CANADÁ - A alternativa canadense à doutrina de Trump para as Américas

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, discursa em Vaughan, Ontário, Canadá, em 5 de fevereiro.Mert Alper Dervis/Anadolu via Getty Images

Uma visão de potência média exige um diálogo interamericano mais amplo. Será que essa visão encontrará eco nos países latino-americanos?


Mais uma vez, a América Latina parece confrontada com duas visões para o seu futuro — desta vez com dois pontos de vista concorrentes da América do Norte. O presidente Donald Trump e o primeiro-ministro canadense Mark Carney apresentam cenários diferentes para o hemisfério: um moldado pela esfera de influência dos EUA e o outro por coalizões de potências médias que trabalham juntas regionalmente, ao mesmo tempo que se envolvem globalmente.

No ano passado, na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, o governo Trump reafirmou a Doutrina Monroe, acrescentando um "Corolário Trump", que o presidente Trump denominou "Doutrina Donroe". Formulada pela primeira vez em 1823, a Doutrina Monroe alertava as potências europeias contra a interferência nas Américas, ao mesmo tempo que prometia a não interferência dos EUA na Europa. Ela surgiu em meio aos movimentos de independência da América Latina e ao temor de que a Espanha pudesse tentar recuperar suas antigas colônias.

A versão de Trump, no entanto, visa menos a Europa do que as grandes potências rivais da atualidade — especialmente a China e, em menor grau, a Rússia e o Irã. Nessa versão atualizada, a doutrina afirma as Américas como uma esfera de influência dos EUA que Washington está preparado para defender, potencialmente pela força.

Em Davos, o primeiro-ministro Carney resgatou a linguagem das potências médias para o Canadá. Ele fez um apelo para que as potências médias trabalhassem juntas a fim de sustentar o que resta da ordem internacional baseada em regras, num momento em que tanto os EUA quanto a China desafiam suas instituições. O discurso teve um tom global, e não explicitamente hemisférico. Mas suas implicações para as Américas são claras: se Washington reduzir a região a um círculo estratégico isolado, o Canadá sinaliza que outros Estados devem ter opções além do alinhamento ou do isolamento.

Para que essa alternativa seja mais do que mera retórica, o Canadá precisará demonstrar, na prática, o que um engajamento hemisférico mais profundo implica. Isso poderia incluir a expansão dos laços comerciais e de investimento para além da América do Norte, o fortalecimento dos instrumentos de financiamento para o desenvolvimento e a colaboração com parceiros como Brasil, Chile e Colômbia na transição energética e nas cadeias de suprimento de minerais críticos. Ottawa também poderia aproveitar sua participação no G7 e seus relacionamentos em instituições multilaterais para amplificar as prioridades da América Latina, em vez de tratar a região como periférica.

O papel de agência da América Latina é fundamental. A cooperação entre as potências médias não pode ser simplesmente anunciada no Fórum Econômico Mundial; ela precisa ser construída por meio de iniciativas concretas. Um próximo passo lógico seria um fórum ou cúpula de líderes das potências médias democráticas das Américas — com o Canadá e os principais Estados da região como âncoras — para coordenar ações em prol da resiliência comercial, da governança da migração e das regras para o investimento externo. Essa cooperação daria aos países maior poder de negociação tanto com Washington quanto com Pequim.

Um teste inicial

A próxima revisão do USMCA, agendada para julho, será um teste inicial para verificar se essa abertura se manterá. Nos últimos anos, o Canadá por vezes pareceu inclinado a buscar um acordo bilateral com Washington, deixando o México exposto à pressão dos EUA. Mas as primeiras ações de Carney sugerem um rumo diferente. Ele rapidamente entrou em contato com a presidente Claudia Sheinbaum, convidando-a para a cúpula do G7 que sediou em Kananaskis, e posteriormente fez uma visita oficial ao México para estreitar os laços. Essa é uma iniciativa de aproximação mais consistente do que qualquer outro primeiro-ministro canadense tentou em décadas, possivelmente desde Brian Mulroney.

A questão agora não é apenas se o Canadá conseguirá demonstrar sua seriedade, mas se Ottawa manterá esse engajamento hemisférico — e se o México e outros governos latino-americanos aproveitarão a oportunidade para diversificar suas opções diplomáticas e econômicas. O México, em particular, enfrenta constantes pressões bilaterais de Washington que podem ofuscar outras parcerias. Ainda assim, uma coalizão de países de poder médio só se formará se as nações olharem além das diferenças de curto prazo e investirem em uma cooperação regional mais ampla.

A mensagem de Carney provavelmente encontrará eco na América Latina, onde países como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México possuem um potencial plausível de potência média. Esses Estados já enfrentam a competição entre grandes potências, equilibrando laços econômicos profundos com os EUA e o crescente comércio e investimento chinês. Um modelo de coalizão oferece uma maneira de preservar a autonomia e a influência sem abraçar ambições imperialistas ou provocar confrontos diretos.

Superando o ceticismo

Para que a mensagem de Carney sobre o papel de potência média ganhe força na América Latina, ele talvez precise primeiro superar o ceticismo na região quanto ao comprometimento do Canadá com o engajamento regional. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA incentivaram a integração do Canadá à nova arquitetura global — Bretton Woods, as Nações Unidas e a OTAN. Contudo, o Canadá permaneceu apenas vagamente ligado às instituições do hemisfério por décadas, ingressando na Organização dos Estados Americanos somente em 1990 e em outros organismos interamericanos ainda mais tarde. O internacionalismo canadense se desenvolveu mais por meio do multilateralismo transatlântico do que por meio da liderança hemisférica.

Foi nesse contexto que o Canadá adotou a identidade de uma “potência média”. As potências médias — frequentemente estados democráticos com diplomatas competentes — conquistaram influência por meio da formação de coalizões, do estabelecimento de normas e da construção de instituições.

A tensão mais profunda não reside simplesmente entre Washington e Ottawa, mas entre duas visões concorrentes do hemisfério. A Doutrina Donroe de Trump sugere que as Américas constituem um território estratégico delimitado e que mesmo parceiros próximos como o Canadá estão, em última análise, vinculados ao poder e às prioridades dos EUA. A resposta de Carney rejeita a premissa de um conflito inevitável, mas não admite subordinação. Em vez disso, apresenta os EUA e o Canadá como concorrentes naturais, cada um oferecendo um modelo de como as Américas devem se relacionar com o resto do mundo.

O Canadá oferece uma alternativa à hegemonia dos EUA na região, e essa alternativa pode ser competitiva, proporcionando uma parcela de liderança para países como Argentina, Brasil, Colômbia e México, que Washington atualmente não detém. Isso poderia levar os EUA a competir pelo apoio da América Latina, ou poderia levar Trump a isolar o Canadá, em um ato de raiva, dos assuntos e iniciativas regionais.

Será que a Doutrina Donroe transformará as Américas em uma esfera de influência fechada? Ou será que uma visão de potência média abrirá espaço para um diálogo interamericano mais amplo, conectando a região em vez de isolá-la?

É cedo demais para saber. Mas dois séculos depois de Monroe, os EUA são agora uma grande potência, as Américas abrigam muitas potências médias em potencial, e o Canadá oferece à região uma alternativa viável à liderança americana. A questão é se Ottawa — e as capitais latino-americanas — darão forma concreta a essa alternativa.

SOBRE O AUTOR

Christopher Sands

Sands é diretor do Centro de Estudos Canadenses da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e pesquisador visitante da Brookings Institution.

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