Imagem: George Kedenburg III
Por LUIZ GONZAGA BELLUZZO & MANFRED BACK*
O Nerd Reich não ocupa territórios com tanques, mas invade cérebros com dados e vende a liberdade que diz proteger
1.
Vamos caminhar de Munique a Washington, da Baviera à Califórnia. Nessa caminhada histórica transitamos entre discursos inflamados nas tavernas de Munique e os laboratórios e datas centers do Vale do Silício.
Assim, lançamos também nossos olhares na transição entre as tropas de assalto da SA e o capitalismo de vigilância, comandado por dados, tecnologia, inteligência artificial e, lógico, muito dinheiro. São os libertários do monopólio: a liberdade individual se exprime nas redes controladas por outras redes.
No livro Wall Street and the rise of Hitler, Antony Cyril Sutton afirma que a contribuição do capitalismo americano para os preparativos de guerra alemães antes de 1940 só pode ser descrita como fenomenal. “As evidências sugerem que não apenas um setor influente dos negócios americanos estava ciente da natureza do nazismo, mas, para seus próprios fins, ajudou o nazismo sempre que possível (e foi lucrativo) – com plena consciência de que o resultado provável seria uma guerra envolvendo a Europa e os Estados Unidos”.
Os discursos da Era Trump contra a regulação dos governos, são usados como figura de linguagem para fazer exatamente o contrário: abocanhar o poder do Estado para submeter corpos e almas de cidadãos e cidadãs.
A tropa de assalto nazista servia para liderar ataques e penetrar defesas inimigas em nome do orgulho da pátria. A tropa de assalto do Vale do Silício lidera ataques e penetra nas vidas de todos por meio do uso de bancos de dados, em nome da liberdade individual e da soberania da informação.
“Às vezes, terceirizamos nossa inteligência para os varejos de informações, que oferecem cem destilações mais rápidas, simples e digeríveis, que nos poupam de pensar sobre nós mesmos”. (Maryanne Wolf, O cérebro no mundo digital). As tropas de assalto nazistas foram formadas pela ralé da baixa classe média alemã, de pequenos comerciantes, e as do Vale do Silício, pelos nerds dos algoritmos. O objetivo de um, assim como do outro, é o mesmo: comandar o mundo, mas de forma diferente.
Na Alemanha de Hitler, predominaram a violência e a anexação de territórios. No país do MAGA, a violência e o controle são exercidos pelo domínio dos dados e da inteligência artificial. Restaurar os anos de glória do Reich alemão é realizado hoje pelo comando das Big Techs, não apenas com dados e informações, mas também com o controle das mentes.
Os nerds conquistaram Washington por dentro, não só com Donald Trump, mas também com J. D.Vance.
2.
Na Alemanha nazista, Adolf Hitler e Joseph Goebbels se empenhavam na propaganda manipuladora de massas. Agora Peter Thiel e Curtis Yarvis, ex-nerds progressistas da Califórnia nos anos 1990, comandam a manipulação das massas. Os métodos são diferentes, mas semelhantes em seus propósitos. No III Reich, a meta era destruir o Estado por dentro, no Reich das Big Techs, trata-se de tomar conta do Estado.
O III Reich mobilizava sua polícia secreta, a Gestapo (Geheime Staatspolizei), e apontava sua truculência contra os inimigos do Estado alemão. As Big Techs entram no seu celular, na sua conta bancária, na sua televisão, no seu carro, na sua geladeira e no seu pensamento. Usa os dados e informações e os vende. A Gestapo artificial é muito mais eficiente e não menos truculenta contra os “cidadãos inimigos”, aqueles que resistem ao cancelamento, às fake news e aos trolls. A Gestapo invadia sua casa, a inteligência artificial invade seu cérebro.
Hannah Arendt abordou nas Origens do totalitarismo as transformações sociais e políticas na era da sociedade de massa capitalista. A economia dos monopólios substituiu a empresa individual pela coletivização da propriedade privada, ao mesmo tempo em que promovia a “individualização do trabalho”, engendrada pelas novas modalidades tecnológicas e organizacionais da grande empresa.
A operação impessoal das forças econômicas produziu, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do homem massa, cuja principal característica não é (somente) a brutalidade e a rudeza, mas o seu isolamento e sua falta de relações sociais normais.
“A força tornou-se a essência da ação política e o centro do pensamento político quando se separou da comunidade política à qual devia servir. É verdade que isso foi provocado por um fator econômico”. (Hannah Arendt, Origens do totalitarismo).
Evgeny Morozov, no grande livro, Big Techs: a ascensão dos dados e a morte da política ensina que esse sistema emergente (liberal capitalista?) “não seja também neofeudal, com as grandes empresas de tecnologia desempenhando o papel de novos senhores que controlam quase todos os aspectos de nossa existência e definem os termos do debate político e social mais abrangente”.
Paulina Borsook, no final dos anos 1990, escreveu um livro intitulado Cyberselfish. A autora cuida das sementes que brotaram no discurso e na prática do Vale do Silício. Segundo ela, o entusiasmo financeiro transformou uma comunidade, antes sóbria, civicamente consciente e igualitária, em algo tóxico.
No começo dos anos 2000, Paulina Borsook fez outro alerta: o Vale do Silício, odeia governos, regras e regulamentos. Acredita que, se você é rico, também é inteligente. Pensava que as pessoas deveriam ser programadas como computadores. O “tecnolibertarianismo”, não tinha tempo para as realidades confusas de ser humano.
As nuvens de dados do capitalismo de vigilância administram seus interesses sempre acompanhadas da repressão e da violência real. As tropas de assalto nazistas são antecessoras da milícia paramilitar infiltrada no ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement).
A mulher assassinada em Minneapolis foi morta sem cometer crime algum. Citamos aqui o diálogo entre o agente e Renee Good de 37 anos: “eu não estou brava com você. Retrucou o agente do ICE “vagabunda”. Essa foi a última palavra do agente antes de atirar para matar.
Os Founding Fathers (Pais Fundadores), George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, John Adams, James Madison e Alexander Hamilton, estão se revirando no túmulo e psicografando a trajetória dos Estados Unidos da Revolução Americana ao Nerd Reich.
*Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]
*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

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