A luta contra a doutrina Monroe

Imagem: Steve Long

Por FRANCISCO DOMINGUEZ*

A invasão dos EUA à Venezuela revela que o petróleo ainda é o verdadeiro motor da Doutrina Monroe no século XXI

1.

A ordem de Donald Trump para que as forças armadas dos EUA atacassem a Venezuela em 3 de janeiro de 2026 levou a um bombardeio pesado de quatro cidades (Caracas, Miranda, La Guaira e Maracay), com foco em alvos militares e civis, resultando no sequestro violento do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, ambos feitos prisioneiros e transportados para Nova Iorque.

A narrativa do governo dos EUA para justificar esta violação flagrante do direito internacional evoluiu depois de acusações falsas de que o governo venezuelano seria responsável pelo “tráfico de drogas” e pelo “narcoterrorismo”, tentando ocultar o verdadeiro objetivo: apoderar-se do petróleo da Venezuela – as maiores reservas do mundo – pela força militar.

Após o ataque militar dos EUA à Venezuela, Donald Trump afirmou que a Venezuela tinha “tomado de nós o nosso petróleo” e roubado “nossos ativos”. Na mesma linha, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, principal ideólogo da direita na administração dos EUA, disse que, uma vez que os EUA “criaram a indústria petrolífera na Venezuela”, sua nacionalização em 1976 “foi o maior roubo de riqueza e propriedade americana já registrado”.

A frota de guerra dos EUA enviada para o Caribe (Operação Southern Spear) não tinha nada a ver com o combate ao “tráfico de drogas” ou ao “narcoterrorismo”, mas com uma violenta “mudança de regime” para controlar o petróleo da Venezuela.

Na verdade, Donald Trump anunciou que estava colocando a Venezuela sob o controle temporário dos EUA: “Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa” e que grandes empresas americanas se instalariam na Venezuela.

A frota de guerra dos EUA – a maior em 30 anos – ainda está posicionada na costa da Venezuela e, numa audiência no Senado dos EUA, Marco Rubio repetiu a ameaça de Donald Trump: até mesmo a força poderia ser usada para garantir “a máxima cooperação – da presidente interina – se outros métodos falharem”.

Em suma, o governo interino venezuelano tem uma arma dos EUA apontada para sua cabeça.

Em seguida, a falsa alegação do Departamento de Justiça de que a Venezuela era governada pelo inexistente Cartel de los Soles, supostamente liderado pelo presidente Nicolás Maduro e pelo governo bolivariano, foi abandonada.

A designação do Cartel de los Soles como organização terrorista estrangeira ocorreu em novembro de 2025. Em 6 de janeiro de 2026 (três dias após o sequestro do chefe de Estado da Venezuela), o Departamento de Justiça dos EUA referiu-se a ela como “sistema clientelista”, admitindo, assim, que não é real.

Entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, a Operação Southern Spear envolveu a destruição de 29 pequenas embarcações e a execução extrajudicial de mais de 100 supostos traficantes de drogas e narcoterroristas.

No entanto, as autoridades dos EUA recusam-se categoricamente a fornecer qualquer informação sobre os indivíduos executados ou a apresentar quaisquer provas. Após o sequestro do presidente Maduro, os ataques dos EUA contra pequenas embarcações cessaram completamente.

2.

Paradoxalmente, especialistas, políticos e generais reformados dos EUA têm apontado para os repetidos relatórios da DEA (Agência Antidrogas dos Estados Unidos) e do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) de que mais de 85% da cocaína produzida na Colômbia chega aos EUA através do Pacífico, que uma pequena proporção (5-7%) tenta – nem sempre com sucesso – usar a Venezuela como rota de transporte e que a contribuição da Venezuela para o tráfico de fentanil é zero.

O perdão concedido por Donald Trump ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, que cumpria uma pena de 45 anos de prisão por ter enviado 400 toneladas de cocaína para os EUA, confirmou que o ataque militar dos EUA à Venezuela definitivamente não tinha nada a ver com o tráfico de drogas.

Curiosamente, Donald Trump descartou a política de extrema direita María Corina Machado como substituta do presidente Nicolás Maduro porque ela “não é respeitada”, ou seja, não goza de apoio na Venezuela (ainda menos depois que sua abjeta atitude servil a Donald Trump a levou a dar ao presidente dos EUA sua medalha do Prêmio Nobel da Paz).

Isto significa que o Estado bolivariano está abalado, mas intacto.

Assim que Donald Trump e Marco Rubio aceitaram as limitações do que podiam impor à Venezuela e, com relutância, reconheceram a autoridade da presidente interina, Washington lançou uma campanha difamatória contra Delcy Rodríguez, dizendo que ela estava “comprometida com a herança do presidente Nicolás Maduro e Hugo Chávez”.

Um jornal britânico chegou ao ponto de noticiar reuniões secretas realizadas por Delcy Rodríguez para entregar o presidente Nicolás Maduro. A mídia corporativa procura retratá-la como um “ativo de Donald Trump”, alegando falsamente que sua nomeação como presidente interina foi o “resultado de negociações prolongadas”. O objetivo óbvio é semear divisões no movimento chavista.

A nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina pela Suprema Corte tem o apoio total da Assembleia Nacional, do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e das forças armadas. Isso garantiu a continuidade constitucional e assegurou a normalidade política.

Sua primeira declaração (4 de janeiro de 2026) como presidente interina foi exigir a libertação imediata do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, declarando com firmeza: “O único presidente da Venezuela é o presidente Nicolás Maduro”.

Ela também implementou um decreto executivo de Nicolás Maduro que colocou o país em estado de emergência e ativou o Conselho de Defesa Nacional.

3.

No mesmo dia, realizou-se uma cúpula extraordinária especial da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), provocada pelo ataque dos EUA à Venezuela, na qual o ministro das relações exteriores da Venezuela, Yvan Gil Pinto, exigiu que a Celac solicitasse a retirada imediata de todas as forças militares dos EUA do Caribe, com Cuba exigindo “o devido respeito pela integridade territorial e independência da Venezuela e a libertação imediata do líder venezuelano e de sua esposa”.

No dia seguinte, a Venezuela exigiu uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, na qual o ataque dos EUA à Venezuela e o sequestro de seu presidente foram considerados crimes injustificáveis, e foi exigida a libertação imediata de Nicolás Maduro e de sua esposa.

Em resposta à afirmação de Donald Trump de que os EUA estavam governando a Venezuela, a interina Delcy Rodríguez retrucou: “O governo da Venezuela controla nosso país e mais ninguém; não há nenhum agente externo que governa a Venezuela”. Em 7 de janeiro de 2026, numa marcha massiva de mulheres para exigir o retorno seguro do presidente, o ministro do interior e secretário-geral do PSUV, Diosdado Cabello, destacou que as ações militares dos EUA geraram um profundo sentimento anti-imperialista no país.

Os principais meios de comunicação também se concentraram na atualização da lei da indústria petrolífera nacional vigente na Venezuela – a Lei dos Hidrocarbonetos – que é deliberadamente mal interpretada como privatização imposta pelos EUA.

A lei foi aprovada unanimemente pela Assembleia Nacional e fortemente apoiada pelo movimento sindical e é, na verdade, uma reforma da Lei Anti-Bloqueio existente e muito semelhante à Lei de Investimentos de Cuba – ambas com o mesmo objetivo: atrair investimento estrangeiro direto para suas economias bloqueadas e sancionadas, dada sua incapacidade de gerar recursos suficientes internamente.

Em linha com a política de Delcy Rodríguez, o ministro das relações exteriores Gil Pinto condenou a venda forçada da empresa petrolífera Citgo, propriedade da Venezuela, que opera nos EUA, como um dos atos mais ultrajantes de “roubo, criminalidade e pirataria judicial da história moderna”.

Encorajado pelo ataque à Venezuela, Donald Trump imporá tarifas sobre as importações de países que vendem ou fornecem petróleo a Cuba e enviou dois navios de guerra para o norte de Cuba. Isto é diplomacia das canhoneiras com esteróides.

Naturalmente, o presidente cubano Miguel Diaz-Canel condenou a agressão: “Enfrentaremos este novo ataque com firmeza, serenidade e a certeza de que a razão está absolutamente do nosso lado”.

Gil Pinto também condenou a medida como uma violação flagrante do direito internacional, um ataque à soberania nacional, e afirmou que o livre-comércio não deve estar sujeito a coerção. Ele acrescentou: “Considerar Cuba uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos da América é absurdo e representa uma séria ameaça à sua própria existência como nação”.

Ambas as declarações caracterizam os governos independentes que lideram nações soberanas.

A diplomacia das canhoneiras dos EUA está comprometendo seriamente a soberania da Venezuela, de Cuba e da América Latina. A luta contra a Doutrina Monroe continua.

Pela retirada imediata e incondicional da frota de guerra dos EUA ilegalmente empregada no Caribe! Não à guerra contra a Venezuela! Não à guerra contra Cuba! Não à guerra contra a América Latina! Pela libertação imediata e incondicional do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores!

*Francisco Dominguez é professor de ciência política na University of Middlesex (Inglaterra).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

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