A recente onda de protestos no Irã constitui um dos eventos mais significativos da história da República Islâmica, com um número de mortos muito superior ao de levantes anteriores. Embora os protestos estejam, por ora, contidos, o impasse político persiste. (MAHSA / Middle East Images / AFP via Getty Images)
TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ
Por ora, os governantes iranianos conseguiram conter a onda de protestos. Mas a natureza da agitação e a resposta letal do Estado definem uma situação sem precedentes desde a revolução de 1979, enquanto a ameaça de um ataque dos EUA persiste.
A recente onda de protestos no Irã constitui um dos acontecimentos mais significativos da história da República Islâmica. Embora as autoridades iranianas tenham imposto um bloqueio à internet para conter o fluxo de informações, há evidências claras de que as forças de segurança do Estado mataram milhares de pessoas, um número que supera em muito as baixas registradas durante os levantes de 2009 ou de 2022-2023.
Por ora, Donald Trump recuou da possibilidade de ordenar um novo ataque dos EUA contra o Irã na esperança de precipitar a queda do regime, mas essa postura pode mudar nas próximas semanas ou meses. Para entender a importância desse último desenvolvimento para a política interna iraniana e suas relações com os Estados Unidos, é necessário situá-lo em uma perspectiva histórica de longo prazo que remonta à revolução de 1979.
A crise da embaixada
Há quase meio século, em 4 de novembro de 1979, estudantes seguidores do líder revolucionário iraniano, o aiatolá Ruhollah Khomeini, tomaram o controle da embaixada dos EUA em Teerã e fizeram seus funcionários reféns. Eles libertaram os funcionários da embaixada 444 dias depois, quando Ronald Reagan assumiu a presidência dos EUA. Khomeini havia chegado ao poder apenas alguns meses antes como o líder incontestável de uma revolta popular que depôs Mohammad Reza Pahlavi, o Xá, ou rei, do Irã, que havia sido instalado no trono em 1953 por meio de um golpe militar orquestrado pela CIA.
Contudo, no início do inverno de 1979, Washington abandonou sua política de apoio incondicional ao Xá. O presidente Jimmy Carter instruiu seu embaixador em Teerã a informá-lo de que havia chegado a hora de abdicar e deixar o país. Poucas semanas após a partida do Xá, a monarquia se desintegrou, enquanto enviados americanos negociavam secretamente uma transição de poder ordenada com Khomeini e seus aliados mais próximos em Paris e Teerã.
Nos meses entre a proclamação oficial da República Islâmica, em março de 1979, e a subsequente tomada da embaixada, as relações entre Washington e a jovem república foram tensas, mas cordiais. Sob a supervisão de Khomeini, o chefe do governo provisório, Mehdi Bazargan, e membros de sua equipe realizaram encontros clandestinos com diplomatas americanos em Teerã.
Essas reuniões abordaram como reconstruir as relações bilaterais, reestruturar as compras militares do Irã e recuperar o dinheiro — entre 10 e 12 bilhões de dólares — que o Xá havia depositado em bancos americanos. Houve também uma troca de informações sensíveis sobre a União Soviética e outros países vizinhos do Irã, a ponto de a CIA ter informado seus contatos iranianos sobre movimentações de tropas iraquianas na fronteira do país.
Entretanto, uma coalizão heterogênea de grupos e organizações islâmicas de esquerda e marxistas ganhava força política ao atacar veementemente os laços, abertos e secretos, do governo interino com os Estados Unidos, que denunciavam como uma traição ao mandato anti-imperialista da revolução. Este era o contexto volátil da tomada da embaixada em Teerã, um evento que mudaria o curso e o caráter da Revolução Iraniana, colocando-a em confronto direto com todo o poderio do colosso americano.
A crise dos reféns no Irã selou o destino da presidência de Jimmy Carter. Ele imediatamente impôs amplas sanções comerciais contra o Irã e, em seguida, ordenou uma operação militar de resgate fracassada. Embora o Xá e os bens iranianos congelados não tenham sido devolvidos, o confronto com os Estados Unidos serviu ao objetivo mais importante de Khomeini: consolidar sua ditadura clerical, marginalizando a esquerda e canalizando a mobilização popular anti-imperialista para o que ele chamou de "Segunda Revolução".
Guerra com o Iraque
A longo prazo, porém, o confronto de Khomeini com os Estados Unidos, descrito como "o anti-imperialismo dos tolos" pelo acadêmico marxista Fred Halliday, teve consequências desastrosas para o Irã. Ganhou-lhe profunda inimizade por parte do governo americano e da opinião pública, ao mesmo tempo que deu ao ditador iraquiano Saddam Hussein a oportunidade de invadir uma República Islâmica isolada internacionalmente.
A Guerra Irã-Iraque durou oito anos, de 1980 a 1988, e resultou em mais de um milhão de mortes e um custo superior a um trilhão de dólares. Quando o Irã recuperou os territórios perdidos e passou à ofensiva em 1982, os Estados Unidos aumentaram seu apoio ao Iraque. Ao mesmo tempo, porém, Washington armou secretamente Teerã (em violação da lei americana) como parte de um projeto clandestino cuja revelação quase derrubou a presidência de Reagan.
Os Estados Unidos seguiram uma política cínica com o objetivo de manter o equilíbrio militar entre os dois adversários, prolongando a guerra para desgastar tanto o Irã quanto o Iraque. Como um oficial da CIA afirmou sem rodeios: "Nós só queríamos que eles se destruíssem mutuamente". Israel também interveio seguindo a mesma estratégia, inicialmente armando o Irã quando o Iraque estava em vantagem e, posteriormente, alinhando-se à política americana de contenção militar das ofensivas iranianas.
Em 1988, o envolvimento dos EUA havia atingido o limiar da intervenção militar direta em favor do Iraque. O Golfo Pérsico foi palco do maior destacamento da frota americana desde a Guerra do Vietnã, e os confrontos crescentes com a marinha iraniana sinalizavam a prontidão de Washington para uma guerra total. Quando Khomeini finalmente concordou com um cessar-fogo em 1988, governava um país devastado e empobrecido, cuja estrutura de poder básica e ideologia oficial permaneceram praticamente intactas até hoje.
A República Islâmica foi moldada por seu confronto existencial com os Estados Unidos, transformando-se em um Estado-fortaleza cujos principais pilares eram suas instituições de inteligência e militares. Atribuía brutalmente toda a oposição interna a conspirações tramadas em Washington e Tel Aviv, enquanto a guerra secreta e aberta travada contra o Irã por ambos os países ajudava a justificar a narrativa paranoica do regime. Equiparar dissidência à traição teve um custo devastador para a sociedade iraniana: milhares foram executados ou mortos em confrontos de rua, e dezenas de milhares sofreram prisão e tortura durante a primeira década da revolução.
Estado de guerra e bem-estar
Contudo, o regime não governou apenas por meio da repressão. Uma década de revolução e guerra durante os anos 1980 exigiu políticas sociais e econômicas que moldaram a República Islâmica em um “Estado de Bem-Estar Social em tempos de guerra”. Houve melhorias tangíveis na saúde, educação, eletrificação e transporte, principalmente em áreas rurais — uma política que mais tarde aprofundaria a estratificação de classes e alimentaria as demandas por inclusão política.
Entretanto, no final da guerra, o repressivo e militarizado "Estado profundo" do regime controlava mais ativos do que os setores público e privado juntos. A economia iraniana passou a ser dominada por conglomerados paraestatais, principalmente a Guarda Revolucionária Islâmica e algumas fundações poderosas que operavam sob a supervisão do Aiatolá Ali Khamenei, que sucedeu Khomeini como líder religioso supremo após sua morte em 1989 e permanece nessa posição até hoje.
Proprietários ou controladores de centenas de empresas, bancos, firmas de investimento e instituições de assistência social, a Guardia e suas fundações adaptaram-se a décadas de severas sanções econômicas dos EUA. Gradualmente, expandiram suas operações, já opacas, para a gestão de uma economia paralela, tornando-se especialistas em transações financeiras clandestinas de bilhões de dólares, criação de empresas de fachada em paraísos fiscais, manipulação de moeda, lavagem de dinheiro e venda secreta de petróleo.
Assim, as sanções americanas, ostensivamente destinadas a enfraquecer a República Islâmica, contribuíram para a criação de um poderoso Estado paralelo iraniano, cujos principais operadores e acionistas, eufemisticamente chamados de "mercadores de sanções", obtêm lucros enormes ao contornar o regime de sanções. Ao mesmo tempo, a oligarquia governante do Irã forjou laços estruturais com o rearme militar em curso no país, em resposta a ameaças e ataques reais dos Estados Unidos e de Israel.
A primeira década após Khomeini foi marcada por uma relativa distensão com os Estados Unidos, com o governo Clinton aliviando as sanções comerciais até certo ponto, embora sem as suspender completamente. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, a República Islâmica aproximou-se discretamente dos Estados Unidos e cooperou com a invasão militar do Afeganistão. Teerã também celebrou a eliminação de Saddam Hussein em 2003 pelo presidente George W. Bush e coordenou ações com a ocupação americana do Iraque, onde ganhou influência significativa como benfeitora da maioria xiita do país.
Esses eventos desencadearam uma resposta coordenada de Israel, que conduziu uma campanha bem-sucedida para colocar o Irã no topo da lista do "Eixo do Mal" dos inimigos dos Estados Unidos, devido à suposta busca da República Islâmica por um arsenal nuclear e seu patrocínio ao terrorismo internacional. Embora Israel e seus aliados no governo americano tenham exagerado consideravelmente a ameaça militar iraniana, a República Islâmica estava de fato impulsionando seu programa de energia nuclear a ponto de poder fabricar uma bomba.
Gradualmente, desenvolveu um programa de mísseis balísticos capaz de atingir não só Israel, mas também a Europa, e forjou alianças militares com o regime de Bashar al-Assad na Síria e com o Hezbollah no Líbano. Embora Teerã tenha justificado essas iniciativas como uma dissuasão necessária contra a ameaça de uma invasão militar dos EUA ou de Israel, essas decisões também reforçaram a imagem promovida por Tel Aviv de uma República Islâmica ostentando sua força militar, e potencialmente nuclear, além de suas fronteiras.
De Obama a Trump
A pressão política e econômica dos EUA sobre o Irã aumentou durante a primeira década do novo século, atingindo um novo pico durante o primeiro mandato presidencial de Barack Obama. Assim que assumiu o cargo em 2009, Obama chegou a um acordo secreto com Khamenei para resolver as preocupações em torno do programa nuclear iraniano por meio de negociações. No entanto, antes que as conversas oficiais pudessem começar, o Irã foi abalado pelos maiores protestos em massa desde os primeiros anos da revolução.
Esse foi o Movimento Verde do verão de 2009, quando milhões foram às ruas para denunciar a fraude nas eleições presidenciais. O regime reprimiu violentamente os protestos, matando dezenas e ferindo centenas, esmagando assim um movimento popular que exigia mudanças democráticas pacíficas dentro dos limites da República Islâmica. Em retrospectiva, a principal lição do Movimento Verde parece ter sido a de que uma reforma significativa dentro da estrutura da República Islâmica era impossível. Daí em diante, os protestos em massa seriam espontâneos e sem liderança, exigindo com veemência a derrubada do regime.
Durante seu segundo mandato, Obama retomou as negociações com Teerã e, em julho de 2015, firmou um acordo histórico conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). Segundo esse "acordo Obama", o Irã manteria seu enriquecimento de combustível nuclear estritamente dentro dos limites para usos pacíficos e permitiria inspeções completas de suas instalações nucleares. Em contrapartida, os Estados Unidos, a China, a Rússia, a França, o Reino Unido e a Alemanha se comprometeram a flexibilizar gradualmente as sanções comerciais, com a opção de restabelecê-las a qualquer momento caso se constatasse que a República Islâmica estava violando suas obrigações.
Em um contexto de aumento significativo nas receitas petrolíferas do Irã, o alívio das sanções teve efeitos imediatos e tangíveis na economia, que cresceu em média 10% em 2016 e 2017. No entanto, esse crescimento econômico temporário não reverteu a tendência de longo prazo de declínio do padrão de vida. Entre 2011 e 2019, quase dez milhões de pessoas, aproximadamente 15% da população, caíram na pobreza.
No final de 2017, a frustração social acumulada explodiu em violentos protestos. Durante dez dias, entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018, manifestações furiosas ocorreram em mais de cem cidades. Os protestos tornaram-se violentos quando as multidões entoaram slogans contra o regime e atacaram bancos, repartições públicas, delegacias de polícia e escolas religiosas.
Foi noticiado que entre 25 e 50 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas antes que os protestos fossem reprimidos. A maioria dos manifestantes era de origem pobre ou da classe média baixa. Ao contrário das reivindicações reformistas do Movimento Verde de 2009, eles exigiam a derrubada da República Islâmica.
Eleito para seu primeiro mandato em meio a esses protestos, Donald Trump, sob forte pressão de Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, retirou os Estados Unidos do acordo nuclear de Obama em maio de 2018. Embora o Irã estivesse cumprindo integralmente as disposições do acordo, Trump insistiu que poderia forçar um "acordo melhor" com Teerã, o que não aconteceu.
Sob as sanções de “pressão máxima” impostas por Trump, a economia iraniana contraiu mais de 10%, enquanto a pobreza aumentou em proporção semelhante. A inflação disparou, com os preços dos alimentos subindo 200% e os custos com saúde aumentando 125%. Todos os dados disponíveis mostram que, durante a década de 2015 a 2025, o padrão de vida das classes média e baixa do Irã declinou significativamente.
Mulher, vida, liberdade
Décadas de sanções dos EUA contribuíram, sem dúvida, para o empobrecimento dos iranianos comuns, embora não tenham sido a única causa. Além disso, longe de melhorar as perspectivas democráticas do Irã, as sanções americanas e internacionais as minam, levando a República Islâmica a reforçar sua mentalidade de Estado sitiado e a se tornar ainda mais repressiva.
Entretanto, o descontentamento popular no Irã se intensificou e tornou-se mais frequente, com protestos significativos ocorrendo a cada dois ou três anos na última década. Em novembro de 2019, cerca de 200 mil manifestantes, em sua maioria de origem operária, mobilizaram-se por todo o país após o aumento dos preços da energia e os cortes nos subsídios para os mais pobres. Eles atacaram e incendiaram prédios do governo e só foram contidos quando as forças de segurança mobilizaram metralhadoras, tanques e helicópteros, resultando em centenas de mortos.
Protestos em massa irromperam novamente em setembro de 2022 e continuaram até o inverno de 2023, deixando mais de 500 mortos e 20.000 detidos. Este foi o levante "Mulheres, Vida, Liberdade", que, além de sua duração e intensidade excepcionais, apresentou novas características, como o papel de liderança das mulheres jovens, a união entre manifestantes das classes média e trabalhadora e a transferência do epicentro radical para as províncias.
Os protestos foram inteiramente seculares e, por vezes, anticlericais. Embora a mobilização fosse abertamente contra o regime, a falta de liderança unificada, organização e reivindicações políticas claras constituiu uma fragilidade central.
Isso nos leva ao contexto imediato dos protestos de janeiro de 2026, ou seja, aos principais eventos dos três anos anteriores. O governo Biden não conseguiu reviver uma versão do acordo de Obama, sem dúvida devido ao seu alinhamento com Israel, cujo genocídio do povo palestino Joe Biden apoiou integralmente, militar, financeira e diplomaticamente.
Após culpar o Irã pelo ataque do Hamas em outubro de 2023, Israel bombardeou a embaixada iraniana em Damasco em abril de 2024. Depois de anos se abstendo de retaliar diretamente os ciberataques israelenses e os assassinatos de cientistas e militares, a República Islâmica finalmente respondeu com ataques de mísseis e drones contra alvos militares em território israelense. Os dois países estavam agora em guerra.
Em julho de 2024, Israel elevou a aposta ao assassinar o líder político do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerã. A República Islâmica respondeu em outubro com uma saraivada de mísseis balísticos lançados contra alvos israelenses, a maioria dos quais foi interceptada pelo sistema Domo de Ferro de Tel Aviv, pela Marinha dos EUA e pelas defesas aéreas jordanianas. Mais tarde naquele mês, Israel retaliou com três ondas de ataques contra vinte alvos no Irã, visando baterias de defesa aérea e locais de produção de mísseis balísticos. O ataque envolveu mais de cem aeronaves israelenses, algumas das quais penetraram o espaço aéreo iraniano, e todas retornaram às suas bases ilesas.
Ao mesmo tempo, em 2024, os golpes letais infligidos por Israel contra o Hezbollah no Líbano e o Hamas, bem como o colapso do regime de Assad na Síria, destruíram o chamado Eixo da Resistência, uma rede de alianças político-militares que o Irã ajudou a construir em torno de Israel a um alto custo. Tendo perdido seus aliados regionais, a República Islâmica tornou-se muito mais vulnerável a ataques militares diretos de Israel e dos Estados Unidos.
A Guerra dos Doze Dias
O equilíbrio de poder se deslocou ainda mais contra o Irã quando Trump foi reeleito e escreveu a Khamenei propondo negociações, oferta que Teerã aceitou. Trump estabeleceu um prazo de 60 dias para se chegar a um novo acordo nuclear. Em 13 de junho de 2025, um dia após o término desse prazo, Israel lançou uma ofensiva massiva de ciberataques e ataques aéreos contra o Irã. O alvo foram instalações militares sensíveis e infraestrutura nuclear, além do assassinato de dezenas de altos funcionários militares e de inteligência, bem como cientistas que trabalhavam no programa nuclear.
Israel também bombardeou alvos civis, incluindo a infraestrutura energética do Irã, hospitais, bairros residenciais e o prédio da emissora estatal. Quase 5.000 baixas foram relatadas do lado iraniano, com mais de 1.000 mortos, incluindo centenas de civis. A República Islâmica respondeu lançando centenas de mísseis balísticos e drones contra Israel, a maioria dos quais foi interceptada, embora alguns tenham conseguido penetrar as defesas israelenses e americanas, atingindo alvos militares e causando centenas de baixas e dezenas de mortes, principalmente civis.
Em 22 de junho, os Estados Unidos entraram diretamente na guerra, realizando um ataque aéreo de longo alcance altamente complexo, lançando doze bombas antibunker de 13.600 kg (30.000 libras) em três instalações nucleares iranianas. Quando a guerra entre EUA e Israel contra o Irã terminou com um cessar-fogo após doze dias, a República Islâmica declarou vitória, embora na realidade o regime tivesse sofrido graves danos e perdido rapidamente qualquer simpatia que pudesse ter conquistado entre a população iraniana submetida a bombardeios inimigos.
Imediatamente após a guerra, proliferaram declarações públicas e cartas abertas, clamando por uma “mudança de paradigma no sistema de governo”. Essas declarações partiram de acadêmicos, ativistas de direitos humanos e da sociedade civil, advogados, ex-presos e presos políticos, sindicalistas, organizações de mulheres, grupos étnicos e nacionais reprimidos e dissidentes expurgados do próprio regime.
Todos concordaram em vários pontos-chave: a libertação dos presos políticos; a liberdade de formar partidos e associações; o fim do controle estatal da mídia; a transferência para o governo dos vastos ativos econômicos controlados pelo Líder Supremo e por instituições não eleitas; e a cessação do envolvimento das instituições militares, principalmente a Guarda Revolucionária, em assuntos econômicos. Todos os documentos também condenaram o ataque EUA-Israel ao Irã e rejeitaram a possibilidade de “mudança de regime” por meio de intervenção estrangeira ou insurreição violenta.
Esta poderia ter sido a oportunidade perfeita para um regime assolado por crescente descontentamento social, uma economia em colapso e inimigos poderosos à sua porta, ao menos insinuar algum tipo de mudança estrutural pacífica. Mas nada disso aconteceu. Recusando-se a assumir a responsabilidade pelos graves dilemas do país, Khamenei redobrou a aposta e simplesmente reiterou sua desgastada retórica de desafio.
Em 28 de dezembro, protestos e greves irromperam no bazar de Teerã após uma queda acentuada na taxa de câmbio da moeda iraniana, que vem se desvalorizando constantemente há anos. Isso ocorreu em um contexto de inflação galopante de pelo menos 40%, escassez de eletricidade, água e gás, poluição atmosférica tóxica, deterioração das condições de vida das classes média e trabalhadora e greves rotativas contínuas de trabalhadores, professores e aposentados.
Repressão sem precedentes
Tal como em ciclos anteriores, os protestos espalharam-se e intensificaram-se rapidamente, envolvendo em pouco tempo centenas de milhares de pessoas em todo o país. Imagens digitais de multidões enfurecidas circularam globalmente, levando o governo a desligar a internet e isolar o país do resto do mundo, tal como já tinha feito em protestos anteriores.
Inicialmente, Khamenei respondeu com uma combinação de conciliação e ameaças, declarando que o regime ouviria as "queixas" da população, mas não toleraria "distúrbios". Ele também alegou que agentes americanos e israelenses estavam entre os manifestantes, tentando incitar confrontos violentos. A questão da violência tornou-se então central, já que a maioria dos slogans era inequivocamente anti-regime, com muitos pedindo sua derrubada. Também houve relatos de ataques violentos a prédios do governo, mesquitas e agentes de segurança, embora não estivesse claro quem era o responsável.
Entretanto, as forças governamentais abriram fogo contra a multidão, causando primeiro dezenas de feridos, depois centenas e, por fim, milhares de mortes. Este último número foi confirmado pelo próprio Khamenei, que afirmou que um número não especificado das vítimas eram membros das forças governamentais. O número assustador de milhares de mortos entre os manifestantes é sem precedentes, mesmo para os padrões brutais da República Islâmica.
Outra característica sem precedentes dos protestos recentes foi o surgimento de slogans que defendem a monarquia como alternativa à República Islâmica. Durante décadas, o monarquismo, personificado por Reza Pahlavi, filho do rei deposto do Irã, foi um fenômeno amplamente restrito à diáspora iraniana, especialmente nos Estados Unidos, onde constitui um movimento marginal em vez de um movimento popular. Além disso, Reza Pahlavi alinha-se abertamente com os setores de extrema-direita dos Estados Unidos e de Israel, representados por Trump e Benjamin Netanyahu.
Nos últimos anos, sua mensagem ganhou força no Irã graças a canais de televisão via satélite em língua persa, amplamente considerados financiados pelos governos da Arábia Saudita, Israel e Estados Unidos, ou por doadores individuais desses países. Longe de haver unanimidade nos protestos recentes, os slogans monarquistas são associados à influência estrangeira, especialmente porque Reza Pahlavi apoia abertamente a intervenção dos EUA e de Israel no Irã. Ele saudou o ataque sofrido por seu país no verão passado e demonstra clara simpatia pelo apoio militar estrangeiro para derrubar a República Islâmica.
Slogans como “Viva o Xá” parecem funcionar mais como afrontas retóricas ao regime atual do que como endossos programáticos à monarquia. No entanto, a recente ascensão do monarquismo, mesmo que (e principalmente porque) conte com o apoio dos governos dos EUA e de Israel, deve ser levada a sério e não descartada como mera ilusão reacionária. Não existe alternativa política comparável fora do Irã, enquanto a República Islâmica, por décadas, impediu sistematicamente e violentamente o surgimento de qualquer alternativa dentro do país, inclusive entre suas próprias facções reformistas.
Uma tarefa assustadora
Embora os protestos tenham sido reprimidos pela força, o impasse político imposto pela República Islâmica a uma sociedade já inquieta e desesperada persiste. Superar esse impasse exige mudanças políticas significativas, algo que o regime se recusa categoricamente a sequer considerar. As declarações de apoio de Trump aos manifestantes também não tiveram impacto perceptível no Irã, servindo apenas para reforçar a mão repressiva de um regime que culpa os protestos pela intervenção dos EUA e de Israel.
Entretanto, Trump intensifica sua retórica contraditória, insinuando ocasionalmente uma mudança de regime por meio de intervenção militar direta dos EUA. Essa seria uma perspectiva extremamente perigosa, à qual a República Islâmica poderia responder atacando bases e aliados dos EUA no Golfo Pérsico, interrompendo o fluxo global de petróleo e desencadeando o caos regional.
Há indícios de que até mesmo Trump compreende as implicações imprevisíveis de uma guerra em grande escala contra o Irã, visto que admitiu que qualquer alternativa viável à República Islâmica deve vir de dentro do país. Ao mesmo tempo, delinear os contornos básicos de um roteiro viável para sair do atual impasse terrível continua sendo a tarefa árdua para o povo iraniano e seus aliados internacionais progressistas.
AFSHIN MATIN-ASGARIProfessor de história na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles, e autor de "Tanto Oriental quanto Ocidental: Uma História Intelectual da Modernidade Iraniana".
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