O cenário de terra arrasada, que faria a autoestima nacional
beber água num pé da mesa, em meia cuia de queijo Palmira, passa ao largo do
que se vê na Copa.
por: Saul Leblon – Carta Maior
Os caosnáticos que durante meses anunciaram o apocalipse
para os 32 dias em que o país sediaria a
Copa do Mundo devem estar duplamente
arrependidos.
Vencido 1/3 do torneio a apreensão cedeu lugar à agradável
sensação de que, afinal, com todas as deficiências sabidas, esse lugar não é a
montanha desordenada de incompetência, corrupção e conflagração anunciada –
incentivada- - por seus vocalizadores
desinteressados.
O cenário de terra arrasada, que faria a autoestima nacional
beber água num pé da mesa, em meia cuia
de queijo Palmira, passa ao largo do que se vê, se ouve e se vive dentro e fora
dos estádios.
Sobretudo, porém, o maior gol contra foi a aposta de que o
fracasso da Copa serviria como credenciamento antecipado para o conservadorismo ‘consertar o Brasil
corroído pelo PT’.
A menos que um acontecimento inesperado inverta o quadro em
curso, a verdade é que estamos diante de um efeito bumerangue em espiral
ascendente. Nem mesmo uma eventual eliminação brasileira do torneio poderá
modificá-lo.
O revés não é café pequeno.
Ele desqualifica de forma importante o discurso
derrotista da turma do Brasil aos cacos.
O caos na Copa era (atenção: ‘é’) acalentando como um
precioso passaporte emocional para garantir o livre trânsito do discurso conservador
no imaginário brasileiro, na disputa presidencial de outubro.
O que emerge das ruínas anunciadas, ao contrário, é outra
coisa, na forma de uma pergunta bastante incomoda.
Como dar crédito às avaliações mais abrangentes - e às propostas
‘mudancistas’ - de quem não consegue sequer enxergar o país em que vive, tanto quanto
não consegue diferenciar um
Felipão falso de um verdadeiro?
A verdade é que a emissão conservadora criou um sósia do
Brasil, tentou espetá-lo na alma
nacional e agora se tornou refém de seu
próprio ardil.
Quanto custa a uma sociedade ter uma elite que, nas horas
decisivas, aposta quase sempre contra as suas potencialidades? Seja por interesses unilaterais, seja por
incapacidade histórica, mantem-se impermeável à compreensão do lugar em que
vive, da época em curso e dos seus desafios?
O paradoxo da Copa, que de excelente oportunidade para o
Brasil, quase foi soterrada como um estorvo contagioso, encerra, portanto,
angulações mais graves do que
apenas o
fla-flu eleitoral da superfície.
Só o inexcedível descompromisso com a sorte da nação e o
destino de sua gente poderia menosprezar, como se fez, o conjunto de projetos e
possibilidades associados ao evento – que no caso do legado logístico
reúne projetos ainda inacabados, mas em
curso.
No fundo, trava-se aqui um embate visceral entre lógicas
antagônicas embutidas na disputa histórica entre dois projetos para o país.
Grandes obras e investimentos públicos constituem a melhor
maneira de socializar e regular a curva
do investimento na sociedade, impedindo uma oscilação desastrosa ao emprego, ao
consumo e ao crescimento.
As grandes obras do PACs, os projetos em torno da Copa, o
financiamento subsidiado para aquisição de máquinas e equipamentos (PSI), do
BNDES, por exemplo – o maior banco estatal de investimento do mundo foi
criado há 62 anos, em 20 de junho de
1952, por Getúlio Vargas, exatamente com essa finalidade - são formas de
amortecer a tendência errática, intrínseca à incerteza que cerca
as inversões privadas no
capitalismo em geral. E mais acentuadamente
em nações em luta pelo desenvolvimento.
Um dos grandes gargalos brasileiros , ao contrário do que
ruge o jogral ortodoxo, é justamente o reduzido fôlego fiscal do Estado (subtraído
em parte pelo rentismo), que o impede de exercer uma coordenação de mercado que
propicie a curva estável e sustentada do crescimento.
O movimento anti-Copa, ainda que inclua parcelas bem
intencionadas à esquerda, reflete no fundo o velho antagonismo entre os que
buscam viabilizar o papel do interesse público sobre o erratismo privado, e os
que recusam essa prerrogativa ao Estado.
Por que recusam se inclusive seriam beneficiados por ela?
Porque para exerce-lo o Estado deve controlar uma fatia significativa do gasto social. Deve
socializar o comando sobre grandes massas de investimentos, que lhe permitam
coordenar as expectativas da sociedade, sobretudo as do investimento privado.
Isso requer, entre outras providências, desmontar a linha
Maginot do rentismo.
Entrincheirada em taxas de juros sempre mais rentáveis do
que a aplicação produtiva, ela suga o fôlego fiscal do país e inibe o
planejamento do interesse público, ademais de fixar um piso elevado para a desigualdade social,
como ensinou Thomas Piketty.
A cortina de fogo contra a Copa - contra ‘a gastança’ de um
modo geral - filia-se a essa corrente.
Trata-se de impedir que a racionalidade social se imponha
sobre o salve-se quem puder
característico do ambiente de competição, incerteza e, em decorrência disso, de obsessão mórbida
pela liquidez rentista, que move o capital privado aqui e em todos os lugares.
Ademais dos desequilíbrios estruturais irradiados por essa
lógica, a economia brasileira reúne distorções específicas que os acentuam
e reproduzem, como a segunda taxa
de juros mais elevada do planeta, câmbio fora do lugar e livre mobilidade de capitais.
O quão equivocado era o garrote anti-Copa se vê agora pelo desmentido do desastre nas ruas e nos campos.
Mas também nas entrelinhas do noticiário econômico.
O pouco que escapa –somente agora - da pauta catastrofista
serve como ilustração de um benefício que talvez pudesse ter sido muito
superior, caso as expectativas do
país não tivessem sido garroteadas pela
coleira da ortodoxia derrotista.
Abaixo, algumas evidências de um dinamismo torpedeado
durante meses pelas previsões
de fiasco da Copa e de quem apostasse no seu sucesso:
1) Faturamento médio das empresas de turismo cresceu 7,1% no
1º trimestre –antes mesmo de começar a Copa.
Levantamento do Ministério do Turismo, em parceria com a Fundação
Getúlio Vargas (FGV), mostra que a área de turismo receptivo cresceu 14,7%,
agências de viagem e parques temáticos, mais 9,6% de faturamento e setor de hotelaria,
mais 9% no período.
2)Mais de 600 mil
estrangeiros vieram para o Mundial, além
de 3,1 milhões de brasileiros que vão se deslocar para as 12 cidades-sede dos
jogos. A previsão é de que os gastos do conjunto somem R$ 6,7 bilhões (Valor)
3)Bons negócios com a Copa elevaram em 16% os planos de
investimento do setor de turismo para o 2º trimestre.
4)Em média, a projeção dos 80 maiores conglomerados de
turismo do país é de um crescimento da ordem de 6,5% este ano.
5) Para quem acreditou no fiasco vaticinado pela mídia, o
sucesso inesperado do evento trouxe gargalos por falta de capacidade de
atendimento. Sintomas: em Brasília,
segundo o jornal Valor, ‘restaurantes do Pontão do Lago Sul já não têm chope –“os colombianos tomaram
tudo", diz um garçom ouvido pelo jornal.
Em Fortaleza, sobraram poucas opções
no cardápio de restaurantes na
avenida Beira Mar, relata o mesmo jornal que engole agora o pessimismo
estampado em sua linha editorial por
meses: ‘ Lá, a culpa era dos mexicanos, segundo a garçonete’.
6) A subestimação da demanda atingiu até a prosaica produção de brindes, que se deixou contagiar pelo jogral
derrotista. ‘Nos aeroportos de São Paulo
e Brasília, por exemplo, produtos como chaveiro do Fuleco, o mascote da Copa,
já estão em falta’, admite o mesmo Valor, sem explica o motivo.
7)Fogo de palha? Não é essa a percepção de quem está na
linha de frente dos acontecimentos. Hotéis, bares, restaurantes e agências de
viagens afirma que o Mundial
proporcionará outros ganhos, nem sempre mensuráveis.: ‘a experiência de receber
turistas de todas as partes e a superexposição do país no exterior são alguns
desses legados que ficam para as empresas e deverão reverberar por muitos anos’
(Valor).
8)No dia de abertura da Copa, no Itaquerão, na zona leste de
São Paulo, a capital paulista tinha 76,6% de suas vagas de hospedagem ocupadas
; 93% dos restaurantes e bares dos bairros Bela Vista, Jardins e Pinheiros
festejavam o movimento; 98,7% das
mensagens sobre a cidade postadas nas principais redes sociais foram positivas.
Durante a partida Brasil e Croácia, foram publicados 12,2 milhões de
comentários sobre o jogo somente no Twitter.
9) Em apenas três dias , de 12 a 15 de junho, na abertura da
Copa, segundo a Visa, visitantes internacionais movimentaram US$ 27 milhões com
seus cartões, alta de 73% em relação ao mesmo período do ano .
10) Por fim, diz Walter Ferreira, assessor da presidência do
Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur),enquanto a bola rolar, o Brasil
concentrará as atenções de 3,6 bilhões de espectadores, quase metade da
população mundial. ‘ O evento terá o poder de quebrar estereótipos e revelar ao
mundo um país moderno, com empresas globais importantes, que investe em ciência
de ponta e que tem um povo acolhedor e alegre.
A cena dos jogadores holandeses abraçando brasileiros em Ipanema, por
exemplo, ou as inúmeras cenas de confraternização entre os torcedores contagiam
o mundo. Este é o nosso maior legado de imagem’, diz Ferreira (Valor)
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