo de imprensa. E dá a entender que o presidente do
STF está rendendo-se à realpolitik, já articulando politicamente com um partido
forte e que está na base governista, já que as relações de Barbosa com a
oposição tucana são consolidadas, tanto na proximidade com o senador Aécio
Neves (PSDB), como no alívio de não levar a julgamento o mensalão tucano.
Em seguida, o périplo político de Barbosa continuou,
visitando o presidente da Câmara dos deputados, Henrique Eduardo Alves
(PMDB-RN).
Só de tarde, em sessão do STF transmitida pela TV Justiça,
comunicou oficialmente sua decisão a seus pares da Corte.
Barbosa não poderá mais concorrer em 2014, pois precisaria
ter deixado o cargo no início de abril para não perder o prazo. Mas ele pode
candidatar-se em 2018. É incerto seu futuro político e há dúvidas se seria
promissor. Longe do STF estará longe também dos holofotes. Barbosa não tem um
perfil carismático, nem mobilizador para resistir a quatro anos sem poder, nem
muita habilidade política.
Além disso, o processo do chamado "mensalão"
deverá ter revisões criminais, que podem desmontar certas condenações. Se
surgirem provas de que Barbosa errou na relatoria e no desmembramento de
processos, e há fortes evidências de que isso pode ter acontecido, seu futuro
político pode ser semelhante ao de Joseph McCarthy. E, também, já há conversas
de que Barbosa será cabo eleitoral do candidato Aécio Neves, na eleição
próxima. Barbosa é Aécio são próximos, já foram fotografados juntos em diversas
ocasiões.
Aguardemos os desdobramentos.
O vídeo abaixo mostra como Renan Calheiros anunciou a
aposentadoria de Barbosa em primeira mão:

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