Brasil-Índia: adaptando-se à turbulência

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi em Nova Déli, em 21 de fevereiro de 2026. Foto AFP.

Editorial

Os líderes do Brasil e da Índia, Luiz Inácio Lula da Silva e Narendra Modi, anunciaram ontem a assinatura de um acordo “pioneiro” sobre minerais críticos e elementos de terras raras, descrito pelo primeiro-ministro asiático como “um passo importante para a construção de cadeias de suprimentos resilientes” e um símbolo de confiança mútua. O presidente sul-americano enfatizou que “a expansão dos investimentos e da cooperação em energias renováveis ​​e minerais críticos está no cerne dessa abordagem, que visa aumentar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões nos próximos cinco anos”.

Minerais críticos são quaisquer substâncias cuja escassez ou concentração geográfica represente um risco para os setores industriais ou para a defesa nacional de países que não as possuem em seus territórios. Os elementos de terras raras, incluídos entre eles, são 17 elementos químicos abundantes, porém dispersos na crosta terrestre, e sua extração depende de processos de refino altamente especializados. Atualmente, a China controla aproximadamente 70% da produção global e 90% do refino; ou seja, mesmo que uma região possua um ou mais desses elementos, ela precisa de Pequim para processá-los e transformá-los em insumos para a indústria.

Sem elementos de terras raras, é impossível fabricar veículos elétricos, computadores, smartphones, discos rígidos, caças, satélites ou equipamentos médicos como máquinas de ressonância magnética. Portanto, o acordo indo-brasileiro não é simplesmente uma parceria comercial, mas um entendimento estratégico. Lula enfatizou a importância de fortalecer a cooperação com seu parceiro e cofundador no bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, agora expandido para incluir outros membros) em um “cenário global turbulento” e aludiu às políticas tarifárias do presidente dos EUA, Donald Trump, que afetam ambos os países, bem como o resto do mundo.

A referência ao uso errático de tarifas pelo magnata destaca um fenômeno que transcende o acordo Brasil-Índia: as ações de líderes políticos e econômicos em resposta ao desmantelamento da ordem global que os Estados Unidos construíram (muitas vezes pela força) desde o fim da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, com o eufemisticamente chamado Consenso de Washington de 1989, por meio do qual o neoliberalismo se tornou o dogma dominante na administração pública, na gestão empresarial, na mídia e na academia. A assinatura dos acordos de livre comércio da União Europeia com o Mercado Comum do Sul e a Índia em janeiro passado; a decisão da China de isentar de tarifas todos os países africanos com os quais mantém relações diplomáticas (todo o continente, com exceção da pequena Eswatini); a reaproximação instável entre México e Canadá; a desdolarização das reservas internacionais ou os esforços ainda cautelosos da União Europeia para desenvolver alternativas às grandes corporações de tecnologia americanas são outros exemplos de adaptação à desordem gerada pelo trumpismo.

Para além dos resultados específicos das iniciativas já mencionadas e de outras de âmbito variável, estas sugerem que a falta de jeito e a agressividade de Trump na imposição da sua agenda estão a gerar o efeito oposto: uma resistência transversal e pragmática ao unilateralismo radical que conduz ao isolamento dos Estados Unidos, não por ideologia, mas por necessidade.

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