O macho e o cu

“Trabalhadores”, Fritz Baumann (1913). Imagem: Wikimedia Commons

Por Douglas Barros
blogdaboitempo.com.br/

Graças ao nosso pudor hipócrita, grande parte da história do cu e da reflexão sobre sua importância segue ignorada. Sabe-se, no entanto, que a relação com ele é determinante para a nossa formação. Uma das marcas fundamentais da organização da nossa subjetividade, o cu só teve seu lugar reconhecido quando graves problemas correlacionados à saúde mental tiveram que ser repensados. Da constipação da primeira infância às disfunções sexuais da vida adulta, ele, por muito tempo ignorado, tornou-se assunto fundamental. 

As declarações de Paulo Galo, que causaram comoção nas redes sociais, trouxeram o cu para o centro do debate e geraram uma infinidade de reações; nenhuma delas, entretanto, parece ter ido ao cerne da questão: a ideia de que o trabalhador tem que ser heterossexual e conservador. Se, como dizia Lacan, a fantasia é a única forma como lidamos com a realidade, a fala de Galo diz muito sobre o imaginário político na esquerda acerca das características que um trabalhador deve assumir. 

Essa fantasia, que não foi produzida agora, reduz a multiplicidade dos trabalhadores a uma unidade idealizada: um conservador que apenas repete as ideias dominantes. Parte integrante da fantasia protestante acerca do trabalho, o trabalhador, nessa concepção, só pode ser um macho, provedor e soberano em sua casa. Evidentemente, esse imaginário se correlaciona com a ideologia do trabalho como dignidade, de modo que, dele, todas as “outras identidades” – que, aliás, trabalham… e muito – estão excluídas. 

Isso revela que o mesmo mecanismo de repressão sobre o corpo opera na forma como imaginamos o trabalhador e é transmitido quando Galo diz: “Por que eu, que sou um motoboy, que tenho que fazer greve de motoboy, tenho que defender quem quer dar o cu? Olha só a palavra que eu usei: ‘dar o cu’. Que ofensivo, né? Assim que os trabalhadores falam. Por que a Erika Hilton não defende isso? Eu defendo o meu.” 

O que será que Galo defende? O cu ou o seu trabalho? Ambos estão dissociados? Deixando de lado essa declaração – que busca um efeito viral – o melhor é entender do que se trata essa fixação pelo cu. Ernest Becker, que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1974 por um livro belíssimo, chamado A negação da morte, afirma algo no mínimo intrigante: “Com a brincadeira anal, a criança já vai se tornando um filósofo da condição humana.” 

Brincar com o ânus introduz a criança na ambiguidade existente entre o desejo – enquanto forma simbólica de lidar com algo além da satisfação natural – e a necessidade – inscrita na relação fisiológica. A nossa formação é marcada pela capacidade, nos tenros anos da infância, de nos inserirmos numa relação simbólica que precisa lidar com os impasses produzidos pelo corpo. O estágio anal é fundamental nessa experiência. 

É nessa fase que psicanalistas e pedagogos percebem que a criança é introduzida em um conflito que irá organizar sua subjetividade: uma cisão estabelecida entre a tentativa de controlar seus impulsos e a impetuosidade da própria fisiologia. O corpo atua fora do regime de controle da criança – podendo causar-lhe terror e, por consequência, trauma – exercendo sobre ela necessidades que se revelam como excrementos. 

O cu lembra-nos das franjas de algo em nós maior do que nós mesmos. Seu conteúdo repulsivo é encoberto pela ação simbólica e acaba por revelar nossos limites. Para a criança, que até pouco tempo se deleitava no seio materno, essa experiência é crucial e violenta. É a fase anal que situa o momento decisivo em que procuramos controlar os processos fisiológicos manifestos no corpo, uma relação que marcará nossa estrutura subjetiva. 

Ela, a fase anal, será responsável pelas fantasias que nos são constitutivas. O modo como cada um de nós se organizou em torno dela também dirá muito sobre aquilo que constitui nossas fantasias em torno do eu. A clínica mostra, com exemplos abundantes, que quanto mais problemas com o cu tivemos na infância, mais controladores tenderemos a ser. 

O cu, então, marca essa relação de descentramento vivida no corpo. Exatamente por habitarmos um mundo simbólico, organizando nossas pulsões e dando sentido às necessidades, é que nossa genitália e nossa relação com o cu são percebidas com estranhamento. Como explica longamente Freud, a unidade do prazer com o sexo genital só acontece de maneira tardia. Claro que a brincadeira anal tornará essa região sensível e erógena.  

Alenka Zupančič, no brilhante O que é sexo?, discute longamente o quanto reside no sexo o elemento escandaloso da psicanálise. Para ela, o sexual é o operador do inumano, o fator fundamental que nos torna sujeitos. Se restrito à condição fisiológica, o corpo torna-se carente de sentido; ou seja, nosso corpo é simbólico, marcado por um encaminhamento pulsional que só muito tardiamente organiza nossa sexualidade.

Toda experiência infantil é atravessada por essa estranheza: um corpo fisiológico, enlaçado pela necessidade biológica e percebido através da genitalidade, do cu e das fezes; e um corpo simbólico, organizado pela nossa entrada na linguagem, que suplementa a necessidade através de um prazer jamais restrito à própria corporeidade. Nossa relação com a sexualidade – e com o cu – é, portanto, sempre a de um desvio chamado desejo. 

Quando, no início do século XX, Freud – que não era nenhum militante LGBTQIA+ – resolveu pesquisar as perversões e concluiu que todos nós somos pervertidos, desafiou seu tempo. Isso porque nossa relação com o corpo não se resume à necessidade biológica, mas é sempre suplementada pelo prazer organizado no seio da cultura – o que nos legou uma reflexão importante sobre o cu. 

Se nossa relação com o cu – tão nosso – foge de qualquer natureza pressuposta, que diremos do trabalhador conservador? Há uma razão para compreender trabalho e cu como elementos dissociados: o cu é um lugar de prazer recalcado (ou não), e o trabalho, na ideologia atual – organizada pelo modo capitalista de produção – não. 

O que a fala de Paulo Galo revela é justamente um imaginário do trabalhador cuja genealogia se liga à noção protestante do que é ser trabalhador. Numa sociedade como a brasileira – cujas raízes coloniais permanecem operando os modos de distribuição dos corpos – esse trabalhador imaginário será branco, e sua sexualidade, marcada pela normatividade. Quem dá o cu, supostamente, não trabalha. 

Essa imagem do que é ser trabalhador foi muito reverenciada nas duas ditaduras que tivemos no país e, em ambas, grupos identificados como “diferenciados” não eram vistos como trabalhadores: ciganos, negros e homossexuais, no geral. A fala de Galo traz esses traços. Muitos dizem que isso é culpa do marxismo; prefiro, no entanto, evidenciar que a ideologia do trabalho, em sua lógica protestante – ainda que tenha impregnado um “certo marxismo” – ganha força pela hegemonia liberal e sua moral protestante.

Um pouco de Marx talvez ajude aqui: quando ele percebeu que o conteúdo concreto de uma mercadoria é expressão de sua universalidade abstrata (valor), que organiza a substância encarnada nas formas sociais, revelou aí a metafísica da mercadoria. É ela que organiza a religiosidade estatal e os ritos do direito, marcando uma realidade que responde à sua lógica. 

Mas essa abstração não opera sem custo. Para que o dispêndio do trabalho apareça como medida universal de valor, é preciso apagar aquilo que há de mais concreto: o corpo do trabalhador com seus excessos, seus desvios, seu gozo. O trabalhador só pode existir como figura abstrata à medida que se distancia do próprio corpo, disciplinado e reduzido à função produtiva. A heterossexualidade torna-se mais do que uma imposição, uma obrigação. 

É nesse ponto que trabalho e cu se separam: não por natureza, mas por exigência de uma forma social que precisa recalcar o prazer para sustentar a suposta dignidade do trabalho que, nessa lógica, tem que ser branca, patriarcal e heteronormativa. Voltando ao Galo: talvez, então, o problema nunca tenha sido o cu. O problema é que ele esquece que não há trabalhador sem corpo, nem corpo sem desejo. E é justamente isso que a fantasia do macho trabalhador precisa negar: que aquilo que ela exclui – o prazer, o desvio, o excesso – é também o que a constitui. 


***

Douglas Rodrigues Barros é psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor na pós-graduação em filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. Pela Boitempo, publicou O que é identitarismo? (2024). Escritor com três romances publicados, também é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).

"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários