A visita histórica do rei tailandês a Pequim sinaliza uma aproximação mais profunda de Bangkok com seu vizinho do norte, em uma ordem global em transformação.
A relação da Tailândia com a China entrou em uma nova fase, simbolicamente poderosa, com a histórica visita de Estado de cinco dias do Rei Maha Vajiralongkorn a Pequim, em meados de novembro – a primeira de um monarca tailandês reinante desde o estabelecimento de relações diplomáticas há cinquenta anos.
Esta é também apenas a segunda vez que Vajiralongkorn realiza uma viagem oficial ao exterior como rei, após sua visita ao Butão no início deste ano. Essa rara demonstração de diplomacia monárquica marca um momento decisivo, não apenas para as relações entre China e Tailândia, mas também para a posição estratégica do Sudeste Asiático em um mundo cada vez mais multipolar.
As visitas reais na Tailândia não são compromissos estrangeiros de rotina; são instrumentos deliberados e de grande prestígio, cujo peso político vai muito além do cerimonial. Ao escolher a China como seu primeiro grande destino de Estado, o Rei Vajiralongkorn envia um forte sinal às elites tailandesas, aos líderes empresariais, aos investidores e ao público em geral de que Pequim agora ocupa o ápice das parcerias externas da Tailândia. Sua presença permitiu ao governo tailandês prosseguir com importantes iniciativas econômicas e diplomáticas sob a cobertura neutra, apartidária e respeitada da monarquia – uma vantagem significativa em um sistema político que frequentemente experimenta rápidas mudanças de governo.
Para a China, receber um monarca tailandês reinante oferece um simbolismo diplomático raro e reforça a narrativa de Pequim de que se tornou um parceiro indispensável para os países da ASEAN e uma força estabilizadora na região. O momento também é notável: à medida que a competição entre as grandes potências se intensifica no Sudeste Asiático, o gesto da Tailândia demonstra que o país está aberto a um engajamento mais profundo com a China, mantendo, ao mesmo tempo, um cuidadoso equilíbrio entre Pequim e Washington.
A decisão do rei de se aproximar da China é especialmente surpreendente, considerando seus longos laços pessoais com o Ocidente. Antes de se tornar o monarca mais rico do mundo, Vajiralongkorn passou anos em escolas particulares na Inglaterra e, posteriormente, treinou no Colégio Militar Real da Austrália. Desde que ascendeu ao trono em 2016, ele tem passado grande parte do seu tempo na Alemanha, um fato que provocou desconforto entre as autoridades em Berlim e protestos periódicos em Bangkok. Sua orientação contrasta com os instintos geopolíticos de seu pai, o rei Bhumibol Adulyadej, cujo reinado de setenta anos foi marcado por um profundo envolvimento com os Estados Unidos.
Durante a Guerra Fria, a Tailândia foi um parceiro regional vital para Washington, acolhendo operações militares americanas cruciais na Indochina e encarando a China como uma ameaça, e não como uma parceria. Apesar dos múltiplos convites de Pequim, o Rei Bhumibol nunca visitou a China, refletindo a desconfiança da época. Contudo, as bases para laços mais estreitos foram discretamente lançadas por outros membros da família real. A Princesa Maha Chakri Sirindhorn, filha do rei, estudou na China, visitou o país mais de cinquenta vezes e foi homenageada com a Medalha da Amizade da China – um sinal de laços culturais e educacionais de longa data que se encontravam por baixo da superfície política.
A Tailândia continua sendo o único aliado formal de Washington na Indochina, e a relação de defesa mantém uma profundidade significativa, construída sobre décadas de treinamento, interoperabilidade e laços militares. No entanto, a relação bilateral passou por períodos de tensão. As críticas dos EUA à situação dos direitos humanos na Tailândia, o impacto das tarifas de Donald Trump sobre a economia tailandesa e a percepção de que o compromisso regional mais amplo de Washington se tornou inconsistente contribuíram para uma sensação de incerteza estratégica em Bangkok. Embora a relação de defesa entre EUA e Tailândia continue robusta, ela não domina mais a orientação da política externa tailandesa.
Em contraste, o envolvimento da Tailândia com a China expandiu-se de forma constante nas áreas econômica, de segurança e cultural. A frase frequentemente repetida de que “China e Tailândia são tão próximas quanto uma família” evoluiu de um slogan diplomático para um princípio orientador da cooperação. A China é o maior parceiro comercial da Tailândia, e o comércio bilateral cresceu apesar das dificuldades econômicas globais. No primeiro semestre deste ano, o comércio atingiu US$ 76,1 bilhões, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. A Tailândia lidera a ASEAN em exportações agrícolas para a China e foi o primeiro país da região a implementar um acordo de livre comércio com Pequim.
O investimento chinês está migrando de projetos tradicionais de infraestrutura para setores de alto valor agregado, como veículos elétricos, fabricação de baterias, tecnologia verde, plataformas digitais e eletrônica avançada. Esses investimentos estão ajudando a Tailândia a se transformar de uma base de produção para empresas estrangeiras em um polo regional para exportações modernas de alta tecnologia. Enquanto isso, os turistas chineses continuam sendo a força vital da economia tailandesa, dependente do turismo, e os intercâmbios culturais seguem aprofundando os laços entre as duas sociedades.
A cooperação em segurança também se expandiu. A Tailândia foi o primeiro país a realizar exercícios conjuntos com três ramos do Exército de Libertação Popular – o Exército, a Marinha e a Força Aérea. Foi o primeiro membro da ASEAN a receber oficiais de ligação chineses no combate às drogas e o primeiro na região a assinar um tratado de extradição com Pequim. Esses desenvolvimentos ressaltam uma mudança sutil: embora Washington permaneça profundamente inserido na estrutura de segurança da Tailândia, a China está se tornando cada vez mais um parceiro essencial no policiamento regional, em operações de combate ao narcotráfico e na cooperação em resposta a desastres. Com o tempo, essa tendência poderá corroer a influência tradicionalmente exclusiva dos Estados Unidos sobre segmentos do aparato de segurança tailandês.
A coreografia diplomática em torno da visita de Vajiralongkorn reforça essa mudança. A visita a Pequim ocorreu apenas duas semanas depois de Donald Trump ter feito uma breve parada na Cúpula da ASEAN na Malásia, onde supervisionou a assinatura de uma declaração de paz entre a Tailândia e o Camboja. No entanto, a abordagem de Washington logo em seguida contrastou fortemente com a da China. Durante a estadia do rei em Pequim, os EUA suspenderam abruptamente as negociações comerciais com a Tailândia devido a preocupações de que Bangkok não estivesse implementando o acordo de paz fronteiriça com o Camboja com a rapidez necessária.
Em contraste, Pequim aproveitou a visita real para expressar sua disposição em intensificar a coordenação estratégica com a Tailândia e acelerar grandes projetos. O principal deles é a ferrovia de alta velocidade China-Tailândia, um elo central na ampla rede ferroviária transasiática que visa fortalecer a conectividade do Sudeste Asiático continental. A China também se comprometeu a aumentar as importações de produtos agrícolas tailandeses e a expandir a cooperação em áreas emergentes como inteligência artificial, desenvolvimento da economia digital, aviação e tecnologia aeroespacial. Por sua vez, o Rei Vajiralongkorn enfatizou que a Tailândia espera aprender com a experiência de desenvolvimento da China e está pronta para expandir a colaboração em diversos setores em um momento de incerteza econômica global.
As implicações vão além da relação bilateral. A visita ajuda a moldar a próxima etapa das relações China-ASEAN num momento em que a região enfrenta crescentes tensões geopolíticas, desaceleração do crescimento global e pressão para diversificar as cadeias de suprimentos. A abertura da Tailândia a um engajamento mais profundo com a China reflete uma abordagem mais ampla do Sudeste Asiático que prioriza o pragmatismo em detrimento da polarização. A região busca aproveitar o dinamismo econômico da China, mantendo laços de segurança construtivos com os EUA, salvaguardando assim a centralidade da ASEAN. O governo tailandês tem sinalizado repetidamente que não pretende tomar partido na rivalidade China-EUA. De fato, o ministro do Comércio tailandês comentou recentemente que a Tailândia poderia se beneficiar da guerra comercial entre China e EUA, atraindo investimentos e comércio de ambas as potências.
Para Pequim, a visita real é uma conquista diplomática que reforça seu papel crescente na arquitetura econômica do Sudeste Asiático. Ela fortalece a posição da China em infraestrutura, integração da cadeia de suprimentos, inovação digital e desenvolvimento sustentável. Para a Tailândia, a visita representa uma oportunidade de diversificar o crescimento, modernizar a indústria e garantir parcerias de investimento de longo prazo. E para a região em geral, demonstra que os países da ASEAN podem buscar parcerias cooperativas e mutuamente benéficas com as grandes potências, mantendo sua autonomia estratégica.
Em última análise, a visita histórica do Rei Vajiralongkorn ilustra como o Sudeste Asiático está remodelando suas relações externas em um mundo multipolar. A Tailândia busca maximizar as oportunidades econômicas decorrentes da ascensão da China, preservando, ao mesmo tempo, os laços de segurança e investimento que a ligam há muito tempo aos Estados Unidos. O resultado não é um realinhamento geopolítico drástico, mas sim uma estratégia matizada, baseada na flexibilidade, na conectividade e na resiliência econômica. Nesse sentido, a visita marca não apenas um marco nas relações China-Tailândia, mas também uma importante contribuição para a estabilidade da região e para a evolução da ordem internacional em geral.
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