Enquanto os Estados Unidos se preparam para sediar uma Copa do Mundo que promete fazer com que os torneios obscuros da Rússia e do Catar pareçam quase pitorescos em comparação, os jogadores de futebol deveriam canalizar o espírito político do maestro brasileiro Sócrates. (Bongarts/Getty Images)
TRADUÇÃO: PEDRO PERUCCA
Hoje seria o aniversário do saudoso jogador de futebol Sócrates, que desafiou a ditadura militar em seu país, um exemplo necessário hoje, às vésperas de uma Copa do Mundo concebida para funcionar como uma vitrine de propaganda trumpista.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira nunca ganhou uma Copa do Mundo. Nunca chegou a uma final, nunca ergueu o troféu mais prestigioso do futebol, nunca conquistou a imortalidade que geralmente define a grandeza na mitologia oficial do futebol. E, no entanto, décadas depois, a lenda brasileira permanece uma das figuras mais importantes da história da Copa do Mundo.
Centenas de jogadores venceram o torneio, mas só houve um Sócrates. Seu legado perdura não por causa dos prêmios, nem mesmo por seu talento inegável, mas porque ele compreendeu algo que as instituições esportivas prefeririam esquecer: que jogar futebol é, em si, um ato político. Os atletas, quer queiram quer não, ocupam um palco com enorme poder social.
O anti-atleta
Alto, barbudo, cerebral, frequentemente comparado a Che Guevara, Sócrates era uma figura inconfundível em campo. Mestre do espaço e do tempo, ele previa os passes antes mesmo de existirem, lançava bolas longas com precisão cirúrgica e desmontava defesas com seu característico calcanhar sem olhar.
Mas mesmo no auge de sua carreira, ele resistiu à ideia de que o futebol deveria consumi-lo completamente. Médico formado, o que lhe rendeu o apelido de "Doutor Sócrates", ele personificava a contradição que perturba as expectativas limitadas do esporte: um atleta de elite que lia vorazmente, discutia política e rejeitava a disciplina puritana exigida pelo profissionalismo. "Sou um anti-atleta", disse ele certa vez. "E eles têm que me aceitar como eu sou."
O meio-campista, nascido em Belém, não acreditava que os jogadores de futebol existissem fora da sociedade, nem que sua única responsabilidade fosse entreter. "Enquanto eu era jogador de futebol, minhas pernas amplificavam minha voz", refletiu ele, desmantelando a mitologia liberal do esporte apolítico. Ele usou essa voz amplificada para se manifestar contra a injustiça, não apenas no Brasil, mas também internacionalmente, mais notavelmente na Copa do Mundo de 1986 no México, quando usou faixas de cabeça com mensagens políticas.
Essas mensagens incluíam frases como "O povo precisa de justiça", "Não à violência" e "Sim ao amor, não ao terror" (esta última uma crítica direta ao bombardeio americano da Líbia pouco mais de um mês antes). Não eram meros gestos performáticos ou vagos apelos à unidade. Eram intervenções explícitas, confrontativas e internacionalistas que desafiavam o império de forma inequívoca.
Democracia do futebol
Sócrates não nasceu radical. No início de sua trajetória, ele ecoava o senso comum reacionário daqueles ao seu redor, elogiando o regime militar brasileiro e rejeitando a ideia de misturar esporte e política. O que o transformou foi sua educação e o contato com a realidade.
Em 1978, quando começou a jogar pelo Corinthians, o clube histórico onde passou a maior parte de sua monumental carreira, ele se deparou com a violência e a repressão da ditadura apoiada pelos EUA que governava o Brasil desde 1964, após a deposição do presidente democraticamente eleito. Sócrates começou a fazer perguntas e a ler mais.
Quando compreendeu o que realmente estava acontecendo — os desaparecimentos, a censura, a perseguição ao movimento operário — ele mudou publicamente de posição. Essa disposição para desaprender e romper com suas próprias crenças anteriores é um elemento central de seu legado político e oferece um importante lembrete a todas as pessoas de consciência: nunca deixem de questionar os sistemas de opressão que nos cercam.
Foi no Corinthians que suas convicções políticas encontraram a expressão mais clara. No início da década de 1980, em meio a uma atmosfera despótica cada vez mais sufocante, Sócrates tornou-se a figura central da Democracia Coríntia, um experimento extraordinário de autogoverno coletivo em um dos maiores clubes do Brasil. Sob sua liderança, as decisões eram tomadas democraticamente: jogadores, treinadores, fisioterapeutas, roupeiros e funcionários tinham direito a voto igual.
Tudo era decidido democraticamente, desde os horários de treino às regras da equipe, até se o ônibus que transportava os jogadores deveria parar para um intervalo. Num país onde o direito à participação democrática havia sido violentamente reprimido, um clube de futebol tornou-se um espaço de controle operário e imaginação política, e com o tempo adquiriu enorme importância na luta contra a ditadura.
O Corinthians Democracy opôs-se abertamente ao regime militar, alinhando-se ao movimento Diretas Já, que exigia a restauração das eleições democráticas. Sócrates usou sua plataforma em um momento em que a dissidência acarretava riscos reais; ele não se refugiou em eufemismos ou neutralidade. Ele entendia que o futebol era um dos poucos espaços onde a atenção das massas não podia ser facilmente extinta.
Sócrates morreu aos 57 anos, em 4 de dezembro de 2011, no mesmo dia em que o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro — um fim poético para um homem cuja vida era inseparável do clube e de seus torcedores. Naquela época, ele já estava aposentado do futebol há anos, mas não da política. Exercia a medicina, escrevia, dava palestras, trabalhava como comentarista e mantinha seu compromisso com a mudança radical, apoiando abertamente Luiz Inácio Lula da Silva e a esquerda brasileira. Seu ativismo não terminou quando as câmeras pararam de filmar.
A política do silêncio
Hoje, enquanto os Estados Unidos aceleram rumo ao fascismo e aprofundam seus crimes imperialistas na América Latina e em outros lugares, e enquanto a FIFA se curva completamente a Donald Trump, precisamos que os jogadores resgatem o espírito de Sócrates, justamente quando o país se prepara para sediar uma Copa do Mundo que promete ofuscar a Rússia e o Catar em termos de controvérsia.
Tudo o que Sócrates representava entrava em conflito com a confortável ficção liberal de que a política só entra no esporte quando um atleta "decide" se manifestar. O esporte não se torna político repentinamente quando alguém usa uma braçadeira, se ajoelha ou emite uma declaração. Há também política na omissão. O futebol é político porque está intrinsecamente ligado ao poder: ao nacionalismo e ao capital, ao espetáculo imperial, às estruturas concebidas para o lucro e o prestígio.
O esporte moderno trabalha incansavelmente para esconder essa realidade, incentivando os jogadores a "se concentrarem no jogo", a permanecerem neutros e a entenderem a política como algo externo e perigoso, exceto quando essa política é nacionalista ou militarista.
Quando os atletas desafiam o poder, são celebrados apenas na medida em que suas intervenções são vagas, simbólicas e facilmente absorvidas pela linguagem comercial dos "valores". Qualquer gesto mais incisivo é considerado uma quebra de contrato. Portanto, o silêncio não é a ausência de política, mas sua forma mais submissa.
Sócrates compreendeu isso muito antes de as redes sociais reduzirem a expressão política à mera promoção pessoal. Seu ativismo não era apenas uma questão de consciência individual; era coletivo, estrutural e abertamente antagônico ao poder. A Democracia Coríntia não buscava visibilidade, mas sim redistribuir o poder de decisão e introduzir mudanças institucionais, expondo a conexão do futebol com as lutas mais amplas por trabalho e democracia. Essa é a diferença entre a ação política radical e os gestos vazios que dominam o esporte de elite hoje em dia.
Esporte e entretenimento
Essa distinção é fundamental, porque o conceito de "levantar a voz" causa profundos danos políticos, já que sugere que a injustiça pode ser resolvida com mera expressão, em vez de organização, solidariedade e confronto, reduzindo a política a uma performance e a dissidência a algo comercializável.
No futebol, isso gerou uma geração de jogadores com identidades públicas meticulosamente gerenciadas. Suas opiniões são filtradas por patrocinadores e agentes, e seus raros momentos de lucidez são rapidamente reabsorvidos pelo espetáculo.
As consequências disso também são vistas fora do futebol. No críquete, um dos esportes mais populares do mundo, há um silêncio ensurdecedor em relação à ocupação indiana da Caxemira, aos pogroms anti-muçulmanos e à consolidação do autoritarismo sob o governo de Narendra Modi. As autoridades do críquete indiano, dominadas por aliados de Modi, baniram jogadores de Bangladesh da principal liga do esporte e já haviam excluído os paquistaneses. O Conselho Internacional de Críquete se apresenta como neutro, enquanto age em conluio com o poder estatal e os interesses corporativos.
Do Paquistão à Austrália, os jogadores são alertados de que o envolvimento político ameaça suas carreiras. Claro que o mesmo não se aplica quando certos interesses capitalistas estão em jogo, como quando a Austrália se recusa a jogar uma série contra o Afeganistão "em solidariedade" às mulheres afegãs, mas o faz em partidas comercialmente indesejáveis, enquanto continua a sediar jogos em grandes torneios.
Rejeite a mentira
Nesse contexto, figuras como Sócrates, ou mesmo o lendário Diego Maradona, destacam-se por rejeitarem a mentira da neutralidade. O apoio declarado de Maradona à Revolução Cubana, sua solidariedade com a Palestina e sua hostilidade ao imperialismo estadunidense o colocaram fora dos limites aceitáveis da celebridade. Assim como Sócrates, ele personificava a ideia de que os jogadores de futebol não são meros artistas, mas trabalhadores cujo trabalho gera riqueza e cuja visibilidade tem peso político.
Hoje, o contraste é gritante. Cristiano Ronaldo posa com Donald Trump, enquanto Neymar apoia Jair Bolsonaro. Quando as figuras mais influentes do futebol se alinham a políticas reacionárias, as críticas são escassas, embora as instituições insistam que o futebol deve permanecer acima da política. Essa contradição revela que o esporte não é despolitizado, mas sim seletivamente politizado: disposto a se acomodar aos que estão no poder, porém avesso à resistência.
Até mesmo os gestos celebrados nos últimos anos parecem agora desgastados. Na Copa do Mundo do Catar, algumas seleções europeias, especialmente a Alemanha, realizaram protestos cuidadosamente coreografados, simbólicos e, em última análise, inofensivos. Mesmo assim, a FIFA os restringiu sem resistência.
Quarenta anos depois, o espírito da Copa do Mundo de 1986 no México — o futebol como espaço para a livre expressão da dissidência política — parece muito distante, mesmo que treze dos 104 jogos da próxima Copa do Mundo estejam programados para serem disputados no México. No entanto, é justamente esse espírito que a próxima Copa do Mundo exigiria. Se a FIFA decidir organizar seu principal torneio no coração de um império em crise, em meio à crescente repressão, fronteiras militarizadas e guerra perpétua, a neutralidade deixa de ser uma posição aceitável, se é que algum dia o foi.
Lutando pelo jogo
Enquanto os Estados Unidos caminham rumo ao autoritarismo internamente e apoiam a violência em massa no exterior, o esporte mais assistido do mundo se prepara para seguir o mesmo caminho. Esse silêncio é produto de uma cultura e economia esportivas concebidas para sufocar a resistência antes que ela se cristalize, incentivando os jogadores a se enxergarem como marcas e as seleções nacionais como instrumentos de poder brando.
Mas não precisa ser assim. Os jogadores de futebol não são indivíduos impotentes presos a um sistema imutável. Seu trabalho sustenta uma indústria global, sua visibilidade atrai enorme atenção e sua ação coletiva poderia alterar significativamente o status quo. Quando ajudou a construir a Democracia de Corinto, Sócrates demonstrou que, mesmo sob uma ditadura, o futebol poderia ser reorganizado democraticamente.
E essa responsabilidade não recai apenas sobre os jogadores. Os torcedores também são atores políticos. Grupos de torcedores, sindicatos, jornalistas e movimentos populares podem se recusar a encobrir o império por meio do esporte. Boicotes, protestos coordenados e pressão constante podem introduzir questões incômodas em espaços criados para excluí-los.
A campanha para excluir Israel das competições internacionais pode ainda não ter alcançado seu objetivo, mas já ultrapassou os limites do imaginável. A decisão do clube alemão Fortuna Düsseldorf de cancelar a contratação do jogador israelense Shon Weissman, após pressão de torcedores devido ao seu apoio aos crimes de guerra do exército israelense, é um exemplo disso. Não há razão para que campanhas semelhantes não possam ser direcionadas contra os Estados Unidos.
Ainda existem vislumbres de solidariedade. Figuras como Gary Lineker, Pep Guardiola e Anwar El Ghazi mostraram que é possível rejeitar a exigência de silêncio. Mas a coragem isolada não basta. O que tornou Sócrates tão amado não foi apenas seu ativismo, mas seu compromisso com a luta coletiva.
Invocar seu legado hoje não é mitificar o passado, mas sim desafiar o presente. Se no Brasil da década de 1980 o futebol podia ser politizado contra uma ditadura militar apoiada pelos EUA, hoje a afirmação de que a resistência é impossível soa vazia.
A próxima Copa do Mundo será vendida como uma festa, um espetáculo, uma distração. Se ela se tornará algo mais — um espaço para confronto e solidariedade — dependerá de se aqueles que realmente amam este belo jogo estiverem dispostos a lutar por ele.
HAMZA SHEHRYAR
Hamza Shehryar é escritor e jornalista. Ele cobre a indústria do entretenimento, cultura e política global, com foco em perspectivas interseccionais e do Sul Global.
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