– Independentemente do que os bárbaros possam estar a fazer, o fato que importa é que a China já está na fase seguinte, em que se espera que substitua os Estados Unidos como o principal mercado consumidor do mundo.
O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros. Antonio Gramsci |

Davos 2026 foi um caleidoscópio demente. A única maneira possível de chafurdar no lamaçal era pôr os auscultadores e recorrer à Band of Gypsys, esmagando as barreiras sónicas e afogando uma série de acontecimentos francamente terrificantes, incluindo uma ligação Palantir-BlackRock, o encontro entre a Big Tech e a Big Finance; o “Plano Diretor” para Gaza; e a aguda desorientação na arenga do neo-Calígula, aqui na versão de 3 minutos.
Depois, houve aquilo que os meios de comunicação social fragmentados do Ocidente erigiram como um discurso visionário: O mini-opus magnum do primeiro-ministro canadiano Mark Carney, completo com uma citação de Tucídides (“Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”) para ilustrar a ‘ruptura’ da “ordem internacional baseada em regras”, que já era um Dead Man Not Walking há pelo menos um ano.
E como não rir da noção extremamente rica de uma carta de 400 milionários e multimilionários “patriotas” dirigida aos chefes de Estado em Davos, reclamando mais “justiça social”. Tradução: eles estão aterrorizados – em modo Paranoia Paradise – com a “ruptura”, na verdade o colapso avançado do ethos do neoliberalismo que os enriqueceu em primeiro lugar.
O discurso de Carney foi um artifício astuto, de manchete, para – em tese – enterrar a “ordem internacional baseada em regras”, na verdade o eufemismo do dia, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, para o domínio total da oligarquia financeira anglo-americana. Carney reconhece agora apenas uma mera “ruptura” – supostamente cosida por “potências médias”, maioritariamente o Canadá e alguns europeus (nada de Sul Global).
E é aí que está a grande revelação: o suposto antídoto para a “ruptura” não tem absolutamente nada a ver com soberania. Trata-se, na verdade, de uma cobertura controlada, uma espécie de multipolaridade ersatz gerida - que nada tem a ver com o impulso dos BRICS -, baseada numa mistura difusa de “realismo baseado em valores”, “construção de coligações” e “geometria variável”, destinada a manter o mesmo velho esquema monetarista.
Bem-vindos a “O Leopardo” de Lampedusa, remixado: “Tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma”.
E tudo isto vindo de um liberal, um antigo governador do Banco de Inglaterra. Estes tigres nunca mudam as suas pintas. As verdadeiras alavancas do poder – exercidas pela City de Londres e por Wall Street – são totalmente imunes ao antídoto da “ruptura”.
A parceria estratégica Rússia-China, que está a evoluir e tem várias camadas, já invalida a fraude muito sofisticada de Carney, que enganou muita gente informada. O mesmo acontece com o BRICS – à medida que avança no longo e sinuoso caminho da verdadeira multi-nodalidade.
O que nos traz à verdadeira mensagem contida na já característica ‘revelação controlada’ (limited hangout)de Carney:
O Canadá e as “potências médias” europeias encontram-se agora, não na mesa, mas na ementa, uma vez que o neo-calígula, o soberano do mundo, pode fazer-lhes o que a NATO tem feito de facto ao Sul Global nos últimos 30 anos.
“Tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma”
Muitos dos que agora consagram Carney como O Novo Messias – e tão defensor do direito internacional – ignoraram totalmente ou encobriram o genocídio sionista de Gaza; demonizaram a Rússia até ao Reino do Céu e continuam a instigar uma Guerra Eterna; e agora imploram de joelhos para que o neo-Calígula se envolva num “diálogo” a fim de resolver a sua autoproclamada apropriação de terras da Gronelândia.
Elon Musk, por acaso, também apareceu em Davos em cima da hora. Ele é um grande apoiante da apropriação de terras da Gronelândia. Musk e outras estrelas tecno-feudalistas não podem deixar de se deixar seduzir pelo projeto de transformar aquele “pedaço de gelo” (terminologia neo-calígula) no principal centro de Estados digitais, os sucessores dos Estados-nação, supostamente governados por Techno-CEOs que se fazem passar por Reis Filósofos.
Combinando isto com a ligação Big Tech-Big Finance – na mesa Palantir-BlackRock – temos os Reis da IA a liderar o caminho, com os financeiros a segui-los.
O “pedaço de gelo” estava, obviamente, a derreter sem parar em todo o espetro de Davos. Quando o neo-calígula anunciou que não faria à Gronelândia o que fez à Venezuela, o alívio coletivo europeu fez explodir o Champagne-O-Meter.
Coube ao poodle certificado da NATO, Tutti Frutti al Rutti, com aquele sorriso perpétuo de uma tulipa holandesa murcha, convencer o “papá” a ser indulgente, provando mais uma vez que a UE é uma República das Bananas, na verdade uma União, sem as bananas.
O Neo-Calígula e a tulipa murcha arranjaram um “quadro” para que os EUA obtivessem algumas propriedades na Gronelândia para fins de base militar e de desenvolvimento limitado da extração de terras raras, além da necessária proibição de projectos russos e chineses. A Dinamarca e a Gronelândia nem sequer estavam presentes na sala quando este “acordo” foi alcançado.
No entanto, tudo isto pode mudar num instante, ou num post nas redes sociais. Porque não é isso que o neo-Calígula quer. Ele quer a Gronelândia pintada a vermelho, branco e azul num mapa dos EUA.
Ainda assim, a mais aterrorizante conspiração de apropriação de terras destacada em Davos tinha de ser Gaza. O idiota sionista insuportável - o cérebro da família pertence, de facto, à mulher Ivanka - apresentou o plano diretor para “a nova Gaza”.
Ou Como mercadejar o horror... O Horror (as minhas desculpas a Joseph Conrad).
Aqui temos uma campanha de massacre/extermínio em massa, juntamente com a apropriação do que foi reduzido a escombros, levando a uma zona de contenção de alta segurança para palestinos “aprovados” e a imóveis de primeira linha à beira-mar para burlões imobiliários e colonos israelenses.
Tudo isto gerido por uma empresa privada, presidida pelo neo-Calígula vitalício, agora encarregado da anexação, ocupação e exploração de Gaza: uma monstruosa apropriação de terras que enterra de uma só vez um genocídio e o que resta do direito internacional – tudo totalmente aprovado pela UE e por uma série de “líderes” políticos, alguns demasiado aterrorizados, outros basicamente a precaverem-se para contornar a ira do neo-Calígula.
A “ruptura” chinesa
Um palhaço chamado Nadio Calvino, presidente do Banco Europeu de Investimento, defendeu mesmo em Davos que a UE “é uma superpotência”.
Ora, a História é avessa a registar como superpotência um conjunto que é totalmente dependente dos EUA e da NATO para a defesa; que não tem qualquer projeção de poder; que não alberga grandes empresas tecnológicas (as que ainda existem estão a desmoronar-se); que depende do estrangeiro em 90% do fornecimento de energia; e que está afogada em dívidas (17 milhões de milhões de dólares no total, o equivalente a mais de 80% do PIB da UE).
Assim, no fim de contas, no meio de tanto som e fúria – disparatados –, qual foi o verdadeiro fator de mudança em Davos? Não foi a “ruptura”, nem sequer as parcelas de apropriação de terras. Foi o discurso do vice-primeiro-ministro da China, He Lifeng.
Aliás, o discurso de “ruptura” de Carney foi fortemente influenciado pela sua recente viagem à China – onde se encontrou com He Lifeng, um sério candidato à sucessão de Xi Jinping no futuro.
Em Davos, He Lifeng deixou bem claro que a China está determinada a tornar-se “o mercado do mundo”; e que o aumento da procura interna está agora “no topo da agenda económica [da China]”, como refletido no 15º plano quinquenal que será aprovado em março próximo em Pequim.
Portanto, independentemente do que os bárbaros possam estar a fazer, o facto que importa é que a China já está na fase seguinte, em que se espera que substitua os Estados Unidos como o principal mercado consumidor do mundo.
É a isso que se chama uma ruptura.
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