O sexo acabou. Por quê?

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Como o sexo foi perdendo importância na lista de prioridades da vida

Por Dmitry Samoilov

A questão é a seguinte: o mundo em que muitos de nós crescemos desapareceu, e não por causa da geopolítica. Por causa do sexo.

Não, isto não é uma confissão pessoal. É uma observação sobre a cultura. O sexo, antes tratado como central na vida moderna, está silenciosamente perdendo espaço. E essa mudança é tão ampla que nos revela algo incômodo sobre o rumo que a sociedade tomou.

Eu atingi a maioridade na década de 1990, quando o sexo estava em toda parte. Não apenas na vida privada, mas também no espaço público. A publicidade seguia a fórmula de que sexo vende. Alguns produtos, logicamente, se prestavam a imagens eróticas; outros, não. No entanto, um corpo feminino sexualizado podia ser usado para vender quase tudo, inclusive um copo d'água. Jornais, revistas de carros e até publicações sobre o paranormal traziam ensaios fotográficos de nus. A televisão, muito antes dos horários da madrugada, incluía cenas de sexo como rotina. Séries para jovens giravam em torno da primeira experiência sexual. As escolas distribuíam folhetos sobre contracepção. Palavras antes sussurradas agora eram ditas no ar: orgasmo, masturbação, relação sexual.

A mensagem era clara. Sexo não era apenas normal. Era valioso, excitante, uma característica permanente da vida moderna.

Trinta anos depois, ouvimos, quase casualmente, que o sexo é superestimado.

Isso não é apenas um relato isolado. Pesquisas refletem uma mudança real. Um estudo do centro analítico NAFI mostra que 22% das pessoas entre 18 e 25 anos não são sexualmente ativas. Mais da metade dos entrevistados relata problemas em sua vida íntima. Quarenta por cento não conseguem conversar sobre questões sexuais com seus parceiros. Um grande número relata insatisfação, falta de desejo ou dor. Entre as mulheres, os números são especialmente alarmantes.

Mais reveladoras ainda são as classificações de valores. Entre pessoas em relacionamentos de longo prazo, o sexo ocupa o último lugar na lista do que é necessário para o bem-estar. Para muitos jovens, ele sequer aparece como um valor. Saúde, dinheiro, status, viagens, paz de espírito. Agora, esses são os itens que dominam. O sexo saiu de cena.

Considerando o quão problemática a esfera íntima se tornou, isso não é de surpreender. O sexo hoje compete com todo um universo digital. Vídeos curtos, plataformas de streaming, jogos, conteúdo online infinito. Por que investir esforço emocional e físico quando formas mais fáceis de estimulação estão disponíveis sob demanda?

A ansiedade aumenta ainda mais. Escolher um parceiro agora parece navegar por um campo repleto de sinais de alerta. Medo de manipulação, abuso, rótulos psicológicos. E então surgem as preocupações práticas. E se isso levar a um compromisso? Casamento? Uma hipoteca? Nesse contexto, o afastamento começa a parecer racional.

Como chegamos a esta situação? 

O período que lembramos como de libertação sexual pode ter sido uma exceção histórica. Aproximadamente a partir da década de 1950, uma combinação singular de fatores se alinhou. A contracepção se disseminou. Os padrões de vida aumentaram. As condições de moradia melhoraram. A educação se expandiu. O comportamento sexual começou a se dissociar da reprodução e do casamento. Essa foi a chamada segunda transição demográfica. O sexo podia existir por prazer, independentemente da formação de uma família.

Durante algumas décadas, o sexo tornou-se acessível e culturalmente celebrado. Presumimos que isso fosse uma conquista permanente da modernidade. Mas, ao longo de grande parte da história da humanidade, o sexo não foi uma esfera de autoexpressão. Para a maioria, estava ligado à necessidade, à reprodução, à obrigação. Higiene, privacidade, conforto – as condições que tornam possível o prazer mútuo – eram luxos. Ideias como orgasmo feminino ou compatibilidade emocional não eram preocupações centrais para as pessoas comuns.

Gostamos de citar obras de arte erótica antigas ou textos como o Kama Sutra. No entanto, estes representam culturas de elite ou simbólicas, não a experiência cotidiana da maioria das pessoas. O que o final do século XX fez foi, ainda que brevemente, colocar o sexo no centro da cultura de massa.

Parece que esse momento está passando.

Hoje em dia, o sexo compete não só com o entretenimento digital, mas também com uma ética mais ampla de otimização individual. O tempo é um recurso escasso. A energia é limitada. As pessoas priorizam carreira, condicionamento físico, estabilidade mental, viagens e consumo. O sexo, com suas incertezas e vulnerabilidades, parece ineficiente.

O resultado é paradoxal. Uma sociedade saturada de imagens sexuais num passado recente está produzindo gerações menos interessadas na prática sexual. A linguagem do desejo permanece na publicidade e nos meios de comunicação, mas a realidade vivida caminha para o distanciamento.

Talvez não se trate de declínio, mas de reequilíbrio. O sexo, após um período de superexposição cultural, volta a ser apenas mais um elemento entre muitos, não mais o princípio organizador da cultura jovem. Contudo, o contraste com a década de 1990 é tão marcante que chega a ser sentido como uma ruptura.

Essa época anterior deixou um vasto arquivo de filmes, romances e memórias que retratam um mundo em que o sexo parecia fácil, central, quase garantido. Podemos acabar estudando esse período da mesma forma que estudamos outras breves fases culturais, através da arte e da nostalgia, em vez da experiência pessoal.

Descobriu-se que a época em que o sexo era tratado como um valor universal pode ter sido um interlúdio, não um destino. E agora estamos vivendo a correção desse quadro.

Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal online  Gazeta.ru  e foi traduzido e editado pela equipe da RT. 


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