Pessoas inteligentes e informadas conseguem ignorar o
gigantesco desvio de recursos através dos bancos, e culpam o eterno bode
expiatório que é o governo.
Ladislau
Dowbor - http://cartamaior.com.br/
O homo sapiens todos conhecemos. Inclusive a maior parte da
teoria econômica e das teorias das transformações sociais se baseia numa
compreensão otimista de que o homem absorve conhecimentos, confronta-os com os
seus objetivos racionalmente entendidos, e procede de acordo. Quando erra,
analisa os erros e corrige a sua visão para não repeti-los.
Naturalmente, é agradável pensarmos que somos, conforme
aprendi na escola, animais racionais, racionalidade que nos separaria
confortavelmente dos animais. As minhas dúvidas aumentam proporcionalmente à
minha idade, o que significa que são elevadas. Pensar que somos mais do que
somos é uma atitude muito difundida. A bíblia já abre com o tom adequado: Deus
nos criou à sua imagem e semelhança, o que implica por virtude dos espelhos que
somos semelhantes nada mais nada menos que a Ele. O tamanho desta pretensão, e
o fato de passar tão desapercebida e natural, já mostra a que ponto a nossa
racionalidade pode ser adaptada ao que é agradável, mas não necessariamente ao
que é verdadeiro.
Pensar na dimensão irracional da nossa inteligência, ou nas
raízes interessadas e ideologicamente deformadas do que nos parece
racionalmente verdadeiro, é muito interessante. Fazemos uma construção racional
em cima de fundamentos profundamente enterrados na confusão de paixões, medos,
ódios e sentimentos contraditórios. Quanto maior o preconceito – no sentido
literal, raiz emocional que assume a postura antes do entendimento - maior
parece ser a busca do sentimento de superioridade moral.
Devemos lembrar como foram denunciados e massacrados ou
ridicularizados os que lutaram pelo fim da escravidão, pelo fim da
discriminação racial, pelos direitos de organização dos trabalhadores, pelo
voto universal, pelos direitos das mulheres? A imensa batalha que foi chegar ao
intelecto dos dominantes que um povo colonizar outro não dá certo? Hoje é a
mesma luta pela redução das desigualdades, pelo fim da destruição do planeta,
pela democratização de uma sociedade asfixiada por interesses econômicos. Aqui
precisamos de muito bom senso e generosidade. Ou seja, emoções e indignações
sim, mas apoiadas na inteligência do que acontece no mundo e visando o
interesse maior de todos, e não no interesse particular de defesa dos
privilégios.
Aqui realmente é preciso de muita ignorância, ou seja,
desconhecimento (voluntário ou não), para não se dar conta dos desafios reais.
O aquecimento global é uma ameaça real, mas a direita tende a negar, como se o
termômetro e os gazes de efeito de estufa fossem de esquerda. O desmatamento
generalizado do planeta está levando a perdas de solo fértil em grande escala,
quando iremos precisar de mais área de plantio. A vida nos mares está sendo
esgotada pela sobrepesca e em 40 anos, segundo o WWF, perdemos 52% da vida
vertebrada no planeta. É um desastre planetário espantoso, mas não aparece na
mídia comercial. Os dados sobre a inviabilização ambiental do planeta são hoje
amplamente comprovados. Há controvérsias, nos dizem. Mas é questão de opinião
ou de conhecimento dos dados?
No plano social é mais impressionante ainda: até o Fórum
Econômico em Davos escuta e divulga as pesquisas da Oxfam, do Banco Mundial e
das Nações Unidas, dos inúmeros institutos de pesquisa estatística em todos os
países sobre a desigualdade crescente da renda. Pior, temos agora os dados da
desigualdade do patrimônio acumulado das famílias – 85 famílias são donas de
mais riqueza acumulada do que 3,5 bilhões de pessoas na base da pirâmide social
– gerando tensões insustentáveis. Mas em Wall Street enchem a boca e declaram “greed is good”. Sobre
esta desigualdade de patrimônio uma das principais fontes é o Crédit Suisse,
que tem boas razões para entender tudo de fortunas familiares. Nem os dados da
própria direita parecem convencer a direita, se não confirmam os seus
preconceitos.
Vamos tampar os olhos e fazer de conta que acreditamos que é
possível manter a paz política e social num planeta onde 1,3 bilhões não têm
acesso à luz elétrica, 2 bilhões não têm acesso a fontes decentes de água, e
850 milhões passam fome? Tem sentido acreditar no bom pobre¸ que se resigna e
aceita, quando hoje até no último degrau da pobreza há uma consciência do
direito a ter uma escola decente para o filho, saúde básica para a família?
Aqui já não são apenas os olhos e os ouvidos que estão tapados, e sim a própria
inteligência. O homo ignorans raciocina com o fígado.
E porque toda esta riqueza acumulada no topo não serve para
as reconversões tecnológicas que nos permitam salvar o planeta, e para
financiar as políticas sociais e inclusão produtiva capaz de reduzir as
desigualdades? Basicamente porque está situada em paraísos fiscais, aplicada em
sistemas de especulação financeira, sequer orientada para investimentos
produtivos tradicionais. Os 737 grupos que controlam 80% das atividades
corporativas do planeta são essencialmente grupos financeiros. Fonte? O
Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica. São recursos que não só se
aplicam em especulação financeira em vez de financiar investimentos produtivos,
como migram para paraísos fiscais onde não pagam impostos. O Economist estima
que sejam 20 trilhões de dólares, um pouco menos de um terço do PIB mundial.
O Brasil tem cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos
fiscais, da ordem de 25% do PIB. O HSBC que o diga. Mas no Brasil a grande
vitória é a eliminação da CPMF que cobrava ridículos 0,38% sobre movimentações
financeiras. No Brasil pessoas inteligentes e informadas conseguem ignorar o
gigantesco desvio de recursos através dos grandes intermediários financeiros, e
culpam o eterno bode expiatório que é o governo. Em particular quando comete o
pecado de melhorar a condição dos pobres. Ainda bem que temos a corrupção para
canalizar a atenção e os ódios. O uso produtivo dos recursos não seria mais
inteligente?
Não há nenhuma confusão sobre as dimensões propositivas: se
estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria que pouco produz e
muito especula, trata-se de tributar a riqueza improdutiva para financiar as
políticas tecnológicas, ambientais e sociais indispensáveis aos equilíbrios do
planeta. Com Ignacy Sachs e Carlos Lopes apontamos rumos básicos no documento
Crises e Oportunidades em Tempos de Mudança, não são ideias que faltam: falta
muita gente que tampa o sol com a peneira dos seus interesses se dar conta dos
desafios reais que enfrentamos. Aliás, o norte é bem simples: toda política que
reduz as desigualdades, protege o meio ambiente, e tributa capitais
improdutivos contribui não para salvar um governo, mas para nos salvar a todos.
E um país do tamanho do Brasil tem como trunfo fundamental, nesta época de
turbulências planetárias, a possibilidade de ampliar a base econômica interna
através da inclusão produtiva.
Confesso que ando preocupado. Parece que quanto maior a
bobagem declarada, maior o sentimento de superioridade moral. E o ódio, esta
eterna ferramenta dos preconceituosos, é um sentimento agradável quando se
consegue encobrir o interesse com um véu de ética. Nesta nossa guerra
permanente entre o frágil homo sapiens e o poderoso e arrogante homo ignorans, a
olhar pelo mundo afora, e pelos gritos histéricos de extremistas por toda parte
– sempre em nome de elevados sentimentos morais e com amplas justificações racionais – o direito ao
ódio parece superar todos os outros. Pobre Deus, nosso semelhante.
Créditos da foto: 401(K) 2012 / Flickr
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