QUANDO O GELO SE QUEBRA - Soberania inuit, terras raras e o “Domo de Ouro” na fratura entre EUA e União Europeia

Crédito: Johannes Becker/Visit Greenland
Os inuit sabem que a briga não é por um “pedaço de gelo”, como alega Trump. O que está em disputa não é a paisagem branca, mas o que ela esconde. A Groenlândia abriga vastas reservas de terras raras, metais críticos indispensáveis para a transição energética, a indústria digital e a economia de baixo carbono
Um provérbio popular dos inuit, povo originário da Groenlândia, diz que “nunca se sabe realmente quem são os amigos e quem são os inimigos até que o gelo se quebre”. Enquanto tudo permanece congelado, alianças parecem estáveis, interesses se disfarçam de cooperação e discursos de segurança soam abstratos. Mas, quando o gelo racha, literal e metaforicamente, as verdadeiras intenções emergem.
“O que estou pedindo é um pedaço de gelo, frio e mal localizado, que possa desempenhar um papel vital na paz e na proteção mundial”, disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso realizado em janeiro deste ano durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. “E eles (os europeus) não vão nos dar”, completou. Segundo o presidente, eles “podem dizer sim e nós ficaremos muito agradecidos ou podem dizer não e nós nos lembraremos”, insinuou. Naquele mesmo 22 de janeiro, enquanto Trump discursava em Davos, o Conselho Europeu organizava uma cúpula de emergência em Bruxelas, na Bélgica.
Dias antes, Trump havia ameaçado impor tarifas a países europeus que defendessem a Groenlândia. A ilha dos inuit é um território autônomo associado à União Europeia, após ter deixado a Comunidade Europeia em 1985, e faz parte do Reino da Dinamarca. No início do ano, países europeus (França, Alemanha, Suécia, Noruega, Finlândia, Países Baixos, Reino Unido, Bélgica e Eslovênia) enviaram contingentes militares adicionais à Groenlândia, a pedido da Dinamarca, no contexto (ou pretexto) de exercícios de segurança e do reforço da presença no Ártico no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Após a resposta europeia de acionar instrumentos de defesa comercial, o que tornaria um conflito tarifário muito mais caro e complexo para os EUA, Trump recuava nas ameaças. Mesmo assim, diplomatas europeus reconheceram que a crise expôs “movimentos tectônicos” na ordem geopolítica.
“A União Europeia continuará a defender os seus interesses e a proteger os seus Estados-membros, cidadãos e empresas contra qualquer forma de coação. Dispomos dos instrumentos para fazê-lo e os utilizaremos se necessário”, afirmou António Costa, presidente do Conselho Europeu, ao final da cúpula. Já a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, defendeu uma presença permanente da Otan no Ártico, inclusive na Groenlândia.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu que a Europa investiu “muito pouco no Ártico e na segurança do Ártico” e garantiu que a Comissão pretende dobrar o apoio financeiro à Groenlândia a partir do próximo orçamento plurianual da União Europeia, que entra em vigor de 2028 a 2034. Von der Leyen afirmou ainda que sua equipe “em breve apresentará um pacote abrangente de investimentos” voltado ao território, sem detalhar a natureza dessas iniciativas.
Fratura Transatlântica
A Groenlândia tornou-se, nos últimos anos, um dos pontos de fratura do sistema internacional pela combinação entre mudanças climáticas, minerais estratégicos e a erosão da ordem multilateral construída após 1945. O degelo do Ártico não apenas reconfigura rotas marítimas e ecossistemas: ele expõe disputas de poder que estavam latentes sob a superfície.
Para a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, as relações transatlânticas entre a Europa e os EUA “definitivamente sofreram um grande revés na última semana”, mas os europeus “não estão dispostos a jogar fora 80 anos de boas relações”, disse ela a jornalistas na reunião extraordinária em Bruxelas.
Na Suíça, Trump ignorou que os EUA atuaram apenas como protetores e não como proprietários, ao afirmar que intervieram durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca caiu diante da Alemanha nazista, e que “lhe devolveram” a Groenlândia após o conflito. “Quão estúpidos fomos nós em fazer isso? Quão ingratos eles são agora?” disparou. E insistiu na necessidade de “conversas imediatas” sobre a aquisição do território dinamarquês, embora tenha prometido que “não usaria a força” para tomá-lo.
O que pensam os groenlandeses?

Infografia: Viviane Vaz
Pesquisas recentes mostram que a população da Groenlândia está longe de ser uma massa passiva pronta para ser absorvida por grandes potências. Um levantamento realizado em janeiro de 2025, a pedido do jornal dinamarquês Berlingske e do jornal Sermitsiaq da Groenlândia, indicou que 85% dos groenlandeses se opõem à ideia de se tornarem parte dos Estados Unidos. A pergunta era: “Você quer que a Groenlândia deixe o Reino da Dinamarca e passe a fazer parte dos EUA?” Apenas 6% disseram que sim e 9% responderam não saber.
Por enquanto, prevalece a posição pragmática de manter o apoio da Dinamarca e da União Europeia, que sustentam o atual modelo de bem-estar e a proteção em matéria de defesa. Politicamente fora da UE, a ilha mantém uma relação econômica significativa com o bloco, através de acordos de parceria e de pesca que lhe garantem apoio financeiro. A Dinamarca provê um subsídio anual de cerca de 600 milhões de euros, enquanto outros €18 milhões anuais provêm da UE.
A enquete demonstrou que a tentativa de Trump de tratar a Groenlândia como um ativo imobiliário que poderia ser comprado e vendido choca-se com a concepção de soberania tanto na ilha quanto na Dinamarca. Não se trata apenas de soberania territorial, mas do reconhecimento de uma história, de uma cultura inuit distinta e de instituições democráticas.
No dia 17 de janeiro, milhares de dinamarqueses e groenlandeses protestaram em Copenhague e em Nuuk, capital da Groenlândia. “Exigimos respeito pelo direito do nosso país à autodeterminação e por nós como povo”, declarou uma das organizadoras do protesto, Avijaja Rosing-Olsen. “Exigimos respeito pelo direito internacional e pelos princípios jurídicos internacionais. Esta não é apenas a nossa luta, é uma luta que diz respeito ao mundo inteiro”, afirmou em um comunicado do movimento “Hands Off Greenland” (“Hands Off Kalaallit Nunaat”, em groenlandês).

Crédito: Mads Pihl/Visit Greenland
Riqueza congelada
Os inuit sabem que a briga não é por um “pedaço de gelo”, como alega Trump. O que está em disputa não é a paisagem branca, mas o que ela esconde. A Groenlândia abriga vastas reservas de terras raras, metais críticos indispensáveis para a transição energética, a indústria digital e a economia de baixo carbono. O território possui a oitava maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 1,5 milhão de toneladas métricas comprovadas. Embora países como o Brasil também detenham grandes reservas desses minerais, a cadeia global de suprimentos permanece fortemente concentrada na China.
Para a UE, a Groenlândia representa uma oportunidade estratégica de diversificação, com potencial para reduzir dependências externas e vulnerabilidades geopolíticas. A ilha ártica concentra 25 matérias-primas incluídas em uma lista de pouco mais de 30 consideradas “críticas” pelo bloco europeu. Seus depósitos são relevantes por conterem tanto elementos de terras raras leves quanto pesadas (mais escassas). Entre elas estão o térbio (Tb) e o disprósio (Dy), essenciais para sistemas militares, incluindo mísseis e radares. Também estão presentes neodímio (Nd) e praseodímio (Pr), fundamentais para ímãs de alta potência usados em veículos elétricos e turbinas eólicas, além de gadolínio (Gd), empregado em diagnósticos médicos, ítrio (Y), utilizado em tratamentos contra o câncer, e lantânio (La) e cério (Ce), cruciais para o refino de petróleo e a catálise automotiva.
Em Davos, Trump minimizou a importância desses minerais críticos, afirmando que o interesse norte-americano não estaria ligado à exploração de recursos, mas ao posicionamento estratégico de mísseis e à segurança nacional. “Todo mundo fala sobre os minerais. Há tantos”, disse. “Para chegar a essa terra rara, é preciso atravessar centenas de metros de gelo. Não é por isso que precisamos da Groenlândia. Precisamos dela para a segurança nacional estratégica e para a segurança internacional”, destacando a sua posição-chave do território entre Estados Unidos, Rússia e China.
Inspirado no “Domo de Ferro” de Israel, o presidente norte-americano manifestou outra vez durante o fórum que precisa da ilha no Ártico para construir seu “Domo de Ouro”, um sistema de defesa antimísseis destinado a interceptar mísseis balísticos e hipersônicos. Trump parece (ou pretende) ignorar que, para isso, não precisa “possuir” a ilha. Os EUA mantêm presença militar na Groenlândia desde 1951 (com a base de Thule renomeada “Base Espacial de Pituffik” em 2023) voltada para alerta de mísseis, vigilância espacial e controle de satélites.
O gelo partiu e expôs mais do que minerais. Mostrou quem está disposto a negociar, quem prefere impor e quem ainda acredita que a cooperação internacional tem lugar. Como dizem os inuit: quando o gelo parte, a verdadeira natureza das pessoas vem à tona, distinguindo amigos de inimigos.
Viviane Vaz é jornalista em Bruxelas e Mestre em Relações Internacionais pela Escola Diplomática da Espanha.
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