Pouquíssimas universidades reconheceram que um genocídio estava em curso em Gaza, e mesmo hoje parecem não admitir que a ofensiva está vindo em nossa direção. Foto: Alexia Villaseñor / arquivo
Há um processo acelerado de fortalecimento da direita em todo o mundo, deixando sua marca de sangue e crueldade. Onde quer que escolha, ataca direitos fundamentais, como o direito à vida, à independência, ao bem comum, à democracia, ao pluralismo, ao conhecimento e à paz. E nossas instituições e universidades têm sido muito lentas, senão totalmente ausentes, em contribuir para uma resposta ampla e generalizada.
Na verdade, muito poucos reconheceram que um genocídio estava em curso em Gaza, e mesmo hoje parecem não perceber que a ofensiva está vindo em nossa direção. A Venezuela foi um aviso, e agora Cuba e o próprio México estão sob uma pressão e ameaça militar sem precedentes, como não se via há um século. Eles têm a obrigação legal de lidar com os problemas nacionais, mas a situação atual não lhes parece suficiente. Até mesmo o prudente governo federal (Sheinbaum) é mais claro e veemente do que as instituições públicas de conhecimento e educação para os mexicanos.
Por isso, esse silêncio também nos indica que algo está muito errado em nossas instituições. Que a ausência não é acidental, que existem razões concretas e processos específicos de incubação e florescimento da direita também nas universidades, que refletem o panorama regional. Por exemplo, a Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), nas décadas de 1970 e 1980, era uma comunidade muito participativa e horizontal. Recém-fundada, tudo ali ainda estava por ser feito, e tudo era decidido pelos jovens professores, com o apoio da equipe administrativa.
Eram professores jovens, recém-formados, imbuídos do espírito de 68, com uma ética transformadora, aberta e coletiva, e com títulos de mestrado e doutorado. Abraçaram Piaget e Freire em busca de uma pedagogia horizontal centrada na construção do conhecimento, na pesquisa e no serviço ao próximo desde o primeiro semestre. Organizaram divisões, não faculdades antiquadas, e conceberam currículos e programas de estudo que buscavam compreender e transformar o mundo por meio de profissões com clara ênfase no bem-estar social: psicologia social, medicina social e outras. Estabeleceram espaços universitários nos arredores da Cidade do México e chegaram até Chiapas. Interpretaram a Lei Orgânica democraticamente e, em acordo com as autoridades, supervisionaram os procedimentos de contratação de acadêmicos (concursos públicos).
Apesar de tudo isso, por quase uma década a UAM funcionou de forma criativa e eficaz com apenas duas estruturas legais inspiradoras: a Lei Orgânica de 1973 e o Acordo Coletivo de Trabalho de 1976. No entanto, assim como em outras instituições do país, essas estruturas foram extintas por meio de uma emenda constitucional (Artigo 3, Seção VII) que concedeu poder às burocracias universitárias. Como essas burocracias não eram originárias da UAM (a maioria vinha das ciências exatas da UNAM), sua "reorganização" da Universidade Metropolitana foi modelada segundo o padrão dessa outra instituição. Elas criaram uma massa de regulamentos, regras, decretos, diretrizes e políticas.
Agora não são dois, mas 30. Decidiram também aumentar substancialmente o poder das autoridades individuais, sem falar dos poderes que os reitores têm para criar novos cargos com novas responsabilidades. Assim, por exemplo, pela Lei Orgânica, o reitor-geral tinha sete poderes ou faculdades, mas com um regulamento posterior, foram acrescentados mais 20; o consultor jurídico tinha um poder, e agora foram acrescentados mais 18; os reitores de unidade tinham quatro, e agora são 21, e o diretor de divisão passou de zero para 17. Em outras palavras, houve, e ainda há, uma profunda mudança na estrutura de poder.
Dessa forma, os novos líderes impõem uma “ordem” normativa mais conservadora e autoritária. Além disso, em todos os espaços participativos (faculdade, conselhos, comissões), as autoridades definem a pauta, dirigem a sessão, têm o voto de desempate e raramente perdem uma votação. Excluem também a maioria dos professores do desenvolvimento ou da modificação dos currículos e programas de estudo, e estes sequer são obrigados a ser informados previamente caso seu programa seja cancelado.
Além disso, influenciam a composição do Conselho de Administração, que se tornou um espaço para disputas internas e negociações secretas (“primeiro o meu candidato, depois o seu”), fomentando um declínio na liderança institucional. E as decisões: sanções infundadas (exemplos: Miguel Ángel Hinojosa, demitido; Luis Ortiz, privado de metade do seu salário); a contratação, na reitoria de Xochimilco, do advogado que desempenhou um papel fundamental no longo conflito na Universidade Pedagógica Nacional; a utilização de verbas destinadas a centenas de cargos permanentes que permanecem vagos, para contratos precários de inúmeros professores temporários e para mais nomeações políticas e bônus.
Essas são práticas normalizadas que fomentam a falta de preocupação com o bem comum, o uso da força para "restaurar a ordem" e uma rejeição radical ao questionamento. Subjacente a isso está o eco da direita, que agora encontra terreno fértil em universidades e instituições. É por isso que há tanto silêncio.
*UAM-X
Comentários
Postar um comentário
12