terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

O Tribunal Penal Internacional é uma ótima ideia que não funciona

© Sputnik/Vladimir Astapkovich

Ter um órgão extranacional que mantenha a justiça no mundo é bom em teoria, mas o TPI não é esse órgão

Nadezhda Romanenko

O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi estabelecido com a nobre intenção de servir como um árbitro imparcial da justiça, abordando os crimes mais graves e responsabilizando os perpetradores em escala global. No entanto, ao longo dos anos, a credibilidade do TPI tem sido cada vez mais prejudicada por alegações de parcialidade política e suscetibilidade à pressão de nações poderosas, particularmente aquelas no Ocidente. Essa erosão da imparcialidade levanta uma questão crítica: o TPI perdeu sua relevância no reino da justiça internacional?

Uma história marcada pelo preconceito

Uma das críticas mais persistentes ao TPI é seu foco desproporcional em nações africanas. Apesar de um mandato global, um número significativo de investigações e processos do Tribunal se concentraram em líderes e conflitos africanos. Esse padrão levou a acusações de neocolonialismo e justiça seletiva, com muitos líderes e acadêmicos africanos alegando que o TPI serve como uma ferramenta para interesses políticos ocidentais em vez de um corpo judicial imparcial. Tais percepções levaram várias nações africanas a considerarem se retirar do Estatuto de Roma, questionando a legitimidade e a justiça do Tribunal.

Principais poderes fora da jurisdição do TPI

A autoridade do TPI é ainda mais comprometida pela ausência de grandes potências globais, como Estados Unidos, Rússia e China, de sua jurisdição. Essas nações se abstiveram de ratificar o Estatuto de Roma, cada uma citando razões distintas enraizadas em preocupações sobre soberania e preconceito percebido.

Os EUA, por exemplo, têm consistentemente expressado apreensão de que o TPI possa ser usado como uma ferramenta política contra seus líderes militares e políticos. Essa preocupação decorre do potencial de processos relacionados aos extensos engajamentos militares dos EUA no exterior, onde alegações de má conduta ocasionalmente surgiram. Para proteger seu pessoal de potenciais ações do TPI, os EUA não apenas se recusaram a se juntar ao Tribunal, mas também promulgaram medidas para impedir investigações do TPI envolvendo cidadãos americanos. Um exemplo notável é o American Service-Members' Protection Act, que autoriza o uso da força para libertar qualquer pessoal dos EUA detido pelo TPI.

O relacionamento da Rússia com o TPI também tem sido carregado de tensão. Inicialmente signatária do Estatuto de Roma, a Rússia nunca ratificou o tratado e retirou formalmente sua assinatura em 2016. Esta decisão seguiu a classificação do TPI das ações da Rússia na Crimeia como uma "ocupação", uma caracterização que Moscou contestou veementemente. O Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, articulou a posição do governo, afirmando que o Tribunal "falhou em atender às expectativas de se tornar um tribunal internacional verdadeiramente independente e autoritário". Este sentimento reflete uma desilusão mais ampla com o que a Rússia percebe como operações unilaterais e ineficientes do TPI.

A China, outro grande player global, também optou por permanecer fora da jurisdição do TPI. Embora declarações oficiais específicas sejam menos proeminentes, a decisão da China se alinha com sua política geral de salvaguardar a soberania nacional e evitar intervenções judiciais externas que possam desafiar suas políticas internas ou ações internacionais.

Instrumento de uma vaga 'ordem baseada em regras'

Os críticos argumentam que o TPI frequentemente funciona como um instrumento de uma nebulosa “ordem baseada em regras”, um termo frequentemente invocado por entidades como a OTAN, a União Europeia e os EUA. No entanto, as “regras” que sustentam essa ordem são frequentemente percebidas como fluidas, adaptando-se para se alinharem às agendas políticas das potências ocidentais em qualquer momento. Essa maleabilidade levanta preocupações sobre a objetividade e a consistência da justiça internacional administrada pelo TPI.

Uma ilustração marcante desse padrão duplo percebido é a emissão de mandados de prisão pelo TPI para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant em novembro de 2024, acusando-os de crimes de guerra em Gaza. Esse movimento foi uma exceção ao padrão usual do TPI, pois desafiou diretamente uma nação que conta com forte apoio de potências ocidentais, particularmente os EUA. A rápida condenação de Washington aos mandados, juntamente com ameaças de sanções contra o TPI, ressalta a influência que nações poderosas podem exercer sobre os procedimentos do Tribunal. Tais ações sugerem um esforço para alinhar as operações do TPI com interesses nacionais específicos, minando assim sua imparcialidade.

O ideal vs. a realidade

O conceito de um tribunal internacional capaz de entregar justiça imparcial e equitativa é inegavelmente louvável. Em teoria, o TPI foi projetado para transcender afiliações políticas, garantindo que a justiça prevaleça sobre a impunidade. No entanto, a realidade se desviou significativamente desse ideal. As operações do Tribunal foram contaminadas por interesses geopolíticos, processos seletivos e falta de mecanismos de execução consistentes. Essa divergência entre os princípios fundamentais do TPI e seu funcionamento real levou a uma crise de credibilidade.

Considerando esses desafios, é imperativo reavaliar a estrutura e o mandato do TPI. As reformas devem ter como objetivo isolar o Tribunal de influências políticas, garantir atenção equitativa aos crimes cometidos em todas as regiões e estabelecer mecanismos robustos para fazer cumprir suas decisões. Sem essas mudanças, o TPI corre o risco de se tornar uma entidade simbólica, desprovida da autoridade e do respeito necessários para defender a justiça internacional.

Embora a aspiração por um tribunal penal internacional justo e imparcial continue essencial, o TPI, em sua forma atual, fica aquém dessa visão. Para restaurar sua relevância e eficácia, reformas abrangentes não são apenas desejáveis ​​– elas são indispensáveis.



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