Sem indústria, não há soberania: o alerta sobre minerais críticos

Minério bruto de terras raras (Foto: REUTERS/Nayan Sthankiya)

Na geopolítica do século XXI, não é a jazida que define o poder, mas o controle da cadeia, e o Brasil precisa decidir onde quer estar

Reynaldo José Aragon Gonçalves
brasil247.com/

O mundo já entendeu que minerais críticos são infraestrutura de poder. Os Estados Unidos pressionam, a China domina, a Índia avança. E o Brasil? Está prestes a decidir se entra no século XXI como potência industrial ou se permanece como fornecedor subordinado de recursos. Este não é um debate técnico. É uma disputa pelo futuro.

Entre a jazida e o poder, existe a cadeia produtiva, e é nela que se decide a soberania

O erro começa quando o Brasil ainda trata minerais críticos como um tema de mineração. Não são. Já não são há algum tempo. O mundo que disputa esses recursos não está interessado em jazidas, mas no que se faz com elas. E é nesse deslocamento que se define o poder no século XXI.

Minerais críticos são a base material de tudo aquilo que organiza a economia contemporânea. Estão nos ímãs que movem turbinas eólicas, nos motores de veículos elétricos, nos sistemas de defesa, nos data centers, nas cadeias de semicondutores, na infraestrutura digital que sustenta a inteligência artificial. Quem controla essa transformação controla a indústria, a tecnologia e, em última instância, a soberania. Por isso, a questão central já não é quem possui os recursos, mas quem domina a cadeia que os converte em poder.

Os Estados Unidos compreenderam isso e passaram a reorganizar sua estratégia industrial e de segurança nacional a partir dessa premissa. Não buscam apenas acesso a minerais, mas a reconfiguração das cadeias globais para reduzir dependências estratégicas, sobretudo em relação à China. A China, por sua vez, não chegou agora. Construiu, ao longo de décadas, uma posição dominante exatamente onde o valor é criado: no refino, na metalurgia, na fabricação de componentes críticos, no domínio tecnológico e industrial que transforma matéria em capacidade produtiva. A Índia se move para ocupar espaço nesse rearranjo, tentando acelerar sua industrialização e se posicionar como alternativa em uma cadeia em disputa. Não há neutralidade nesse cenário. Há competição organizada por controle.

É nesse contexto que o Brasil aparece. Não como protagonista consolidado, mas como território estratégico a ser integrado a essas cadeias sob termos definidos por outros. E é aqui que a disputa real começa, ainda que muitas vezes disfarçada de cooperação.

A pressão externa não se apresenta como imposição direta. Ela vem sob a forma de parcerias, financiamentos, acordos de cooperação, promessas de processamento local e integração a cadeias consideradas seguras. Mas, na prática, o que está em jogo é a tentativa de garantir acesso aos recursos brasileiros sem permitir que o país controle os elos de maior valor agregado. Trata-se de uma pressão assimétrica, sofisticada e persistente, que opera justamente porque não se declara como tal.

O risco é aceitar essa lógica como avanço.

Porque a armadilha central já está desenhada. Ela não está mais na exportação de minério bruto, como no passado. Está na aceitação de um modelo em que o Brasil realiza etapas intermediárias da cadeia, enquanto o controle do conhecimento, da tecnologia, da propriedade intelectual e dos produtos finais permanece fora. Trata-se de uma dependência atualizada, mais sofisticada, mas estruturalmente idêntica.

Processar no território nacional não é sinônimo de soberania. Sem domínio do refino avançado, da metalurgia, da fabricação de ímãs, da integração industrial e do desenvolvimento tecnológico, o país continua ocupando uma posição subordinada. O que muda é apenas o nível de complexidade do que se exporta, não o lugar que se ocupa na divisão internacional do trabalho.

É exatamente por isso que o momento atual exige clareza estratégica.

O encontro entre Lula e Trump não pode ser tratado como uma agenda diplomática comum. Ele ocorre no centro de uma disputa global pela reorganização de cadeias produtivas e, portanto, deve ser lido como uma negociação sobre o lugar do Brasil no século XXI. Não se trata de discutir exportações, investimentos ou cooperação genérica. Trata-se de definir se o país terá capacidade de controlar os elos decisivos da cadeia ou se será integrado a ela como fornecedor.

Qualquer acordo que não tenha como eixo a industrialização local, a transferência tecnológica real, o controle dos dados e a integração completa da cadeia produtiva reproduz, sob nova linguagem, o padrão histórico de dependência. Não importa a narrativa que o acompanhe. O resultado será o mesmo.

Soberania, nesse contexto, deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma condição material. Ela depende de capacidade produtiva, de domínio tecnológico, de coordenação estatal e de decisão política. Não é algo que se declara. É algo que se constrói.

E essa construção não pode ser delegada exclusivamente ao governo.

A disputa pelos minerais críticos não será decidida apenas em mesas de negociação. Ela será definida pela capacidade da sociedade brasileira de compreender o que está em jogo e de pressionar por um projeto que não aceite atalhos fáceis nem soluções aparentes. Jornalistas, formadores de opinião, academia, setor produtivo e trabalhadores precisam disputar esse debate com clareza, recusando a narrativa de que qualquer investimento ou parceria representa automaticamente avanço.

Porque não representa.

Sem controle da cadeia, não há soberania. Sem indústria, não há autonomia. Sem tecnologia, não há poder.

O Brasil já percorreu esse caminho antes. Exportou recursos, importou valor e permaneceu preso a uma posição subordinada no sistema internacional. Repetir esse movimento agora, em um momento em que as cadeias produtivas definem o centro do poder global, não é apenas um erro econômico. É uma escolha histórica com consequências de longo prazo.

E, desta vez, não haverá desculpa de desconhecimento.

O que está em jogo é claro. A disputa está colocada. As condições estão dadas.

Resta saber se o Brasil vai negociar o seu futuro ou, mais uma vez, aceitá-lo pronto, abrindo mão de decidir o próprio destino.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>


"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar/Support: Chave 61993185299

Comentários