O cessar-fogo representa uma derrota retumbante para os EUA.

Iranianos reagem ao anúncio do cessar-fogo na Praça Enqhelab, em Teerã, em 8 de abril de 2026. (AFP via Getty Images)

TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ

O cessar-fogo anunciado por Donald Trump é um reconhecimento tácito do fracasso de uma guerra inútil e insustentável. A possibilidade de uma paz duradoura está por um fio diante das tentativas de sabotagem israelenses e da irresponsável incitação à guerra promovida pela oposição democrata.

Apesar de ter durado apenas seis semanas, a guerra de Donald Trump contra o Irã estava se configurando, de certa forma, como a pior decisão de política externa de um século XXI curto, porém repleto de acontecimentos — um desastre crescente em praticamente todos os níveis e para quase todos os envolvidos. Devemos ser gratos por haver agora uma chance de que ela termine. Infelizmente, se isso de fato acontecerá depende de muito mais do que o presidente, tão volúvel e facilmente distraído.

O anúncio feito ontem por Trump sobre um cessar-fogo de duas semanas com o Irã e as próximas negociações para um acordo permanente que ponha fim às hostilidades foi um raro reconhecimento da realidade por parte do presidente: que a opção pouco atraente de se retirar sem ter alcançado nenhum dos objetivos que ele havia estabelecido originalmente — na verdade, agravando vários dos problemas que a guerra deveria resolver — continua sendo, de longe, a melhor opção em um cardápio de comida ruim.

Esta guerra totalmente inútil tem sido tão desastrosa, tanto estratégica quanto politicamente — para a presidência de Trump e para o país — que praticamente não lhe resta outra opção razoável. O fato de o presidente aparentemente ter concordado em usar a proposta de dez pontos do Irã (em vez de seu próprio conjunto de quinze exigências maximalistas) como base para as negociações é um reconhecimento tácito do fracasso da guerra como opção política. Por mais difícil que seja para Trump aceitar essa linha de ação, as alternativas são muito piores.

Extrair urânio do Irã é uma fantasia perigosa. Quem precisar de provas deve observar o fiasco que se tornou para as forças americanas o resgate de um único homem em território iraniano. Como demonstra a série de declarações públicas contraditórias sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, Trump não tem capacidade para reabrir o estreito militarmente, visto que os navios são facilmente ameaçados pelos milhares de drones baratos que o Irã consegue produzir mensalmente. Com essa carta na manga, os líderes iranianos se recusam a ceder, apesar das imensas punições que Trump está impondo ao país, e suas opções para intensificar essas punições são cada vez mais sombrias.

O envio de tropas terrestres seria politicamente tóxico e, na melhor das hipóteses, levaria a um aumento vertiginoso das baixas americanas, especialmente agora que as temperaturas no Golfo Pérsico estão prestes a ultrapassar os 37 graus Celsius. Intensificar a escala e a violência dos bombardeios, como Trump ameaçou fazer anteontem, não só acarreta o risco de um desastre regional que provavelmente devastaria Israel (cuja segurança Trump tem repetidamente citado como justificativa para a guerra), como também é uma medida fortemente condenada, inclusive pelo coro de vozes da direita que normalmente o aplaudem por tudo.

Resumindo, enquanto o Irã mantém toda a economia global como refém, tudo o que Trump pode fazer é ameaçar com mais mortes e destruição. Essa tática já atingiu o limite de sua eficácia.

Quanto mais a guerra se arrastar sem que o Irã se renda, pior será para Trump e para os Estados Unidos. A economia americana já enfrenta grandes dificuldades às vésperas das eleições de meio de mandato deste ano, e mais semanas e meses de interrupções na cadeia de suprimentos a levariam direto ao abismo, se é que já não está. Os estoques de munição dos Estados Unidos continuam diminuindo a um ritmo insustentável, o que significa que as forças armadas estão chegando ao limite de sua capacidade de travar uma guerra, ameaçando um futuro constrangimento pior do que uma retirada voluntária. Humilhações públicas se acumulam diariamente, à medida que equipamentos e veículos militares extremamente caros são destruídos ou falham de forma pública.

Por necessidade prática, Trump foi forçado a escolher a melhor opção dentre várias ruins, a dolorosa decisão que muitos antes dele preferiram não tomar a colocar em risco suas presidências. Isso não significa que a paz seja inevitável: existe um abismo entre as posições da liderança iraniana e da Casa Branca, um abismo que será difícil de transpor.

Mas o maior problema, como sempre, será Israel. Autoridades israelenses estão furiosas com a perspectiva deste acordo e já estão tentando sabotá-lo, recusando-se a encerrar sua guerra genocida no Líbano, como exigido pelo plano de dez pontos do Irã, e realizando sua maior campanha de bombardeio contra o país nesta manhã. Israel tem o incentivo e, infelizmente, a capacidade de sabotar qualquer paz futura, embora essa capacidade dependa inteiramente da disposição do presidente dos EUA em atendê-los.

O único ponto positivo é que esta guerra pode, em última análise, transformar a relação de Trump com Israel e seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. Segundo diversas reportagens, Netanyahu e outros altos funcionários israelenses desempenharam um papel fundamental em convencer Trump de que esse fiasco era uma boa ideia, chegando a lhe dar uma série de garantias fantasiosas que logo se provaram vergonhosamente falsas. Pouco depois, vimos Trump se expor ao ridículo ao repetir publicamente muitas dessas afirmações israelenses, incluindo a ideia de que tudo terminaria rapidamente, que a decapitação dos líderes iranianos levaria a uma mudança de regime e que haveria um levante popular em massa no Irã — nenhuma das quais se confirmou.

O presidente deveria estar furioso por ter sido tão flagrantemente enganado, usado e humilhado pelos israelenses. Num mundo com um pouco mais de bom senso, isso facilitaria a sua tarefa de desferir um golpe decisivo em Netanyahu e pôr fim à constante beligerância de Israel às custas dos Estados Unidos. Mas isso exigiria um mínimo de firmeza, algo que nem Trump nem seu antecessor demonstraram em suas relações com Israel. Aliás, pelo menos segundo um funcionário americano anônimo, na noite passada, quando Trump teve a oportunidade de dizer a Netanyahu por telefone para se retirar do Líbano, ele se recusou. Um presságio preocupante, caso sugira que esse velho ciclo esteja se repetindo.

O outro fator desconhecido é a oposição democrata a Trump, cujos principais membros estão se mostrando amplamente ineficazes enquanto o mundo reza para que isso realmente termine. O primeiro deles é o senador de Connecticut, Chris Murphy, uma voz proeminente na política externa democrata que, praticamente no momento em que o cessar-fogo foi anunciado na noite passada, passou de gritar que a guerra estava saindo do controle e que Trump precisava ser removido do poder imediatamente para salvar vidas, a atacar implacavelmente um acordo de paz com o Irã e, na prática, incitar Trump a reiniciar as hostilidades (aparentemente até mesmo assumindo a exigência absurda e maximalista de que o Irã se desfaça de seus mísseis convencionais, e não nucleares).

É o mesmo papel tóxico desempenhado por democratas proeminentes do establishment , como Murphy, na preparação para essa confusão, incitando incessantemente Trump e acusando-o de covardia caso ele não adotasse uma postura mais agressiva em relação ao Irã. Felizmente, esse não é o caso de todos os democratas; alguns, como a deputada Yassamin Ansari, demonstraram bom senso e racionalidade. Mas pessoas como o senador Murphy, trabalhando em conjunto com os belicistas de direita que influenciam Trump — como Lindsey Graham e Mark Levin — terão amplo tempo e oportunidade nas próximas semanas para sabotar a paz e nos mergulhar novamente em um caos intolerável, seja simplesmente para obter vantagens políticas ou por razões mais nefastas.

Por mais tentador que seja dizer o contrário, o atual cessar-fogo não é verdadeiramente uma vitória para as forças da paz. Pelo contrário, é uma derrota impressionante para o militarismo e, mais especificamente, para um presidente embriagado pelo poder militar e pela crença equivocada de que os Estados Unidos podem magicamente impor seus desejos por meio de bombardeios. O paradoxo é que, para que qualquer paz perdure, todos nós teremos que ajudá-lo a manter a ilusão de que ele venceu — e venceu com folga.

BRANKO MARCETIC

Editor da revista Jacobin e autor de Yesterday's Man: The Case Against Joe Biden (Verso, 2020).

"A leitura ilumina o espírito".

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