
Já se passaram cinquenta anos desde o golpe de Estado de 24 de março de 1976, um dos capítulos mais trágicos da história recente da Argentina: uma ditadura que combinou terrorismo de Estado com uma transformação estrutural de sua economia. Ao longo do século XX, o país vivenciou seis interrupções de sua ordem democrática — em 1930, 1943, 1955, 1962, 1966 e 1976 —, mas o último golpe inaugurou o ciclo mais violento. Em coordenação com outras ditaduras do Cone Sul e com o apoio do governo dos Estados Unidos, o regime militar executou um plano sistemático de repressão, desaparecimentos e disciplina social.
Os números servem para ilustrar a magnitude do horror: 30.000 pessoas desaparecidas, mais de 900 centros clandestinos de detenção, tortura e extermínio, cerca de 500 crianças confiscadas e quase meio milhão de exilados. Longe de serem excessos isolados, esses crimes constituíram uma política de Estado deliberada. Não foram desvios de um sistema, mas sim a sua linguagem. A violência não foi um excesso; foi o método. A repressão foi coordenada em escala regional por meio da Operação Condor, que integrou Argentina, Chile, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia em um sistema de perseguição transnacional. A violência não buscava apenas eliminar opositores: visava desmantelar organizações sociais, enfraquecer a capacidade de resistência coletiva e impor uma nova ordem. A ditadura não apenas silenciou a democracia: reconfigurou a estrutura produtiva do país. O objetivo era substituir um modelo industrial orientado para o mercado interno por um baseado na especulação financeira, na abertura externa e no endividamento.
Nesse contexto, ocorreu uma das mais profundas redistribuições de renda regressivas da história argentina. A participação dos trabalhadores na renda nacional caiu de 45% para 25% entre 1976 e 1977. A desvalorização de 1978 corroeu ainda mais os salários, enquanto entre 1976 e 1983 mais de 20.000 fábricas fecharam e o emprego industrial declinou de forma constante. O ataque ao mundo do trabalho foi sistemático. Os direitos trabalhistas foram eliminados, a atividade sindical foi restringida e a capacidade de negociação coletiva foi enfraquecida — efeitos que persistiram mesmo após o retorno à democracia. Ao mesmo tempo, a dívida externa multiplicou-se, ultrapassando US$ 45 bilhões, dinheiro que foi amplamente utilizado para financiar a fuga de capitais. Uma parcela substancial da dívida privada também foi nacionalizada, transferindo seus custos para a sociedade como um todo.
As consequências sociais foram imediatas: entre 1974 e 1982, a pobreza subiu de 4,6% para 22%, o PIB per capita caiu 14% e a indústria contraiu 15%. Assim, consolidou-se um modelo econômico baseado no setor primário, dependente de financiamento externo e vulnerável aos ciclos internacionais. O legado desse processo não foi apenas econômico. Deixou também uma estrutura de poder que moldou o desenvolvimento do país por décadas, com o Fundo Monetário Internacional atuando como ator central na gestão da dívida e suas consequências políticas.
Jorge Luis Borges, talvez o escritor mais importante da literatura argentina, assistiu a uma sessão do histórico julgamento das juntas militares em 1985, onde foi cunhada a frase que se tornaria um lema e símbolo da luta das organizações de direitos humanos em todo o mundo: Nunca Mais. Naquele dia, ele ouviu o corajoso depoimento de Víctor Basterra. Sequestrado em 1979 junto com sua esposa e filha, Basterra foi levado para a ESMA, o maior centro de detenção clandestino do país. Artista gráfico, ele suportou torturas durante o cativeiro e conseguiu, em segredo, tirar e guardar fotografias tanto de outros detentos quanto de seus captores. Essas imagens foram e continuam sendo fundamentais para a condenação dos militares nos julgamentos que prosseguem até hoje. Depois de ouvi-lo, e comovido por essa experiência, Borges descreveu com maestria o cinismo e a crueldade dos torturadores.
De todas as coisas que ouvi naquela tarde e que espero esquecer, vou relatar aquela que mais me afetou, para me libertar dela. Aconteceu em 24 de dezembro. Levaram todos os prisioneiros para uma sala onde nunca tinham estado antes. Não sem certo espanto, viram uma longa mesa posta. Viram toalhas de mesa, pratos de porcelana, talheres e garrafas de vinho. Então, chegaram as iguarias. Era a ceia de Natal. Eles tinham sido torturados e sabiam muito bem que seriam torturados no dia seguinte. O Senhor daquele Inferno apareceu e desejou-lhes um Feliz Natal.
Meio século após o início da ditadura, o rumo econômico do governo de Javier Milei continua seguindo a mesma trajetória traçada pelo regime militar. Os planos parecem ser cópias fiéis dos da ditadura, e a persistência de um programa que reproduz um padrão familiar com consequências nefastas para os trabalhadores e suas famílias é evidente: concentração de riqueza, endividamento, desindustrialização e deterioração das condições de vida. Isso não é apenas um programa econômico, mas sim a predominância dos mesmos grupos econômicos que conduzem o país de acordo com seus próprios interesses.
A relação entre Washington e Buenos Aires está se configurando novamente sob uma lógica de dependência enraizada na última ditadura. O que aconteceu na Argentina não pode ser visto isoladamente, mas sim como parte de um padrão regional no qual diversos países latino-americanos buscam se reintegrar à economia global em condições de dependência, por meio de ciclos de endividamento e austeridade.
No entanto, a história da Argentina também é uma história de resistência. Cinquenta anos após o golpe, a memória dos 30 mil desaparecidos persiste, mas a atuação contínua das organizações de direitos humanos serve como alicerce ético e político a partir do qual amplos setores da sociedade questionam os rumos do país.
Este artigo foi escrito por Globetrotter.
Comentários
Postar um comentário
12