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China, Índia e Rússia construíram seus próprios sistemas de pagamento; o Brasil continua refém da Visa e da Mastercard, transformando cada compra com cartão em remessa de riqueza para o exterior
1.
No capitalismo contemporâneo, o poder econômico não se exerce apenas por meio da produção de bens ou do controle de recursos naturais. Ele se manifesta, cada vez mais, através do domínio das infraestruturas que organizam a circulação do dinheiro, dos dados e das transações digitais. Entre essas infraestruturas, os sistemas de pagamento tornaram-se uma das engrenagens estratégicas da economia global.
Nesse contexto, os sistemas de pagamento tornaram-se uma das infraestruturas estratégicas da economia digital. Cartões de crédito, plataformas de pagamento e redes financeiras internacionais constituem hoje uma espécie de sistema circulatório invisível que conecta consumidores, bancos e empresas em escala planetária.
O mercado de cartões no Brasil ilustra com clareza essa transformação. A cada compra realizada com cartão de crédito ou débito, uma complexa arquitetura tecnológica é ativada para autorizar, registrar e liquidar a operação. Esse processo ocorre em frações de segundo e movimenta trilhões de reais por ano, consolidando os meios eletrônicos de pagamento como um dos pilares da economia contemporânea.
Entretanto, por trás dessa aparente modernização financeira esconde-se uma estrutura altamente concentrada. No Brasil, a infraestrutura que organiza grande parte dessas transações é controlada por três bandeiras internacionais – Visa, Mastercard e American Express – que operam como intermediárias obrigatórias entre consumidores, bancos e comerciantes.
Essa posição dominante não se limita à gestão técnica das redes de pagamento. Ela implica também um fluxo permanente de receitas obtidas por meio de tarifas, licenças tecnológicas e remuneração de rede. Em cada transação realizada no território brasileiro, uma parcela do valor movimentado é apropriada por empresas sediadas no exterior.
O crescimento do setor ajuda a dimensionar essa dinâmica. Nos últimos anos, o uso de cartões expandiu-se rapidamente no país, impulsionado pela digitalização do sistema financeiro e pela redução do uso de dinheiro em espécie. Em 2024, o volume de transações com cartões ultrapassou quatro trilhões de reais, consolidando o Brasil como um dos maiores mercados de pagamentos eletrônicos do mundo.
Esse crescimento, contudo, não representa apenas modernização financeira. Ele também evidencia a consolidação de um modelo de dependência tecnológica e institucional no qual o país participa como grande mercado consumidor, mas não controla a infraestrutura estratégica que organiza sua própria circulação monetária.
2.
A relevância do mercado brasileiro para as grandes operadoras internacionais não pode ser subestimada. Com mais de duzentos milhões de habitantes e dezenas de milhões de usuários de cartões, o país tornou-se um dos ambientes mais rentáveis do sistema global de pagamentos.
Esse peso demográfico transforma o Brasil em um ativo estratégico para as empresas que controlam as redes internacionais de cartões. Quanto maior o volume de transações processadas, maior é a captura de receitas por meio das diversas taxas associadas à operação do sistema.
A lógica de funcionamento desse mercado cria um fluxo contínuo de renda direcionado para o exterior. Tarifas de conectividade, licenças de tecnologia, royalties de marca e remessas de lucros constituem mecanismos pelos quais parte do valor gerado na economia brasileira é transferida para os centros financeiros que controlam a infraestrutura digital de pagamentos.
Trata-se de uma forma contemporânea de rentismo financeiro. Diferentemente da produção industrial ou da prestação direta de serviços, essas receitas derivam do controle de uma plataforma tecnológica que organiza o funcionamento do sistema de pagamentos. Quem controla a rede captura parte da riqueza produzida por todos os demais participantes.
Nesse sentido, as bandeiras internacionais não operam apenas como facilitadoras de pagamentos. Elas funcionam como proprietárias de uma infraestrutura essencial da economia digital.
Essa estrutura de controle ganha uma dimensão ainda mais ampla quando analisada no contexto do que diversos analistas têm chamado de colonialismo digital. Na economia contemporânea, a infraestrutura que organiza a circulação de dados, algoritmos e fluxos financeiros tornou-se um dos principais centros de poder global.
No caso brasileiro, grande parte dessa infraestrutura encontra-se sob domínio de corporações estrangeiras. Serviços de computação em nuvem, plataformas digitais, sistemas de pagamento e tecnologias proprietárias são frequentemente controlados por empresas sediadas nos Estados Unidos ou na Europa.
Essa dependência tecnológica produz efeitos que vão além da esfera econômica. Ela envolve também questões relacionadas ao controle de dados, à soberania regulatória e à capacidade de formular políticas públicas autônomas no campo financeiro.
Quando uma parcela significativa das transações financeiras de um país depende de redes controladas por empresas estrangeiras, o espaço de decisão nacional torna-se mais limitado. A economia doméstica passa a operar dentro de uma arquitetura tecnológica cujas regras são definidas fora de seu território.
Nesse cenário, a circulação de dados financeiros também assume relevância estratégica. Parte dessas informações trafega por servidores submetidos à legislação de outros países, o que levanta questionamentos sobre segurança digital, privacidade e autonomia institucional.
3.
O impacto dessa estrutura torna-se visível quando analisamos os componentes do balanço de transações correntes do Brasil. Em 2024, o país registrou um déficit de aproximadamente US$ 55 bilhões, composto em grande medida por pagamentos de juros, remessas de lucros e despesas com serviços tecnológicos e financeiros. Parte desse fluxo está diretamente associada às infraestruturas digitais controladas por corporações estrangeiras, incluindo as redes internacionais de cartões, que capturam receitas por meio de tarifas, licenciamento de tecnologia e participação nas transações realizadas no mercado brasileiro.
Essa dinâmica aparece de forma particularmente clara quando se constata a composição do déficit em transações correntes do Brasil. Embora frequentemente tratado como indicador macroeconômico abstrato, o déficit externo reflete fluxos concretos de pagamento que o país realiza ao restante do mundo.
Entre esses fluxos encontram-se juros pagos a investidores estrangeiros, remessas de lucros de empresas multinacionais e pagamentos por serviços digitais e tecnológicos. No interior desse conjunto, os sistemas internacionais de cartões representam um componente pouco discutido, mas significativo.
As operadoras globais de pagamento recebem receitas provenientes de diversas fontes: tarifas associadas às transações, licenciamento de tecnologia, uso de marca e participação nos resultados das operações realizadas no mercado brasileiro. Essas receitas são posteriormente transferidas para as matrizes localizadas no exterior.
Embora individualmente possam parecer modestas, essas remessas tornam-se relevantes quando consideradas ao longo do tempo e em conjunto com outras formas de transferência de renda associadas à economia digital.
O resultado é a formação de um déficit invisível: um conjunto de fluxos financeiros que drenam recursos da economia doméstica sem receber a mesma atenção que outras formas tradicionais de dependência econômica.
No caso das bandeiras americanas de cartões de credito não é um detalhe técnico que compõem o déficit em transações correntes, é a materialização de um modelo de dependência econômica, que não produz um prego. Elas funcionam como uma válvula de drenagem de riqueza, que nos últimos três anos extraiu US$ 13,1 bilhões (~R$ 60 bilhões), da nossa atividade econômica formal que foram enviadas para o exterior sob a forma de pagamento por uma infraestrutura digital essencial, montada para encarecer os nossos produtos internamente e sugar parte do nosso sangue.
Como já observava Celso Furtado, o subdesenvolvimento não se resume à ausência de desenvolvimento, mas resulta de uma inserção subordinada na economia internacional. No capitalismo digital, essa lógica reaparece sob novas formas, agora associada ao controle das infraestruturas financeiras e tecnológicas que organizam os fluxos globais de valor.
4.
Essa situação contrasta com estratégias adotadas por outros países emergentes. Nas últimas décadas, diversas economias buscaram desenvolver sistemas próprios de pagamento como forma de reduzir a dependência de infraestruturas financeiras controladas por empresas estrangeiras, como o caso de alguns países que compõem o BRICS junto com o Brasil

A comparação com outros países do BRICS revela que os sistemas de pagamento se tornaram instrumentos estratégicos de soberania econômica. A China construiu e consolidou o sistema UnionPay como instrumento dominante de seu mercado doméstico e como instrumento de expansão financeira internacional. A Índia desenvolveu a rede RuPay com forte apoio estatal e integração a políticas de inclusão bancária. Após as sanções internacionais de 2014, a Rússia criou o sistema Mir para garantir autonomia no processamento de pagamentos domésticos. Essas experiências revelam que os sistemas de pagamento não são apenas instrumentos técnicos. Eles também constituem elementos estratégicos de política econômica e geopolítica financeira.
O Brasil apresenta um quadro mais ambíguo. De um lado, iniciativas como o Pix demonstraram a capacidade do país de desenvolver infraestrutura pública inovadora no campo dos pagamentos digitais. De outro, o mercado de cartões permanece amplamente dominado por redes estrangeiras.
Essa dualidade revela a ausência de uma estratégia mais ampla de soberania financeira digital.
O debate sobre os meios de pagamento costuma ser tratado como tema técnico restrito ao setor financeiro. No entanto, suas implicações são muito mais amplas. Controlar a infraestrutura que organiza os pagamentos significa controlar parte significativa da circulação econômica de uma sociedade.
Em um mundo cada vez mais digitalizado, as redes de pagamento tornaram-se equivalentes às antigas rotas comerciais ou às grandes infraestruturas logísticas do passado. Elas definem quem participa das trocas econômicas, quais regras regulam essas transações e quem captura parte do valor gerado por elas.
A questão central que se coloca para o Brasil é simples, mas profunda: o país continuará operando como grande mercado consumidor de infraestrutura financeira estrangeira ou buscará construir maior autonomia na organização de seu próprio sistema de pagamentos?
Responder a essa pergunta exige reconhecer que a economia digital não é apenas um espaço de inovação tecnológica. Ela também é um campo de disputa política, econômica e geopolítica.
Se o Brasil pretende desempenhar papel relevante nesse cenário, precisará decidir se continuará apenas utilizando plataformas construídas por outros ou se assumirá o desafio de participar ativamente da arquitetura financeira do futuro.
O paradoxo brasileiro torna-se evidente quando se observa a coexistência entre duas infraestruturas de pagamento distintas. De um lado, o país desenvolveu o Pix, uma das plataformas públicas de pagamentos instantâneos mais avançadas do mundo. De outro, permanece amplamente dependente das redes internacionais de cartões para grande parte das transações eletrônicas. Essa dualidade revela que a inovação tecnológica, por si só, não resolve o problema da soberania financeira.
Nesse contexto, a disputa em torno da infraestrutura global de pagamentos tende a se intensificar nos próximos anos. A entrada de novas redes internacionais, a expansão de sistemas nacionais e o avanço de plataformas digitais apontam para uma reconfiguração em curso da arquitetura financeira global. Para o Brasil, compreender essa transformação será fundamental para definir seu lugar na economia digital do século XXI.
*Carlos A. P. Vasques, economista, é pós-graduado em Administração, Finanças e Contabilidade pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio).
Referências
Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).
Banco Central do Brasil.
Relatórios financeiros das empresas Visa, Mastercard e American Express.
"A leitura ilumina o espírito".
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