Escuridão interior: que problemas impedem as pessoas de viver

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Por que pensamentos negativos destroem a psique e preparam o terreno para o fracasso


Além das causas óbvias, fatores de risco ocultos, muitas vezes negligenciados, influenciam a consciência e o bem-estar físico de uma pessoa. Pensamentos sombrios, inatividade prolongada e hidratação inadequada podem causar danos sutis, porém significativos, ao organismo. Izvestia explicará como reconhecer ameaças ocultas à saúde e fatores de risco despercebidos, e por que o cérebro precisa de bom humor tanto quanto de água.

Por que surgem pensamentos sombrios?

O poder destrutivo do pensamento negativo é frequentemente atribuído a ele, pois nos impede de viver a vida plenamente e de apreciar as pequenas coisas. No entanto, o psicólogo clínico e terapeuta corporal Sergei Volkov acredita que a expressão "pensamento negativo" não é um termo muito preciso.

"Seria mais preciso chamar isso de pensamento deficitário, ou seja, uma mentalidade que concentra a atenção nas carências da vida", explica Volkov. "Com essa abordagem, a pessoa se concentra constantemente em certos aspectos da vida. Por exemplo, depois de ganhar na loteria, algumas pessoas se concentram no valor que ganharam, enquanto outras se concentram nos impostos que terão que pagar. Uma sente alegria, enquanto a outra sente tristeza pela perda, apesar de ter ganhado."
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Foto: IZVESTIA/Eduard Kornienko

Segundo Volkov, o pensamento deficitário baseia-se na busca por consequências negativas ou falhas no mundo e em diversas situações da vida. O psicólogo clínico identifica dois componentes psicológicos principais em seu núcleo: o primeiro é a ansiedade e o medo do futuro, a expectativa de fracasso e contratempos, e o segundo são as tradições culturais.

"No primeiro caso, a pessoa procura uma pegadinha em tudo e tenta se preparar para consequências negativas e terríveis. O cérebro é seletivo: se você se prepara, mesmo inconscientemente, para as dificuldades, você se encontrará nelas", alerta Volkov. "Pensar não se resume apenas a pensamentos, é também a base das reações. Quando nos apoiamos na prontidão para lutar e superar, na paciência ou no sofrimento, a parte inconsciente da psique simplesmente não tem escolha a não ser moldar a situação desejada."

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O especialista relaciona o segundo caso a um contexto histórico e sugere recorrer ao folclore oral.

Provavelmente não existe um único conto de fadas (exceto 'Por Ordem do Pique') em que os personagens não sofram. Desde cedo, as crianças são imersas em um paradigma onde apenas os vilões não sofrem ", argumenta Volkov. "E qualquer conquista alcançada sem sofrimento e superação é desvalorizada. Lembre-se do que os avós dizem: 'Vocês, jovens, sempre reclamam, mas nós, em nossa época...' Eles dizem que quem sofreu mais tem mais direitos." 

Segundo Sergei Volkov, a cultura do sofrimento essencialmente justifica o infantilismo e o fracasso social, permitindo que as pessoas evitem assumir responsabilidades e se escondam atrás da sua tristeza. Mas o sofrimento não resolve problemas e não confere qualquer vantagem sobre os outros. O especialista enfatiza que não se trata de lamentar uma perda, por exemplo. Em vez disso, queixar-se diariamente do frio no inverno e do calor no verão é sofrer pelo sofrimento, sem qualquer motivo identificável. Desta forma, a pessoa liberta a tensão e sente-se melhor, mas é difícil para os outros lidarem com a situação. Por vezes, alguém não consegue expressar diretamente as suas queixas legítimas a um colega ou chefe, pelo que as reprime e, aos poucos, “disfarça-as”, libertando a sua irritação através da queixa. O psicólogo clínico aconselha a aprender a relaxar, a aceitar que o mundo não é perfeito e a expressar a sua insatisfação não com o mundo à sua volta, mas com aquilo que a irrita.

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Segundo a psicóloga clínica, independentemente do motivo da reclamação e do descontentamento, o mundo se torna complexo e difícil para essas pessoas, e a existência perde o sentido. Em ambos os casos, a especialista aconselha focar no positivo em vez do negativo. Mesmo que o prêmio da loteria seja pequeno, vale a pena considerar que ainda é mais do que era antes.

"Para começar a pensar dessa forma, primeiro você precisa separar o emocional do racional e entender que suas experiências não são a verdade absoluta", comenta Volkov. "Sim, você pode ficar muito chateado com uma briga com entes queridos, mas isso estraga o clima maravilhoso? Não, suas emoções fazem você se sentir deprimido e triste. É um processo longo e trabalhoso — aprender uma nova lógica e habilidades de autorregulação emocional."

Como resolver o problema da solidão

A falta de comunicação é um sério problema de saúde. Os seres humanos são criaturas sociais: precisam trocar palavras, emoções e contato físico com os outros. A solidão é dolorosa para muitos.

"Se o problema for especificamente a falta de comunicação, você poderia, por exemplo, recusar entregas e enviar solicitações a órgãos governamentais por meio de centros multifuncionais, em vez de remotamente. Isso não é uma piada, mas uma maneira real de aumentar o contato com as pessoas", sugere a psicóloga clínica.

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A psicóloga clínica recomenda compensar a falta de comunicação por meio de qualquer atividade externa: participar de eventos presenciais, cursos de capacitação, visitar museus e salas de concerto, e até mesmo integrar o grupo dos moradores mais ativos do prédio. Qualquer atividade externa, fora do alcance do smartphone, será útil. Mas todas as tentativas de melhorar a comunicação serão inúteis se você impuser exigências irrazoáveis ​​às pessoas.

Você não deve exigir que os outros aceitem completamente suas ideias e padrões de comportamento, ou que gostem de interagir com você ", explica Volkov. "Esses são todos desejos de uma criança muito pequena em relação à mãe. Essa questão precisa ser tratada com um psicólogo, não às custas dos outros."

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Foto: IZVESTIA/Eduard Kornienko

Do ponto de vista de Volkov, às vezes até mesmo uma pessoa moderna, encurralada pela falta de comunicação, exige um nível incrível de conforto pessoal dos outros.

"Na visão deles, as pessoas devem ser enfaticamente educadas, nos entender instantaneamente, 'manter a vibe', manter distância, não se distanciar, mas também não violar limites, etc. A psicologização excessiva da vida promovida por blogueiros levou a expectativas de comunicação que há muito ultrapassam a realidade. Elas se baseiam em fantasias e ideias, mesmo as boas, que existem apenas em livros", argumenta Sergei Volkov.

A preguiça destrói o corpo.

O repouso excessivo é prejudicial à saúde e ao desempenho mental — a preguiça e a inatividade são, por vezes, mais exaustivas do que o trabalho intenso.

"Para sobreviver, nosso corpo absorve matéria orgânica, e a decomposição dessas substâncias desencadeia reações químicas que liberam calor", explica a psicóloga clínica. "É assim que obtemos energia para um processo chamado metabolismo. Esse processo não é estático, pois precisamos de substâncias diferentes em quantidades diferentes em momentos diferentes. Durante o sono, o metabolismo desacelera, enquanto, por exemplo, durante uma corrida, ele acelera."

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Segundo o especialista, esse processo envolve não apenas substâncias orgânicas externas, mas também aquelas produzidas pelo próprio corpo: cortisol, dopamina, adrenalina, noradrenalina, triptofano, testosterona, etc.

Se uma pessoa leva uma vida sedentária, os processos metabólicos ficam mais lentos e ela naturalmente se sentirá fraca ", alerta Sergei Volkov. " O pensamento e a atividade mental também ficam mais lentos: devido à falta de movimento, a quantidade de oxigênio benéfico no sangue diminui, o que significa que o cérebro não recebe o suficiente."

Mais da metade de todos os problemas psicológicos podem ser resolvidos por meio de exercícios, sono e nutrição adequada , enfatiza o especialista. "Os recursos nascem do movimento. Tudo o que vive se move. O que não se move está morto. Esta é uma lei da natureza, e não há como fugir dela", afirma o psicólogo clínico.

Como o estresse esgota o corpo e "resseca" o cérebro

Sergey Volkov nos lembra que o estresse é a resposta do corpo a estímulos externos. O corpo reage aumentando a pressão arterial, acelerando ou diminuindo a frequência respiratória, tensionando os músculos, suprimindo a fome, reduzindo o tempo de atenção e muito mais. Além disso, não importa se o estímulo é positivo ou negativo. Grande alegria também pode ser estressante, enfatiza o especialista.

"Dez anos de carreira esportiva profissional, acompanhados da alegria da vitória, são muito mais destrutivos para o corpo do que o horror vivenciado apenas uma vez", continua Sergei Volkov.

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Foto: IZVESTIA/Sergey Lantyukhov

A curto prazo, o estresse nos ajuda a reunir forças e mobilizar o corpo para resolver um problema. Essencialmente, ele salva nossas vidas. O problema, segundo Volkov, é que as pessoas modernas não sabem como gerenciar o estresse de forma eficaz.

Por exemplo, para aumentar o estado de alerta, pessoas que precisam se concentrar e manter a visão (como contadores e economistas) bebem muito café. A cafeína estimula a produção de adrenalina, o que as ajuda a combater a fadiga ocular e a se concentrar no monitor.

"Mas este é um exemplo típico de estresse emocionalmente esgotado, criado artificialmente, que destrói sistematicamente os órgãos da visão, o sistema cardiovascular, o sistema digestivo, o sistema reprodutivo e assim por diante", comenta Sergei Volkov.

O estresse crônico (angústia) é caracterizado pela incapacidade do corpo de absorver nutrientes suficientes do ambiente externo para reposição, esgotando constantemente suas reservas internas. É por isso que pessoas sob estresse perdem peso. Elas ganham peso devido ao estresse quando tentam compulsivamente compensar a deficiência comendo alimentos gordurosos e açucarados.

"Nesse estado, a pessoa perde forças a cada dia que passa, a alegria se esvai de sua vida e, eventualmente, ela chega a um estado que chamamos de burnout", diz Sergei Volkov. "Esse estado é caracterizado pela falta de empatia e emoção, indiferença a si mesmo e ao mundo, e uma queda na produtividade nos estudos e no trabalho. O entusiasmo pela vida diminui e uma sensação de desesperança e fadiga avassaladora se instala."

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Foto: IZVESTIA/Anna Selina

Segundo Volkov, é exatamente assim que se desenvolvem as doenças psicossomáticas do sistema nervoso, úlceras estomacais, problemas cardiovasculares e enxaquecas. O corpo se deteriora sob a pressão constante das circunstâncias externas e a falta de repouso adequado. Se nada for feito, a pessoa inevitavelmente acabará no hospital.

O estresse é necessário, mas a tensão deve sempre ser seguida de relaxamento. Esta é a única recomendação geral, pois cada estresse depende de circunstâncias específicas. Mas, é claro, jogar videogame depois das 20h no escritório não é relaxamento, mas sim uma continuação do estresse com um tom emocional diferente", alerta a psicóloga clínica.

O impacto do açúcar na saúde humana

Cientistas acreditam que até mesmo o excesso de doces pode prejudicar o seu desempenho e reduzir o seu rendimento físico e mental. Por outro lado, é sabido que o açúcar melhora o desempenho mental. Nesse caso, a moderação é fundamental.

O açúcar pode de fato aumentar a sensação de fadiga e causar uma sensação de lentidão mental — tudo isso tem uma base científica ", afirma Anastasia Lebedeva, professora associada do Departamento de Dietética da Universidade Rosbiotech. "O cérebro humano depende quase que inteiramente da glicose como fonte de energia, mas o fator crucial não é a sua disponibilidade em si, e sim a estabilidade dos níveis de glicose no sangue."

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Foto: IZVESTIA/Sergey Vinogradov

Segundo o biotecnólogo, quando uma pessoa consome grandes quantidades de açúcares simples — doces, bebidas açucaradas e produtos de panificação — os níveis de glicose aumentam drasticamente. Em resposta, o corpo libera insulina para reduzir os níveis de açúcar no sangue o mais rápido possível. Esse processo frequentemente leva a uma queda brusca e desproporcional da glicose — uma condição que é subjetivamente sentida como uma perda de energia. Ela é acompanhada por sonolência, diminuição da agilidade mental e dificuldade de concentração. A pessoa sente uma sensação desagradável na cabeça, como se o cérebro estivesse perdendo a clareza e o foco.

Ao mesmo tempo, a ideia de que o açúcar pode 'ativar' o cérebro não é totalmente um mito. Em condições de leve deficiência energética, como esforço mental prolongado ou pular uma refeição, uma pequena quantidade de carboidratos de rápida digestão pode, de fato, aumentar temporariamente a disponibilidade de glicose para as células nervosas ", explica Anastasia Lebedeva.

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Foto: IZVESTIA/Sergey Lantyukhov

O antigo conselho de comer um pedaço de chocolate antes de uma prova tem uma base lógica. No entanto, o problema é que esse efeito é passageiro e instável, enfatiza o biotecnólogo. Se o consumo de doces for excessivo ou não for equilibrado com proteínas e gorduras, um rápido aumento de energia é seguido por uma queda brusca, acompanhada de perda de memória, irritabilidade e fadiga.

"Nesse sentido, não é o açúcar em si que desempenha um papel decisivo, mas sim a sua quantidade, a frequência de consumo e a combinação com outros nutrientes que retardam a sua absorção e estabilizam os níveis de glicose", comenta Lebedeva.

A água ajuda a restaurar a força.

Os cientistas acreditam que o equilíbrio hídrico desempenha um papel igualmente importante no desempenho cognitivo. O cérebro é composto de 70 a 75% de água, e mesmo uma desidratação moderada — de 1 a 2% do peso corporal — pode reduzir significativamente a atenção, a velocidade de processamento de informações, a memória de curto prazo e a tomada de decisões.

Quando ocorre deficiência de fluidos, o fluxo sanguíneo fica comprometido, o fornecimento de oxigênio e nutrientes aos neurônios é retardado e a transmissão dos impulsos nervosos é interrompida ", explica Lebedeva. "Como resultado, a pessoa sente fadiga, peso na cabeça e diminuição do desempenho mental."

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Foto: IZVESTIA/Eduard Kornienko

Em relação ao consumo excessivo de água, segundo o especialista, raramente acarreta consequências graves no dia a dia. No entanto, o excesso significativo e descontrolado de líquidos pode desequilibrar os eletrólitos, o que pode, de fato, afetar negativamente o sistema nervoso. Com uma ingestão normal de líquidos, o risco de perda de nutrientes benéficos é mínimo.

Segundo o especialista, a água pura é a mais eficaz para manter a função cognitiva, pois não contém açúcar, estimulantes ou outras substâncias que afetam os processos metabólicos. Chá, compotas e outras bebidas também contribuem para a ingestão total de líquidos, mas seu efeito é significativamente menor.

"Por exemplo, uma xícara de chá doce forte pode de fato melhorar temporariamente a concentração devido à combinação de cafeína e glicose, mas esse efeito é uma estimulação, e não uma melhora sustentada da função cerebral . Com o uso regular, essa abordagem pode levar à exaustão do sistema nervoso, quedas de energia e dependência de estímulos externos", afirma Lebedeva.

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Foto: IZVESTIA/Sergey Lantyukhov

Para um desempenho mental estável, o importante não são os "choques" repentinos, mas sim um fornecimento constante de energia, ingestão adequada de água e uma dieta equilibrada.

"Portanto, o bom funcionamento do cérebro não se baseia em extremos, mas sim no equilíbrio. O excesso de açúcar e a ingestão insuficiente de água podem, de fato, prejudicar a função cognitiva, enquanto a moderação, a estabilidade e a atenção às necessidades fisiológicas do corpo permitem um pensamento claro, concentração e estado de alerta mental sustentado ao longo do dia", conclui o especialista.

"A leitura ilumina o espírito".

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