Ele pode tudo
Paulo Nogueira / http://www.diariodocentrodomundo.com.br/
Uma das frases mais descaradas da cena política
moderna foi pronunciada hoje por FHC.
Ele disse não ver problemas em empreiteiras darem
dinheiro para seu instituto. Para o instituto de Lula, é outra história.
Por cínica que seja, por despudorada que soe, a
frase não poderia ser mais correta, no mundo das coisas reais.
Para simplificar, FHC pode tudo porque é um
intocável.
A imprensa não o fiscaliza e a Justiça não o
aborrece: é a retribuição que o 1% dá aos que defendem seus interesses, como
FHC.
Ele pode comprar no Congresso os votos que lhe
permitiriam um segundo mandato.
Não acontece nada.
Ele pode nomear seu genro para uma função
estratégica na administração do petróleo e depois demiti-lo quando este de
divorciou da filha, numa bofetada sinistra no conceito de meritocracia.
Não acontece nada.
Ele pode arrumar uma sinecura para uma filha no
Congresso.
Não acontece nada.
Ele pode patrocinar com recursos públicos uma nova
gráfica das Organizações Globo, saudada como um retrato do século 21 mas hoje
um fracasso miserável.
Não acontece nada.
Ele pode nomear um juiz como Gilmar Mendes para o
STF, completamente alinhado com o PSDB.
Não acontece nada.
A lista é interminável.
O caso das empreiteiras é apenas mais um.
Seu herdeiro entre os intocáveis é Aécio. Eis outro
que pode tudo.
Aécio pode ser amigo do peito de um homem em cujo
helicóptero foi encontrada meia tonelada de pasta de cocaína.
Nenhum jornal o questiona sobre isso. Nenhum sequer
cita a amizade, expressa em fotos em que ambos estão abraçados.
Aécio pode construir um aeroporto particular com
dinheiro público e, em questão de semanas, se sentir tão inimputável que se põe
a fazer discursos moralistas.
Aécio pode dar dinheiro público a rádios de sua
família – dele mesmo, portanto – em Minas Gerais.
Ninguém o cobra por isso.
Como FHC, Aécio pode tudo. Pode ser flagrado por um
vídeo completamente bêbado numa madrugada no Rio, pode fugir de um teste no
bafômetro – e ainda assim o apelido de Brahma será dado a Lula.
A impunidade de homens como FHC e Aécio é uma das
maiores tragédias nacionais.
Enquanto ela persistir, a Justiça será
desacreditada, objeto de escárnio e ira. E a mídia será o que é: o pilar de um
sistema em que o 1% pode fazer qualquer coisa.
A posteridade não haverá de ser tão complacente
para figuras como FHC e Aécio.
Seus netos haverão de vê-los representados como
símbolos de uma sociedade iníqua, injusta – repulsiva.
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