A década perdida da esquerda europeia

Syriza e Podemos estão entre os projetos fracassados ​​da esquerda europeia na última década. (Matt Cardy/Getty)

TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ

Há dez anos, partidos insurgentes no sul da Europa foram eleitos com a promessa de transformar o capitalismo. Seu fracasso oferece lições que a esquerda contemporânea não pode se dar ao luxo de ignorar.

À medida que novos projetos de esquerda ganham força — da recente vitória de Mamdani ao surgimento de um novo partido de esquerda na Grã-Bretanha — vale a pena revisitar o “momento de esquerda” que a Europa vivenciou na década de 2010. Há dez anos, as expectativas eram altas. Embora o governo do SYRIZA tivesse acabado de ceder à Troika, as esperanças permaneciam depositadas em outros partidos de esquerda no sul da Europa (Podemos, Bloco de Esquerda), em um Partido Trabalhista revigorado no Reino Unido e no novo partido de Mélenchon na França. Contudo, dez anos depois, o neoliberalismo permanece firmemente entrincheirado, cada vez mais autoritário e abertamente belicoso. Pior ainda, a extrema-direita se consolidou como a principal rival do centro político, embora sua suposta ruptura com a ortodoxia neoliberal seja em grande parte ilusória. Como chegamos a este ponto?

Durante grande parte do período pós-Guerra Fria, a esquerda radical europeia permaneceu marginalizada. O colapso do bloco oriental minou não apenas o socialismo de Estado como modelo, mas também a própria ideia de uma alternativa sistêmica ao capitalismo. As décadas de 1990 e 2000 foram caracterizadas pelo triunfo da hegemonia neoliberal e pela erosão da consciência de classe. Nesse período, a esquerda radical obteve uma média de apenas 6,6% dos votos nas eleições nacionais.

Contudo, a virada neoliberal da social-democracia criou um vácuo político. Do final da década de 1990 em diante, surgiram novas formações de esquerda: Die Linke na Alemanha, o Parti de Gauche na França, o SYRIZA na Grécia, o Bloco de Esquerda em Portugal e, mais tarde, o Podemos na Espanha. Esses partidos se posicionaram como alternativas tanto à social-democracia neoliberal quanto aos partidos comunistas fossilizados, que se mostraram incapazes de se conectar com as novas camadas ativistas formadas pelo movimento antiglobalização.

A crise da zona do euro na década de 2010 deu a esses partidos a sua oportunidade. Na Grécia, Espanha e Portugal, a austeridade foi inicialmente imposta por governos de centro-esquerda, desencadeando ondas massivas de resistência popular. Embora os sindicatos ocasionalmente tenham desempenhado um papel significativo, os protestos assumiram, em grande parte, a forma de movimentos sociais de massa, desobediência civil e redes de solidariedade popular. Alguns desses novos partidos, notadamente o SYRIZA e o Podemos, integraram-se com sucesso a esses movimentos e tornaram-se seus veículos políticos.

Em meados da década de 2010, com o declínio da mobilização em massa, a oportunidade eleitoral atingiu seu ápice. Só em 2015, o SYRIZA chegou ao poder na Grécia, o Podemos e o Bloco de Esquerda alcançaram resultados históricos, Jeremy Corbyn assumiu o controle do Partido Trabalhista e Bernie Sanders lançou uma campanha que revitalizou a social-democracia nos Estados Unidos. Antes de Trump e do Brexit, parecia que a esquerda radical havia tomado a iniciativa, chegando a impedir a entrada da extrema-direita nos parlamentos da Espanha e de Portugal.

No entanto, nenhuma dessas forças cumpriu suas promessas. A capitulação do SYRIZA à Troika em julho de 2015 marcou um ponto de virada. Depois de desafiar brevemente a austeridade, o governo aceitou um novo resgate financeiro, novos cortes e privatizações em larga escala. Essas políticas abriram caminho para o retorno da direita ao poder e a transformação do SYRIZA em um partido social-democrata convencional. Em Portugal, o apoio parlamentar prolongado do Bloco a um governo de centro-esquerda teve pouco impacto nas políticas públicas, culminando em um colapso eleitoral e na ascensão do partido de extrema-direita Chega. O Podemos seguiu um caminho semelhante, entrando no governo com o PSOE, perdendo sua postura anti-establishment e permitindo que seu parceiro majoritário levasse o crédito por reformas modestas. Hoje, o Podemos está na lanterna das pesquisas, enquanto o Vox ganha terreno de forma constante.

Apesar da abertura histórica criada pela crise financeira, a esquerda radical não conseguiu alterar a ordem neoliberal. As limitações objetivas eram reais: sindicatos fracos, desenvolvimento desigual dentro da UE, uma classe trabalhadora europeia fragmentada e, sem dúvida, uma esquerda europeia fragmentada. A consciência de classe recuperou-se parcialmente desde 1989, mas permanece em grande parte reformista, relutante em tirar conclusões sistêmicas mesmo em meio à catástrofe climática, à guerra e à desigualdade crescente. Décadas de domínio neoliberal continuam a moldar o cenário político.

Contudo, esses obstáculos não eram imutáveis. A esquerda radical foi limitada pelas circunstâncias, mas também fez suas próprias escolhas decisivas. Em diferentes contextos nacionais, esses partidos compartilharam características programáticas, estratégicas e organizacionais comuns que explicam tanto sua ascensão meteórica quanto seu declínio subsequente, ainda mais rápido.

Do radicalismo ao reformismo

Ser radical é atacar os problemas pela raiz, ou seja, pelo próprio capitalismo. Nesse sentido, a esquerda radical da década de 2010 foi radical em suas origens. Esses partidos emergiram de tradições comunistas não stalinistas: o Bloco, das correntes trotskista, maoísta e eurocomunista; o SYRIZA, de uma coalizão centrada nos Sinaspismos eurocomunistas ; o Podemos, de uma mistura de intelectuais populistas de esquerda, trotskistas e ativistas indignados .

Contudo, com o tempo, seus programas foram gradualmente se moderando. As demandas iniciais do SYRIZA por nacionalização deram lugar, em 2015, a uma plataforma social-democrata limitada à oposição à austeridade e à restauração do Estado de bem-estar social, sem sequer questionar a permanência da Grécia na zona do euro. Essa recusa em considerar uma ruptura com a união monetária enfraqueceu fatalmente a posição de negociação do SYRIZA e refletiu uma perspectiva neorreformista mais ampla: a tentativa de apaziguar o capitalismo neoliberal por meio da representação, em vez do confronto.

Os defensores dessa abordagem argumentavam que sair da zona do euro teria sido catastrófico. Ao fazer isso, simplesmente reproduziam a lógica do TINA (“não há alternativa”) e pressupunham um equilíbrio estático das forças de classe. No entanto, o referendo do Oxi demonstrou momentaneamente o potencial para uma mudança radical, caso o governo tivesse optado por mobilizar sua base e implementar medidas como o controle de capitais, a nacionalização de bancos e uma política industrial liderada pelo Estado. Essa alternativa nunca foi seriamente considerada porque o SYRIZA já havia abandonado qualquer programa de transição para além do capitalismo.

O Bloco de Esquerda seguiu um caminho semelhante. Focado principalmente na defesa do Estado de bem-estar social, apoiou duas vezes um governo social-democrata sem propor uma alternativa socialista credível. Quando retirou o seu apoio em 2022, tornou-se indistinguível do status quo e pagou o preço eleitoral. A trajetória de moderação do Podemos foi ainda mais rápida: abraçando abertamente uma agenda neokeynesiana e social-democrata, conseguiu implementar reformas limitadas enquanto esteve no governo, mas estas foram exploradas politicamente pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE).

Essa moderação programática foi motivada por considerações eleitorais. Em sua busca por "elegibilidade", esses partidos simplesmente ressuscitaram elementos do keynesianismo do pós-guerra — impostos mais altos, bem-estar social, serviços públicos — combinados com políticas culturais progressistas. Mas as condições que outrora possibilitaram tais reformas dentro do capitalismo já não existem. Na atual policrise, o neorreformismo não leva à reforma, mas à adaptação e à eventual absorção pelo status quo.

Das ruas às instituições

A ascensão da esquerda neorreformista dependeu não apenas de programas anti-austeridade, mas também de seu envolvimento precoce em movimentos de massa. O SYRIZA, o Bloco de Esquerda e o Podemos atuaram inicialmente como partidos-movimento, convertendo a resistência social em capital político. Os laços estreitos do SYRIZA com os movimentos sociais gregos possibilitaram sua ascensão espetacular em 2012, quando ultrapassou o PASOK como o principal partido de esquerda. No entanto, esse sucesso gerou complacência. Com o declínio da mobilização social, o partido voltou-se decisivamente para a política parlamentar, negligenciando as forças populares que o impulsionaram inicialmente.

Essa mudança institucional culminou na dependência do SYRIZA em negociações de alto nível com a Troika. O referendo do Oxi poderia ter marcado um retorno à mobilização de massas e um desafio à austeridade em toda a Europa. Em vez disso, permaneceu uma manobra tática dentro de uma estratégia global que se manteve confinada aos limites da democracia capitalista. O partido perdeu porque optou por jogar um jogo cujas regras haviam sido estabelecidas por seus adversários.

A fixação do Bloco no parlamento durante os anos em que apoiou um governo minoritário corroeu de forma semelhante a sua presença popular. O Podemos institucionalizou-se ainda mais rapidamente, proclamando explicitamente uma mudança da mobilização para as instituições no primeiro ano após a sua fundação. Durante a crise catalã de 2017, limitou-se ao reformismo constitucional enquanto protestos em massa se desenrolavam nas ruas.

A nível europeu, o institucionalismo era ainda mais acentuado. A cooperação transnacional era mínima, limitando-se a gestos simbólicos e a uma fraca coordenação no Parlamento Europeu. Mesmo durante o confronto do SYRIZA com a Troika, não houve qualquer esforço sério para construir uma frente pan-europeia contra a austeridade. A oportunidade de revitalizar o internacionalismo de esquerda foi desperdiçada, deixando a esquerda radical europeia atual mais fragmentada do que nunca no período pós-1989.

Organização interna

A moderação programática e a institucionalização estratégica refletiram-se internamente. Partidos que começaram como pluralistas e democráticos gradualmente se burocratizaram, muitas vezes para suprimir a dissidência interna diante da moderação programática e estratégica. A transformação do SYRIZA de uma coligação para um partido unitário fazia sentido, mas assumiu a forma de uma concentração de poder no topo, o que diminuiu o poder da base. A entrada no governo acelerou esse processo, abrindo caminho para oportunistas e uma guinada constante à direita. A eventual, embora efêmera, eleição de um ex-banqueiro do Goldman Sachs como líder simbolizou a degeneração do partido.

O Bloco e o Podemos seguiram caminhos semelhantes. As organizações fundadoras do Bloco se dissolveram em um aparato rigidamente controlado, enquanto o Podemos rapidamente centralizou a tomada de decisões por meio de mecanismos online que atomizaram seus membros. A participação inicial em massa deu lugar à desmobilização e ao foco em Iglesias, cuja saída deixou um vácuo que ainda não foi preenchido. Ironicamente, todos esses desenvolvimentos foram justificados, muitas vezes explicitamente, por uma rejeição ao centralismo democrático “leninista”, mas o que a esquerda neorreformista acabou reproduzindo foi sua caricatura burocrática: centralismo sem democracia. Ao fazer isso, traiu sua promessa original de construir um tipo diferente de partido de esquerda.

Lições para a esquerda

Após décadas de neoliberalismo e em meio a uma profunda e multifacetada crise sistêmica, a esquerda europeia enfrenta sua própria crise prolongada. Os sindicatos estão fracos, os partidos operários de massa desapareceram, a consciência de classe está aquém das realidades materiais e a esquerda revolucionária está fragmentada e marginalizada. Nesse contexto, a experiência da esquerda no sul da Europa oferece três lições importantes uma década depois.

Em primeiro lugar, a esquerda não pode simplesmente gerir o capitalismo. As reformas são necessárias, mas devem ser integradas num programa radical de democracia económica e política. Sem essa ponte entre as exigências imediatas e a transformação sistémica, o reformismo não leva a lado nenhum.

Em segundo lugar, o verdadeiro poder vem da mobilização das massas. A política eleitoral e o ativismo de base não são caminhos alternativos a serem escolhidos, mas estratégias complementares, duas faces da mesma moeda. Os partidos de esquerda radical devem se tornar novamente partidos de movimento e permanecer assim, em vez de abandonar um pelo outro ao primeiro vislumbre de sucesso eleitoral.

Em terceiro lugar, a unidade é importante. A fragmentação da atual esquerda radical supera em muito as diferenças políticas reais. Igualmente importante é que qualquer projeto de unidade deve ser pluralista e democrático, combinando debate interno com ação coordenada. Se devidamente compreendido e implementado (e não apenas da boca para fora), o centralismo democrático continua sendo indispensável.

O capitalismo há muito insiste que não há alternativa a si mesmo. Grande parte da esquerda internalizou essa ideia, limitando suas ambições a administrar ou reformar ligeiramente o sistema. No entanto, a desigualdade, o autoritarismo, a catástrofe climática e a guerra estão levando mais pessoas a questionar radicalmente esse sistema que, como todos os anteriores, pode parecer eterno. A esquerda precisa acompanhar essa corrente histórica e redescobrir o valor de lutar por uma nova sociedade.

 VLADIMIR BORTUN

Vladimir Bortun é um cientista político que trabalha com partidos de esquerda, elites políticas e política transnacional. Ele é o autor de *Crise, Austeridade e Cooperação Transnacional entre Partidos no Sul da Europa: A Década Perdida da Esquerda Radical*

"A leitura ilumina o espírito".

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