Nem teocracia nem império

Um membro da Força Aérea dos EUA inspeciona munições de ataque direto conjunto (JDAMs) em um reboque em frente a um bombardeiro B-1 Lancer da Força Aérea dos EUA. Foto: AFP


A guerra contra o Irã colocou mais uma vez amplos setores da sociedade diante de um dilema enganoso: ou condenar o regime iraniano — autoritário, repressivo, teocrático — ou denunciar a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel como um novo episódio do imperialismo contemporâneo. Como se os dois fossem incompatíveis; como se a crítica a um exigisse a absolvição do outro. Essa formulação binária empobrece a análise e sufoca o debate público.

Este não é simplesmente um problema conceitual. Essa forma de estruturar o debate funciona como um artifício político em tempos de guerra: força as pessoas a tomarem partido em termos excludentes e silencia posições independentes. Sua eficácia aumenta quando uma profunda crise interna se cruza com uma ofensiva militar externa, como está acontecendo hoje no Irã, após meses de protestos sociais e repressão sistemática.

O regime iraniano é indefensável, não por razões culturais ou religiosas, mas sim políticas: negação das liberdades fundamentais, perseguição à dissidência, opressão sistemática das mulheres, controle dos corpos e da vida cotidiana por meio de mecanismos legais, policiais e morais, e uso rotineiro da violência estatal. Os protestos recentes — alimentados pelo colapso econômico e rapidamente politizados — foram recebidos com censura midiática, prisões em massa e repressão letal.

A universidade, um espaço historicamente crucial, foi mais uma vez tratada como uma ameaça: presença paramilitar no campus, criminalização dos estudantes e controle direto da vida acadêmica.

Contudo, o fato de um regime ser indefensável não legitima sua destruição por meios militares externos, muito menos quando essa agressão parte de potências que fizeram da agressão unilateral, do excepcionalismo jurídico e do desprezo pelo direito internacional uma prática recorrente. A ofensiva contra o Irã não é uma cruzada pela democracia ou pelos direitos humanos: é uma operação geopolítica destinada a estabelecer controles regionais e impor pela força o que não pôde ser alcançado pela diplomacia.

Neste ponto, a retórica da “mudança de regime” reaparece como um pretexto moral. Sugere-se que os bombardeios abrirão uma oportunidade histórica para a democratização. As experiências do Iraque, da Líbia, do Afeganistão e da Síria confirmam que a intervenção imperial não produz democracia, mas sim Estados enfraquecidos, violência prolongada e sociedades fragmentadas. Longe de fortalecer as forças emancipatórias internas, a guerra externa tende a nacionalizar o conflito, fechar a esfera pública e oferecer ao poder autoritário uma narrativa de coesão forçada. E se esses precedentes já demonstravam as limitações do discurso justificativo, a experiência de Gaza acabou por destruí-lo completamente.

Em Gaza, a tentativa de construir um dilema moral simplesmente desmoronou. A escala da devastação, a destruição sistemática da infraestrutura civil, o extermínio de populações inteiras, o assassinato em massa de mulheres, meninas e meninos, e a punição coletiva infligida a mais de dois milhões de pessoas superaram qualquer estrutura de justificativa estratégica. Diante desse nível de destruição, a linguagem da autodefesa perdeu toda a credibilidade. O que se revelou não foi um conflito entre partes iguais, mas o exercício extremo do poder militar contra uma população indefesa, em flagrante violação do direito internacional humanitário e dos princípios mais básicos da humanidade.

Ainda assim, essa lógica de polarização forçada persiste no debate público.

Uma constelação de interesses convergentes reproduz esse cenário: as potências agressoras e seus aparelhos ideológicos, que moralizam a guerra para neutralizar as críticas; o liberalismo ocidental, que apresenta a democracia como um atributo externo; e o próprio regime iraniano, que usa a agressão externa para desqualificar a dissidência, rotulando-a como traição.

Esse raciocínio também faz parte de uma erosão mais ampla do direito internacional. O apelo constante à “legítima defesa”, amplamente reinterpretada, a normalização de assassinatos seletivos e o enfraquecimento dos mecanismos multilaterais obscureceram normas básicas concebidas para limitar a guerra. O direito internacional é invocado seletivamente: é exigido dos adversários e suspenso para os aliados. Assim, o uso da força deixa de ser a exceção e se torna a prática padrão da política externa.

Esse falso dilema também é reproduzido acriticamente por alguns na esquerda. Em nome do anti-imperialismo, optam por silenciar ou minimizar as críticas aos regimes autoritários, como se apontar a repressão interna enfraquecesse a denúncia da agressão externa. O efeito é o oposto: as forças democráticas locais são abandonadas, a crítica é empobrecida e a política é reduzida a uma lógica de facções, onde a solidariedade com outros povos é substituída por alinhamentos geopolíticos.

O resultado é uma tecnologia política eficaz: a dupla punição é bloqueada e o julgamento crítico é substituído por lealdades geopolíticas. Somos forçados a escolher entre o Estado repressivo e o império agressivo.

Diante dessa situação, defender princípios básicos não é uma posição confortável, mas é necessário. Requer rejeitar a ideia de que a violência externa pode substituir a política e afirmar que a soberania dos povos inclui o direito de transformar suas próprias sociedades sem supervisão militar estrangeira.

Condenar a agressão imperialista contra o Irã não implica absolver seu regime. Pelo contrário, implica levar a sociedade iraniana e suas lutas — incluindo as das mulheres — a sério, não explorar seu sofrimento e não transformar a democracia em um subproduto da destruição. A democratização — se vier a acontecer — não surgirá de mísseis ou tutela externa, mas de complexos processos internos que a guerra tende a destruir.

Entre um regime indefensável e uma agressão imperialista inaceitável e condenável, não devemos escolher lados: devemos escolher princípios. E um deles é inegociável hoje: nenhuma bomba liberta um povo, nenhuma guerra constrói a democracia. Nem teocracia nem império, não à guerra…

"A leitura ilumina o espírito".

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