Roite idn

reproduçãoLamentavelmente, por descuido, má fé ou, pior, preconceito, setores da esquerda ainda defendem posições que se espelham no lixo antissemita

Jacques Gruman – Carta Maior

Em casa pequena, não há cantos inacessíveis. O Menino entrava no quarto dos Grandes quando queria ouvir rádio, asas valvuladas para um espírito prisioneiro. O velho Halicrafters, carcaça de ferro e projetado para radioamadores, foi há pouco ressuscitado e repete, orgulhoso, os chiados da velha tecnologia. Para chegar lá, passava por uma velha estante com portas de vidro. Dentro, livros mal arrumados e papéis misteriosos. Dava um jeito de bisbilhotar e lia nomes estranhos nas lombadas meio gastas. Guy de Maupassant, Romain Rolland. Alguém ainda se lembra deles ? Eram volumes alentados, que desanimavam o leitor iniciante, interessado não apenas nos textos, mas também na quantidade de ilustrações que diminuíam a carga de leitura. Que o diga a coleção inteira do Monteiro Lobato, devorada com prazer – e sem a culpa que os neointérpretes jogam em quem está chegando agora na obra do admirável taubatense. Um dia, o olho bateu num livro meio escondido. Cavaleiro da Esperança, dum tal Jorge Amado, a quem seria apresentado aos 13 anos com o deslumbramento da novidade erótica. Claro, naquela altura do campeonato e da explosão hormonal adolescente, quem é que estava interessado em miséria, tenentismo, relações de poder, luta de classes ? Bom era procurar nas muitas páginas dos outros livros do baiano as descrições detalhadas dos encontros sexualizados, com doses generosas de palavras proibidas.

Quem era o Cavaleiro da Esperança? Por que alguém se interessaria por ele? Descobriu, muito tempo depois, que havia sido um presente dado ao Zissi pela irmã Malvina. A mesma que lhe daria Judeus sem dinheiro no bar-mitzvá. Clássico da literatura de esquerda, realismo socialista, escrito por um militante judeu do Partido Comunista dos Estados Unidos, descreve as condições de trabalho desumanas a que foram submetidos os imigrantes judeus nas chamadas sweat shops da indústria têxtil nova-iorquina, no início do século vinte. Aquilo era mais do que um presente: era uma declaração de intenções, um convite à valsa. E o Menino saiu a bailar.

Malvina e seu marido, o tio Bóris, vieram da Bessarábia, um lugar muito pobre e que oferecia poucas perspectivas de uma vida melhor. Eram típicos roite idn, judeus vermelhos. Cultivaram a cultura da clandestinidade, forçados pela perseguição incansável dos inimigos ideológicos. Ganharam aos olhos do Menino uma dimensão épica, dessas que namoram o mito. Personagens interessantes, persuasivos, de fala mansa e carinhosa. Foram irmãos de navio de outros bessarabianos progressistas que aqui chegaram, reforçando as correntes judaicas de esquerda que militaram na vida política brasileira. Sem abandonar as raízes culturais, empreenderam a difícil jornada pela construção do socialismo. Conheci uma brava bessarabiana, que, ainda adolescente, já estava fichada pela polícia local como perigosa “subversiva”. Fugiu para o Brasil para não ser presa.

Para os não iniciados, conhecer essa história pode ser uma novidade. Há muita ignorância sobre os judeus. Um exemplo banal. Está nos dicionários: judiar quer dizer, entre outros mimos, fazer sofrer, atormentar, maltratar. Na longa e polivalente malha do antissemitismo, a imagem do judeu é eclética. Pode ser o sovina, o ardiloso, o traiçoeiro oportunista, o financista ganancioso, o capitalista frio. Isso não impede que o associem às tentativas de “destruir a sociedade ocidental” através do socialismo. O antijudaísmo moderno tem raízes antigas. Já no século IV, o Sínodo de Elvira proibiu o casamento entre judeus e não judeus. No século VI, o 3º Sínodo de Orléans proibiu que os judeus tivessem servos ou escravos cristãos. No mesmo Sínodo, proibiu-se que os judeus saíssem às ruas durante a Semana da Paixão. No século XV, o Conselho da Basileia proibiu que os judeus tivessem títulos acadêmicos. A lista é monumental e será sempre incompleta. As caricaturas infames que se construíram ao longo dos séculos, frequentemente com chancela eclesiástica, convergem para um livro execrável, que garante “provar” o caráter maléfico dos judeus. É Os protocolos dos sábios de Sião.

Nos Protocolos, descreve-se uma suposta conspiração judaica mundial, tentáculos alcançando setores tão diversos quanto os meios de comunicação e o sistema bancário internacional. Está provado que foi uma invenção de paternidade vária e objetivo claro: municiar governos reacionários com justificativas para perseguir e, não raro, massacrar os judeus. Apesar de ser uma invenção estúpida, ainda hoje há quem os cite como “alerta” contra o “perigo judaico”. Disse Umberto Eco, autor de O Cemitério de Praga: “Houve sempre alguém que o publicou novamente, defendendo sua autenticidade. E a história continua a mesma hoje na internet. É como se, depois de Copérnico, Galileu e Kepler, se continuasse a publicar livros didáticos afirmando que o Sol gira ao redor da Terra”. Lamentavelmente, por descuido, má fé ou, pior, preconceito, setores da esquerda defendem posições que se espelham no lixo antissemita registrado nos Protocolos. Sob pretexto de criticar o expansionismo israelense, falam de domínio judaico sobre a mídia, lobby financeiro e hegemonia dentro do imperialismo norte-americano (sic). Renunciam às categorias analíticas marxistas para mergulhar no ódio e na irracionalidade.

Hoje, sou um roiter id. Tal como Bóris, Malvina e tantos outros, continuo uma longa tradição do que os judeus tradicionalistas chamam de Tikun Olam, ou seja, consertar o mundo. Sem ilusões sobre ajudas messiânicas e ciente dos tempos históricos. Como bem disse Eduardo Galeano, a História é uma senhora caprichosa, lenta. Não se comove com a pressa com que cada geração se lança à transformação do mundo, casada com suas utopias.


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