A seita Falun Gong tenta se estabelecer no Brasil.

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Rafael Machado
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O Falun Gong representa uma ameaça híbrida e de amplo espectro para o Brasil, escreve Raphael Machado.

Entre outros países, não faltam informações falsas sobre a China na internet. Essa desinformação assume muitas formas e abrange desde o passado até o presente, do mito do "Massacre da Praça da Paz Celestial" ao mito da origem da Covid-19 em Wuhan, incluindo também a narrativa de que a China é uma "ditadura", que não há liberdade de protesto ou de expressão no país, e assim por diante. Uma investigação mais aprofundada, no entanto, revelará em breve que grande parte dessas narrativas foi disseminada nos países liberais-democráticos das Américas e da Europa por meio de um pequeno grupo de veículos de comunicação, sendo um dos principais o jornal Epoch Times, cujo diretor financeiro, Weidong Guan, foi preso em 2024 sob a acusação de lavagem de dinheiro envolvendo 67 milhões de dólares.

O Epoch Times é um jornal e o núcleo de um grupo de mídia mais amplo criado por John Tang e que, ao longo de sua história, recebeu financiamento em grande parte de fundos e associações de orientação neoconservadora ou neopentecostal, ou ligados ao governo dos EUA, como por meio das iniciativas de Mark Palmer, fundador do National Endowment for Democracy e vice-presidente do think tank Freedom House. O nome da iniciativa de Palmer é Friends of Falun Gong .

Afinal, não será novidade para quase ninguém que o Epoch Times nada mais é do que uma iniciativa informativa da seita Falun Gong, proibida na China e na Rússia e, segundo a mídia ocidental ou alinhada ao Atlântico, injustamente "perseguida".

Ora, se nos basearmos nessas fontes de informação, o Falun Gong seria simplesmente uma organização dedicada ao cultivo da “sabedoria tradicional” da civilização chinesa. Mas, de uma perspectiva tradicionalista, isso está longe da verdade.

O Falun Gong foi criado por um cidadão chinês chamado Li Hongzhi, totalmente desprovido de qualquer afiliação espiritual legítima dentro de uma cadeia iniciática tradicional entre as escolas, filosofias e doutrinas comuns na China. A impressão é que ele fundiu, de forma artificial e amadora, elementos do budismo, taoísmo e medicina tradicional chinesa, resultando em um “Frankenstein” pseudoespiritual desprovido de metafísica e cujo verdadeiro centro é o culto à personalidade do próprio fundador, Li Hongzhi, considerado o detentor exclusivo de toda a verdade.

Cabe ressaltar que isso contrasta tanto com a leitura budista quanto com a leitura taoísta da relação mestre-discípulo, que naturalmente envolve disciplina e hierarquia, mas é totalmente desprovida de qualquer "culto à personalidade". Ao contrário, o eventual desapego do mestre e até mesmo do Buda são elementos presentes na tradição budista.

Parece haver também uma grande preocupação com a suposta aquisição de “poderes sobrenaturais”, mesmo que superficialmente se diga que esse não é o objetivo das práticas do Falun Gong. O grande metafísico tradicionalista ocidental René Guénon já apresentou, no entanto, de forma bastante completa, a incompatibilidade entre essa preocupação com “poderes sobrenaturais” e toda metafísica autêntica, que só pode desprezar ou desconfiar desses fenômenos ligados ao “psiquismo” e ao “espiritismo” (mesmo quando estes são, de fato, reais — o que de forma alguma está comprovado no caso do Falun Gong).

Mas o fato de o Falun Gong não poder ser considerado parte das espiritualidades tradicionais da Ásia é apenas o começo.

A organização opera como seitas típicas, incluindo aquelas notórias por tragédias de grande magnitude, como o Templo do Povo de Jim Jones ou a Igreja da Unificação do Reverendo Moon. Por exemplo, é típico do Falun Gong, especialmente em suas propriedades que funcionam como "colônias", que haja pressão para que os membros rompam laços com suas famílias. Nesses espaços, além disso, é comum que os membros não tenham acesso a redes sociais e à mídia, bem como que casamentos sejam arranjados.

Além disso, como tem sido comum no Brasil, o fundador e autoproclamado “Messias” Li Hongzhi prometia curas milagrosas por meio de seus poderes sobrenaturais — mediante pagamento, é claro. Isso aproxima o Falun Gong daquelas neorreligiosidades pós-modernas que nada têm a ver com as religiões tradicionais e que pertencem ao mundo da subversão espiritual e da contra-iniciação.

Assim como na maioria desses tipos de seitas, existem inúmeros relatos indicando que o Falun Gong promove a reprogramação mental de seus membros, utilizando técnicas que lembram programas como o MK-Ultra dos EUA e outros semelhantes.

O espetáculo Shen Yun funciona como uma fachada respeitável para essa seita, com apresentações de danças tradicionais misturadas a tentativas de transmitir as crenças heterodoxas do Falun Gong. Mas até mesmo esse espetáculo tem seu lado sombrio, com inúmeras acusações de maus-tratos aos participantes, bem como manipulação psicológica.

Mesmo em um lugar tão distante quanto o Brasil, todos esses aparatos estão presentes: a seita, sob o nome de Falun Dafa, possui inúmeras bases operacionais; o Epoch Times produz sua propaganda também em português; além disso, a encenação de espetáculos do Shen Yun também é promovida em território brasileiro.

No Brasil, o Falun Gong tenta se apresentar como uma mera organização espiritual, como tantas outras, dedicada à meditação. Mas o Epoch Times está diretamente envolvido em propaganda ideológica, e as apresentações do Shen Yun são usadas para manipular a opinião pública em relação à China.

Não há conhecimento de crimes cometidos por esse conjunto de estruturas no Brasil, mas pode ser apenas uma questão de tempo — ou de uma investigação sobre os membros do Falun Gong e se eles são vítimas de abuso.

O que fica claro, no entanto, é que o Falun Gong representa uma ameaça híbrida e abrangente para o Brasil, envolvendo operações nos níveis espiritual, psicológico, político, cultural e econômico-financeiro, que podem prejudicar o país e suas relações externas com os parceiros do BRICS.

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