
imagem: Thought Catalog
Por SERAPHIM PIETROFORTE*
Debater com fascistas não é diálogo, é alimentar a armadilha de quem mente, edita e foge — como Garuda diante da tartaruga que venceu pela trapaça, não pela corrida
O debate, evidentemente, é preferível à opacidade; se para quaisquer medidas, das precisas, derivadas de aparelhos sensíveis e apurados, às hipóteses fantasiosas, sempre há variação – haja vista a distribuição gaussiana ou lei dos erros –, cabe indagar pela incerteza enquanto critério de bom senso, colocando-se, em xeque, quaisquer afirmações fundamentadas na tenacidade.
No Banquete, um dos célebres diálogos de Platão, o tema do debate é o amor; para tanto, contribuem Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Alcibíades e Sócrates, quem alude, nas argumentações, a Diotima. As alegações de cada participante são inteligentes e proveitosas, ninguém parece néscio ou estulto, nem mesmo Alcibíades, quem chega ébrio e logo após os testemunhos; importa antes participar que vencer a qualquer preço, afinal, a verdade, com suas muitas faces, revela-se, parcialmente, em cada exposição.
Diante disso, cabe, ainda, outra indagação: qual valor e que proveitos se tira de confrontos disseminados pelo Youtube, tais quais Paulo Bilynskyj vs. Breno Altman ou Lucas Pavanato vs. Júpiter Pimentel, nos quais abundam tolices e nada ou quase nada se debate?
Fascistas desconhecem ciências humanas
Em Metamorfoses, o poeta latino Ovídio discorre sobre o debate entre Ulisses e Ajax a propósito de quem mereceria herdar o escudo de Aquiles, morto, traiçoeiramente, por Páris. Para se garantir, Ajax argumenta, buscando ofender, que Ulisses não merece o espólio pois, sendo fraco, não conseguirá empunhar o escudo; Ulisses, contrapondo-se, afirma que, se teve força suficiente para carregar, nos braços, Aquiles com suas armas, certa e tranquilamente levantará somente o escudo.
Ademais, Ulisses, nos argumentos finais, indaga, a Ajax, de que valeria um escudo, ornado de variados símbolos, a quem jamais seria capaz de entendê-los. E assim, derrotado em força e em inteligência, Ajax, reconhecendo o malogro – algo humilhante –, joga-se sobre a própria espada, suicidando-se.
Ora, os heróis citados são personagens fictícios das epopeias de Homero e demais obras de arte inspiradas neles; ninguém espera, evidentemente, que debatedores, no século XXI e via internet, suicidem-se ao fracassar. Todavia, nada obsta esperar, ao menos, alguma inspiração na ira de Aquiles, nos ardis de Ulisses ou na coragem de Ajax em vez de optar, quase sempre, pelas covardias de Páris; chama atenção, na passagem citada, como, entre pessoas de honra e palavra, as pendências se resolvem – seguramente, ninguém imaginaria que, após o revês, Ajax assassinaria Ulisses, surrupiando-lhe o escudo.
Isso posto, cabe indagar, séculos depois de Homero, o sentido de debater, em especial, temas políticos, veiculados, em particular, pelo Youtube. Para tanto, recorre-se ao debate, promovido pela Rádio + Brasil, entre Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, e três comunicadores de direita. Não se trata de reagir ao debate em sua totalidade, que foi bastante pífio, não devido às intervenções do dirigente do PCO, mas às custas das desinformações históricas dos direitistas e da decorrente falta de espírito crítico, capazes de inviabilizar quaisquer discussões. A certa altura da lereia, uma senhora apontava, buscando desqualificar a direita, as baixas de guerra da Revolução Russa e da Revolução Cubana.
Ora, buscando pelos equívocos mais cabais do palavrório, eis como retificar alguns deles: (i) toda revolução armada é sangrenta, pois se baseia em lutas de classes, nas quais os exploradores se recusam a abdicar de seus interesses, haja vista, na modernidade, a Independência dos Estados Unidos, com 25.000 a 70.000 mortos, e a Revolução Francesa, considerando os conflitos e o período chamado Terror, com 140.000 mortos; (ii) assim, se toda revolução envolve derramamento de sangue, indaga-se por que culpar apenas as revoluções socialistas, excluindo, da lista, as revoluções burguesas, certamente, defendidas pela direita.
(iii) A Revolução Francesa, embora simbolize a revolução burguesa, representa apenas sua etapa mais contundente, afinal, tal processo se inicia bem antes, em crises tais quais a Revolução de Avis, no século XIV, atravessa a Comuna de Paris, em 1871, e, em muitos países, praticamente ainda não terminou; (iv) nessas circunstâncias, a Revolução Russa parece apenas o início de um processo histórico ainda em desenvolvimento.
(v) Ademais, revoluções pautados por igualdade social são mais frequentes na história da humanidade do que se costuma pensar, basta consultar a obra O despertar de tudo – uma nova história da humanidade, de David Graeber e David Wengrow, na qual sobejam exemplos de movimentos assim, já no Neolítico.
No decorrer da arenga, os direitistas declinaram discutir, recusando-se a aprender com as réplicas de Rui Costa Pimenta, quem conhece bem os processos históricos questionados; insistindo ostensivamente nas mesmas desinformações, não houve progressos no debate. Na farfalheira, os direitistas, valendo-se das convicções do dirigente do PCO sobre a liberdade de expressão, buscavam, sem as devidas considerações, igualar ideias divergentes; vale lembrar, para o PCO, a liberdade de expressão deve ser irrestrita, enquanto, para a direita, tal liberdade se restringe a eles.
Mesmo assim, para direitistas, de raciocínios rasos, todo se nivela; pergunta-se, novamente, por que insistir nessas discussões, nas quais fascistas se aproveitam da dignidade da esquerda para embustear.
Fascistas desconhecem boas maneiras
Outro debate infeliz, indubitavelmente, consta no canal do Youtube Três Irmãos, entre o deputado Paulo Bilynskyj, de extrema direita, e o jornalista Breno Altman. Pois bem, não parece exagero afirmar que há mais honestidade na luta livre – quando, nos Gigantes do Ringue, Satã, Homem Montanha ou a Múmia Negra enfrentavam Índio Comanche ou Coringa Sete –, do que nesse debate.
Em nenhumas circunstâncias, justifica-se assistir às desinformações históricas do debutado, quem insistiu em defender criminosos da Segunda Guerra Mundial; melhor acompanhar as comunicações de Breno Altman sobre temas similares no canal do Youtube Opera Mundi, fundado por ele em 2008, afinal, o jornalista conhece profundamente aquele e outros tópicos de ciência política, sociologia e história.
Ao cabo das discussões incipientes, em parte devido às imperícias do deputado, quase nada se conclui; o delegado, covardemente, abandonou o programa, ao que tudo indica, satisfeito com a própria brutalidade, cabendo indagar, ainda, qual o saldo de encontro tão desastroso além de regozijar com as constantes derrotas do extremista, ademais, em nada surpreendentes.
Em vista disso, sugere-se comparar tal desastre com outro debate, promovido pelo mesmo canal, então, entre dois cavalheiros: o mesmo Breno Altman e o professor Nildo Ouriques, docente titular em economia da UFSC. Na contenda, ninguém mente; ambos discordam educadamente; nenhum dos dois abandonou a conversa, porquanto se tratara de pessoas civilizadas, buscando, antes de pelejar, por soluções e esclarecimentos.
Fascistas desconhecem a lisura
Por fim, um último exemplo: o vereador de extrema direita Lucas Pavanato versus o ativista cultural Júpiter Pimentel discutindo gênero. Sugere-se, para tanto, assistir ao depoimento de Pimentel no canal do humorista Thiago Santinelli, também no Youtube, quando se desmascararam as manipulações do vereador ao editar o debate, buscando se favorecer, em seus próprios meios de comunicação, em redes sociais.
No canal de Thiago Santinelli, com a presença de Júpiter Pimentel, veicularam-se cenas inteiras das discussões, das quais Júpiter sai vencedor, sempre mal respondidas ou mal interpretadas pelo vereador; o próprio Thiago Santinelli mostra as duas versões da contenda, a integral e a editada, cabendo indagar, outra vez, qual o valor de debater em condições pautadas por tamanha aleivosia.
Ademais, o senhor Lucas Pavanato, recentemente, costuma visitar o campus da Universidade de São Paulo na zona oeste, intentando, com sua torpeza, provocar estudantes e professores, desfiando-os para debater. Pois bem, parece que o vereador desprezando o ensino superior, desconhece a hierarquia acadêmica; a carreira docente, na universidade, estrutura-se em etapas, às quais se superam mediante teses, publicações, concursos, trabalhos de orientação e pesquisa em nível de pós-graduação.
Sendo assim, após fazer iniciação científica, há o mestrado, seguido do doutorado; uma vez na carreira acadêmica, há, ainda, os concursos de livre-docência e de professor titular. Nessas circunstâncias, antes de desafiar de maneira pueril, insistindo na petulância, o senhor vereador, se quer debater com professores universitários, que faça, pelo menos, o doutorado numa instituição pública.
Garuda, o pássaro mágico de Vishnu, e as tartarugas
Quando ensino semiótica narrativa e discursiva na universidade, recorro a fábulas ou a contos de fada, nos quais, devido à simplicidade do texto, evidenciam-se os conceitos trabalhados em sala de aula. Entre as histórias, eis uma fábula indiana, O mais lento pode vencer a corrida, que vem ao encontro, oportunamente, de não discutir com fascistas:
Quando voava sobre um lago, com muita fome, Garuda, o pássaro mágico de Vishnu, avistou uma tartaruga. A tartaruga desviou seu interesse sugerindo-lhe que, antes que a comesse, deveriam apostar uma corrida para ver quem era o mais rápido.
O pássaro concordou e se elevou no ar, pronto para voar. Enquanto isso, a tartaruga reuniu todas as tartarugas – seus amigos e parentes – e as dispôs em filas de cem, de mil, de dez mil, de cem mil, de um milhão e de dez milhões. Dessa forma, cobriram toda a superfície da região.
Quando estava tudo arranjado a tartaruga falou: – Estou pronta para começar. Vossa alteza pode ir pelo ar, eu irei pela água. Vamos ver quem será o ganhador. Se eu perder, seu prêmio será comer-me.
Garuda voou com todas as forças, mas logo se deteve e chamou a tartaruga. E por onde quer que voasse, ela sempre respondia mais à frente. Voou até mesmo para Himapham, a grande montanha. Por fim, teve de admitir, diante da tartaruga, que tinha sido derrotado e, desconcertado, voltou para o seu lar, a árvore rathal, para descansar.
Ora, influenciados pela história da lebre e da tartaruga, ao identificar Garuda com a lebre arrogante ou as tartarugas trapaceiras com a tartaruga obstinada, os leitores tendem a, contrariando Garuda, vibrar pela tartaruga; a moral da fábula, todavia, favorece o Pássaro Mágico de Vishnu, alertando-o contra os embusteiros.
Observando o conto atentamente, percebem-se distinções explícitas entre o pássaro e a tartaruga: (a) ele é nomeado com magnanimidade – Garuda –, seguido de um epíteto significativo para o hinduísmo – trata-se do pássaro Mágico de Vishnu, uma das divindades supremas, ao lado de Shiva e de Bhrama –, enquanto a tartaruga é apenas mais uma, assimilada, sem distinções, a amigos e parentes, que chegam a dez milhões.
(b) Garuda, apesar da fome e do inegável poder diante da tartaruga, cumpre com sua palavra, enquanto ela é uma farsante, cuja vitória se deve antes à desonestidade que à suposta sagacidade da vigarista. Para justificar isso, vale lembrar da majestosa estátua de Garuda, no Parque Cultural Garuda Wisnu Kencana, em Bali, Indonésia, com 121 metros; inaugurada em 2018, o Pássaro Mágico se encontra, atualmente, na terceira posição entre as maiores estátuas do planeta.
A fábula, tampouco, significa desprezo pelas tartarugas; conforme o hinduísmo, Kurma, o segundo avatar de Vishnu, é, justamente, uma tartaruga. Na trama de O mais lento pode vencer a corrida, as tartarugas se aproximam de metáforas tais quais ratos de esgoto, para se referir a fascistas, ou gado, utilizada, frequentemente, quanto aos bolsonaristas. Isso posto, na leitura proposta para a disputa entre Garuda e uma vil tartaruga, temente da morte, reside, precisamente, em ilustrar, mediante a literatura, como não discutir com gado, ratos de esgoto ou tartarugas desleais; em outras palavras, faça o que se deve fazer sem se perder na retórica dos embusteiros.
*Seraphim Pietroforte é professor titular de semiótica na Universidade de São Paulo (USP). Autor, entre outros livros, de Semiótica visual: os percursos do olhar (Contexto). [https://amzn.to/4g05uWM]
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