Mortes por desespero

Imagem: Gary Meulemans

Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*

Nos EUA, o desespero mata ao romper trajetórias que um dia foram estáveis; no Brasil, ele não mata, organiza a vida como cansaço difuso, porque aqui a instabilidade nunca foi exceção, mas a regra histórica

1.

Por muitos anos, a noção marxista de dependência apresentou uma forte lente interpretativa para entender a América Latina. Escritores como Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos mostraram que o subdesenvolvimento não era apenas um adiamento, mas sim um tipo especial de inserção no capitalismo global. Foi uma interpretação decisiva porque mostrava em sua realização que a dependência era feita por transferência de valor, superexploração do trabalho e subordinação produtiva.

No entanto, algo mudou. Após a crise financeira de 2008, tornou-se cada vez mais evidente que esse aparato conceitual já não conseguia explicar adequadamente a realidade. Não estava errado, era simplesmente inadequado quando confrontado com uma mutação histórica maior. O capitalismo não apenas reformulou sua base econômica; começou a reconfigurar a própria natureza do tempo.

Nessa transformação, percebeu-se a necessidade de uma nova linguagem teórica, na qual a dependência era entendida não apenas como uma relação econômica, mas como um modo histórico de controle sobre o tempo social. Não era o momento de descobrir essa mudança, mas sim de vivê-la. Em algum momento, era difícil não notar todos os dispositivos de avaliação. O gerente pede uma avaliação, o aplicativo requer validação, a farmácia apresenta um painel com “rostos” que solicitam reação instantânea.

A vida começou a ser medida de forma contínua. Essa proliferação de métricas não é incidental. Revela uma profunda reorganização da vida social. Avaliar não é uma mera medida; é impor ritmo, acelerar respostas, reduzir o intervalo entre ação e julgamento. E então algo se torna evidente: o intervalo entre o ato de fazer e o ato de ser avaliado desaparece. O presente já não tem sua duração, mas é capturado instantaneamente.

Neste ponto, “a ficha cai”: não é apenas uma medida, mas um meio de controle temporal. Esse sentimento também ecoa no debate global sobre o sofrimento social. Um desenvolvimento preocupante nos EUA, disseram Anne Case e Angus Deaton em seu livro Deaths of despair and the future of capitalism, é o aumento das “mortes por desespero”. Não é um surto biológico, mas uma desintegração do significado que deveria fornecer.

Populações inteiras começam a experimentar uma perda de perspectiva, trajetórias são interrompidas e projeções futuras são bloqueadas. Aqui, o sofrimento psíquico não tem mediação e se torna ruptura. A morte vem como resultado de uma vida que perdeu sua continuidade, e nenhuma continuidade é historicamente defendida. O desespero mata nesse caso porque interrompe uma trajetória que tínhamos algum senso de propósito que sempre foi um tanto estável.

2.

É outra questão no Brasil, porém, onde uma história diferente se torna disponível. Não há “mortes por desespero” aparentes ao longo da mesma trajetória concentrada, mas certamente não é um indicativo de menos sofrimento. Pelo contrário, sugere algo mais profundo.

O sofrimento psíquico não se manifesta como ruptura, mas sim como continuidade. Não rompe a vida; ordena a vida. A instabilidade não é uma realidade presente, mas histórica. Não há trajetória que se quebre; ao contrário, há uma vida, por assim dizer, que se forma até o presente diante da dúvida. Ansiedade, fadiga e urgência não são mais sinais, mas comportamentos a serem usados. O sofrimento desaparece como um problema à luz de sua coexistência com a norma.

A vida não é vivida sob pressão como um colapso, mas como a existência de um ser comum. Essa diferença precisa de uma reconstrução teórica. Através de sua própria elaboração, pode-se demonstrar que a dependência do contemporâneo é exercida não apenas na transferência de valor, mas no controle do tempo histórico. Essa é a natureza do capital fictício: teoriza o futuro e perpetuamente reconfigura o agora.

O efeito líquido disso é uma compressão do tempo social. As instituições tornam-se mais instáveis, os projetos mais curtos e as decisões mais imediatas. Essa dinâmica assume mais intensidade devido à articulação com estruturas já instáveis em países dependentes. É quando o futuro deixa de ser um horizonte em termos das coisas para as quais foi imaginado e se torna um recurso capturado.

O tempo histórico não desaparece; é bloqueado. Esse tipo de bloqueio tem um efeito direto na vida cotidiana. Basta imaginar alguém que está procurando trabalho. Não é uma pessoa que vislumbra um caminho estável; ela lida com urgências sucessivas. Os empregos são temporários, as rendas incertas e assim é o futuro. É esse tipo de pressão imediata em que cada decisão deve ser baseada. Não há tempo para maturação, apenas adaptação. O corpo reage com tensão; a mente com aceleração; a vida com desgaste. Não se trata de uma pessoa se machucando.

É uma forma social, de sofrimento psíquico, portanto, é uma forma que dá expressão subjetiva a um tempo instável. É neste ponto que a comparação assume sua forma mais íntima. Nos Estados Unidos, o desespero se manifesta como ruptura porque interrompe uma trajetória que parou em seu caminho. No Brasil, ele se apresenta como continuidade porque organiza uma vida que nunca se tornou estável.

O sofrimento, em uma ocasião, é eruptivo; na outra, é moderado. Em um, mata; no outro, estrutura a vida cotidiana. A diferença é menos no nível de magnitude, mas na estrutura histórica. São dois regimes diferentes de sofrimento psíquico, feitos pelas várias formas de organização do tempo social. A análise levanta uma hipótese mais geral.

3.

O que está em jogo não é mais apenas um crescimento nos sentimentos de ansiedade e/ou sofrimento psíquico, mas uma mudança na própria vida. O passado como uma projeção do futuro é menos possível quando o tempo histórico está bloqueado. Sem futuro, apenas o imediato. A vida é exaustiva enquanto não há duração. O sofrimento deixa de ser uma anomalia e passa a ser uma condição. A sociedade, no entanto, ainda funciona, mas o faz dentro de um quadro temporal que limita suas próprias perspectivas de reprodução histórica.

Se o desespero nos Estados Unidos é uma ruptura que se dissipa em morte, e no Brasil como uma continuidade que ordena a vida, que tipo de forma social é essa onde o sofrimento psíquico deixa de ser uma exceção e começa a ser uma condição estrutural – e o que isso nos diz sobre o impasse do tempo histórico como uma característica essencial da dependência contemporânea? EUA: sofrimento como ruptura mensurável.

Nos EUA, as evidências empíricas estudadas por Anne Case e Angus Deaton em Deaths of despair and the future of capitalism revelam um aumento nas chamadas mortes de desespero entre 1999 e 2019. As estatísticas mostram um grande aumento nas mortes por overdose de opioides, suicídio e doenças hepáticas relacionadas ao álcool – especialmente entre trabalhadores brancos sem educação universitária.

Esse fenômeno é estatisticamente observável. A expectativa de vida, que costumava estar em ascensão, estagnou por algum tempo. As evidências empíricas indicam uma ruptura: trajetórias sociais que eram relativamente estáveis desmoronam. Nesse meio, o sofrimento psíquico torna-se visível à medida que se transforma em mortalidade. O desespero, nesse sentido, é um evento extremo, mensurável, concentrado. Brasil: a difusão do sofrimento empiricamente.

No Brasil, as evidências empíricas assumem outra forma. Segundo dados do Ministério da Saúde, a prevalência de transtornos de ansiedade e depressão tem aumentado ano a ano, assim como o uso de medicamentos psicotrópicos. De fato, os transtornos mentais, que já estão entre as principais causas de afastamento, refletem-se em um aumento nos afastamentos segundo o INSS.

No setor educacional, estudos indicam um aumento na doença dos professores, com repetidas alegações de fadiga e burnout. Ao contrário da situação americana, no entanto, esses não convergem em um único sinal explosivo. Eles são distribuídos. O sofrimento não é descrito como uma ruptura focada, mas como algo contínuo e disperso. As evidências empíricas mostram que o mal-estar não é uma força que se interpõe na vida; ele acompanha a vida, como uma condição contínua. Evidência econômica: disrupções e bloqueios do tempo.

4.

Essa interpretação é respaldada por evidências empíricas econômicas. Entre 2008 e 2024, o Brasil viu ciclos breves de crescimento e contração, grande volatilidade cambial e frequente instabilidade fiscal. A renda média variou sem solidificar um caminho para o crescimento sustentável. A informalidade permaneceu alta em alguns momentos, com cerca de 40% da força de trabalho nesses períodos.

A maior parte das pessoas está, portanto, sem qualquer horizonte de renda estável: o mercado de trabalho está fragmentado: não há mais uma continuidade temporal. Cada um precisa reformular sua vida em resposta a rápidas mudanças no mundo. A economia, dessa forma, em uma palavra, não está apenas não distribuindo renda de forma igual – é um tempo desequilibrado. Do valor ao tempo; tempo como moeda: uma teorização e empirismo vinculado.

É nesse ponto que a hipótese se cristaliza: a dependência moderna funciona através da manipulação da história. Esse capital fictício olha para frente, reestrutura operações modernas e atribui curtos períodos de tempo para as instituições. Essa transformação resulta em evidências empíricas: aumento da volatilidade econômica, ciclos encurtados das instituições, avaliação intensificada e crescente sofrimento psíquico.

Não se espalham esses elementos. Eles compõem uma totalidade. O tempo não mais como horizonte, torna-se uma variável determinada e controlável. Para muitos países dependentes, essa dinâmica é ainda mais pronunciada ao se combinar com estruturas historicamente frágeis. A consequência é um bloqueio do tempo histórico, um desafio de sustentar processos prolongados de desenvolvimento social. O tangível: viver sem um tempo.

As evidências empíricas são evidências na concretude da existência cotidiana. Um buscador de emprego não vislumbra uma carreira, mas lida apenas com a sobrevivência. Dados do IBGE mostram alta rotatividade e conexões frágeis. Cada ocupação, cada renda incerta, cada decisão desesperada. O tempo fragmenta-se. O planejamento não tem continuidade suficiente. O presente torna-se um lugar de adaptação contínua. Ansiedade e sofrimento psíquico são gerados em resposta a essa instabilidade.

Ansiedade, fadiga e insegurança dificilmente são exceções individuais, mas efeitos estruturais. A vida é vivida sob compressão temporal. Duas formas de sofrimento na prática que se baseiam no regime empírico. A comparação possibilita identificar dois regimes empiricamente diferentes. Nos EUA, o sofrimento aparece como uma ruptura mensurável, manifestando-se através de sua presença como uma quebra mensurável, como uma ruptura observável que é medida, em medidas de mortalidade.

5.

No Brasil, ele se reduz ao mesmo sistema de distribuição como uma disseminação contínua em várias métricas: saúde mental, emprego inseguro, emprego instável, cuidado com professores, doença de professores, saúde de professores. O desespero, em um caso, interrompe a vida em um instante, e a organiza em outro. A diferença não é que não sofremos, mas que o experimentamos empiricamente.

Estes são dois modos de tempo da história vividos sob o capitalismo hoje. Tempo como o bloqueio da síntese empírica. Conclusões consistentes podem ser tiradas da síntese dos dados. A dependência moderna não se limita à economia. Ela se articula em como a estrutura não pode mais carregar consigo tempos históricos. A turbulência econômica, a decadência institucional e a transmigração do sofrimento psíquico são produtos do mesmo processo: a interposição do tempo histórico.

O futuro desaparece como um horizonte que organizará o mundo quando o tempo se estende, e a necessidade premente de viver agora torna a vida exaustiva. O sofrimento não é mais uma anomalia; torna-se, ao contrário, a condição normal da vida social.

Pergunta final. Se há evidências empíricas de que o desespero nos Estados Unidos se concentra em rupturas que levam à morte, enquanto no Brasil ele se difunde como uma condição permanente da vida, que forma o sofrimento psíquico recebeu na forma histórica na forma de sofrimento psíquico estrutural e o que isso revela sobre o controle da história e o que isso nos diz sobre o papel do tempo histórico como o núcleo da dependência contemporânea?

Se a prevalência do capital fictício remodela a economia ao operar sobre o futuro, seu impacto principal não é econômico, mas histórico. Por mais que o mercado antecipe o fato de que o capital será ampliado, o valor do tempo é um objeto de manipulação, não apenas a expectativa de aumento do capital.

O capital fictício não é apenas o empréstimo de fluxos financeiros; ele se apropria da duração. Ele esvazia o futuro como um horizonte aberto e o transforma em um cálculo permanente, ao antecipar constantemente as expectativas. Aqui, então, o presente é um local de desordem, de modo que o presente não constitui um bloco de construção e o presente se torna um lugar para ajustes.

A crueldade dessa forma de acumulação não é apenas que leva à desigualdade, mas que rouba das sociedades a possibilidade de organizar sua própria temporalidade. Assim, a dependência vai ainda mais longe: começa a funcionar em relação à própria possibilidade da história. Essa transformação tem um efeito silencioso, mas devastador. A experiência de vida também muda quando o tempo histórico se estreita.

O tempo que os projetos precisam para tomar forma, os relacionamentos precisam para se consolidar, os pensamentos precisam para se formar, é muito limitado. A vida continua, mas enfraquece. A vida é uma série de ciclos curtos, repetitivos e urgentes, nos quais cada ato precisa ser imediatamente revalidado.

O sujeito não mais habita o tempo; ele simplesmente reage a ele. A experiência não se acumula, mas começa a se fragmentar. Esse sofrimento psíquico não é uma acumulação, mas sim uma espécie de inscrição do corpo neste novo momento. A ansiedade, a fadiga e a constante sensação de inadequação assumem a qualidade de uma vida que não tem mais tempo para se tornar.

6.

Em países dependentes, essa condição se manifesta de forma muito mais radical. A instabilidade histórica que sempre caracterizou essas sociedades agora encontra um regime de acumulação que intensifica essa característica. O capital fictício não cria instabilidade, mas a acelera e a generaliza. O que obtemos é uma vida social organizada na impossibilidade de estabilização.

As instituições não amadureceram, as políticas nunca se solidificaram, as trajetórias não se estabilizaram. O tempo histórico não desaparece, mas se torna inviável. As sociedades estão vivas, mas não em um horizonte que permita a construção de projetos coletivamente. É por isso que a dependência contemporânea pode ser descrita como dependência temporal: não apenas uma escassez de recursos, mas também uma escassez de tempo. Isso cria uma inversão radical.

Na modernidade, a história era considerada um local de possibilidade. O futuro era o que ainda não estava decidido, mas poderia ser feito em conjunto. Agora, com o advento do capital fictício, o futuro se tornou não uma possibilidade, mas uma expectativa em cativeiro. Ele chega hoje como uma demanda, não uma abertura. A sociedade passa a estar viva em um período consumido por antecipações que não pode governar. O resultado é uma espécie de existência em que o ato de ação coletiva se torna cada vez mais impossível.

Sem tempo, não há política; sem duração, não há projeto; sem horizonte, não há história. É aqui que a análise se expande além da crítica econômica e entra em uma esfera ontológica. A questão não é mais apenas o que o capital faz com a riqueza, mas o que faz com o tempo. Ele redefine o que é viver ao gerenciar o tempo. A vida deixa de ser organizada por processos que ocorrem ao longo de longos períodos e passa a ser estruturada em uma série de reações instantâneas a estímulos incessantes.

O sujeito não desaparece, mas se altera. Ele se torna um operador de urgências, uma pessoa que lida com demandas sem conseguir colocá-las em uma narrativa de continuidade. O sofrimento psíquico, nesse sentido, é a manifestação dessa ruptura de continuidade no plano da experiência. Agora, este é apenas o começo de todo o texto que você pode interpretar aqui.

O desespero nos Estados Unidos mata porque rompe caminhos que foram interrompidos pela perda de apoio. No Brasil, coloca a vida em ordem porque a própria vida já é formada sobre a impossibilidade de estabilização. A ruptura é em um caso visível; no outro, tornou-se duradoura. O que é alterado não é o fato do sofrimento, mas seu aspecto histórico. O desespero não é mais um evento; é uma estrutura. Ele não rompe o tempo; ele o acompanha.

Essa realização é uma demanda teórica e política. Quando a dependência contemporânea se torna real como controle sobre o tempo histórico, confrontá-la exige redescobrir o poder de criar duração. Não se trata apenas de redistribuir recursos ou reorganizar a produção, mas de reconstruir as condições temporais da vida social.

Significa criar instituições que possam processar longos cursos, políticas não constantemente interrompidas, espaços nos quais o pensamento possa surgir sem a pressão constante de ser uma emergência. E é realmente devolver o tempo à sociedade. E ainda assim a tarefa não pode ser entendida como apenas voltar no tempo. A mutação já aconteceu. A relação entre presente e futuro foi dramaticamente reordenada pelo capital fictício.

O desafio não é recuperar uma temporalidade perdida, mas inventar novos tipos de duração dentro das condições históricas presentes. Isso significa que a ideia de que o tempo mudou para um reino de disputa. Quem possui o tempo controla a possibilidade de existência histórica. Essa disputa torna-se particularmente decisiva em sociedades dependentes, onde é na disputa que a possibilidade de romper com a própria noção de dependência se torna clara.

A questão deixada em aberto, então, não é apenas descritiva, mas radicalmente prática. Se o capital gerencia o tempo, e ao fazê-lo rearranja a vida social de tal forma que produz uma urgência persistente, como podemos construir uma experiência histórica que possa fornecer significado e projeto tanto quanto duração e significado – e sob quais condições seria necessário para que o tempo voltasse a pertencer à vida e não ao seu cativeiro?


*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].


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