Os indicadores financeiros estão a ocultar o perigo que ameaça a economia real

Juan Torres López [*]
resistir.info/
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Na história económica recente, verifica-se reiteradamente um mesmo fenómeno:   quem define as orientações da política económica reage tarde ou de forma errada. Não por serem incompetentes, mas porque agem com viéses ideológicos, utilizam modelos errados e fixam-se em indicadores errados.

É exatamente isso que está a acontecer agora com a crise do Golfo Pérsico e compreender por que razão isso acontece é crucial para perceber os danos que se estão a acumular enquanto se desvia o olhar.

Duas fontes de erro

Na minha opinião, há duas causas que explicam a cegueira com que aqueles que concebem e orientam a política económica enfrentam os problemas económicos.

A primeira tem a ver com os modelos económicos que utilizam. Como acabou de mostrar Steve Keen para o caso que nos ocupa, estes não incorporam de forma realista o efeito que os choques energéticos têm sobre a produção, o que os leva a subestimar as consequências que têm sobre a economia real.

Trata-se de uma limitação muito grave e que merece uma análise própria, mas não a vou abordar neste artigo.

Aqui vou explicar uma segunda causa de cegueira e erro:   interpretar a realidade levando em consideração, de forma excessiva, os indicadores financeiros. Indicadores que geralmente produzem (pelas razões que vou explicar a seguir) uma imagem da situação sistematicamente mais tranquilizadora do que a que realmente existe.

Uma metáfora para nos entendermos

Imaginemos que ocorre um acidente que bloqueia o acesso de bens e serviços à nossa vila ou cidade e que apenas se dispõe de 40% do que habitualmente consomem as residências e as empresas. Os vizinhos tentarão abastecer-se, racionarão o seu consumo, os bens escasseiam e é muito possível que muitas lojas e empresas paralisem a sua atividade.

Imaginemos que, para saber qual é a situação real em que nos encontramos e tomar medidas, em vez de nos fixarmos nas quantidades e nos preços do momento presente, olhamos para um quadro onde aparecem os bens que se espera que estejamos a dispor dentro de três meses, quando os técnicos nos dizem que o problema já terá sido resolvido e o acesso recuperado.

É exatamente isso que está a acontecer com o Estreito de Ormuz. A torneira de energia que abastece a economia mundial está há semanas fortemente alterada, com quedas muito significativas no tráfego marítimo. No entanto, os mercados financeiros — o quadro para onde nos dizem para olhar — fixam os preços não em função da gravidade do que está a acontecer agora, mas considerando que o problema é controlável e temporário.

Um exemplo simples e claro para que compreendas: a 13 de abril, o preço do petróleo bruto físico (aquele que se podia comprar na nossa cidade após o bloqueio na metáfora que acabei de apresentar) era de 132,74 dólares por barril. O preço do contrato de futuros para junho (aquele que os mercados achavam que seria nesse mês) era de 99,36. Uma divergência que reflete expectativas de uma normalização muito rápida.

O que é o Estreito de Ormuz e o que se passa lá

O Estreito de Ormuz tem apenas 33 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito e por lá passa normalmente um quarto de todo o petróleo comercializado no mundo, um quinto do gás natural liquefeito global e volumes enormes de outros produtos e matérias-primas fundamentais para a alimentação e a indústria mundial.

Como sabemos, desde o final de fevereiro ficou praticamente fechado, as grandes companhias marítimas suspenderam as suas travessias e o tráfego de navios caiu para níveis quase puramente simbólicos.

Um bloqueio semelhante no fornecimento de fontes de energia e matérias-primas essenciais produzirá um impacto praticamente proporcional na capacidade de produzir bens e serviços de todo o tipo em todo o planeta. No entanto, os indicadores financeiros não apontam para que o efeito venha a ser demasiado grande ou perigoso e a pergunta, portanto, é como é que isso pode ser possível.

É certo que se poderia argumentar que estes preços financeiros refletem fatores como a existência de reservas estratégicas, a capacidade de outros produtores aumentarem a oferta ou a experiência histórica de interrupções breves no abastecimento. Mas estas interpretações assentam em pressupostos que não parecem estar a concretizar-se na situação atual: que os ajustes serão rápidos, que os estrangulamentos serão limitados e que os efeitos sobre a produção serão lineares e reversíveis.

A desnaturalização dos mercados de futuros

O indicador financeiro que mais pesa na leitura desta crise é o preço nos mercados de futuros dos recursos que foram bloqueados no Ormuz. E para compreender por que razão este indicador está a falhar, é preciso compreender, em primeiro lugar, o que é um mercado de futuros, para que foi criado e o que lhe aconteceu.

Estes mercados nasceram com uma função muito útil: permitir que os produtores e as empresas pudessem enfrentar com alguma segurança a incerteza que a variação dos preços ao longo do tempo sempre acarreta. Permitiam que uma empresa, um agricultor ou um transportador, por exemplo, fixassem hoje o preço do que iriam precisar dentro de um determinado período de tempo. Assim, podiam planear com segurança e enfrentar o risco de alterações no preço.

No entanto, esses mercados foram sendo dominados por operadores que, na realidade, não precisavam de petróleo, nem de enxofre, nem de gás, nem de café, nem de qualquer produto real. São fundos de investimento, bancos e especuladores que compram e vendem esses contratos exclusivamente para ganhar dinheiro com a diferença de preço entre o momento da compra e o da venda. Sem qualquer interesse na matéria-prima em si, e sem necessidade de se protegerem de nada.

O resultado foi que os mercados de futuros deixaram de ser o que eram, ou seja, instrumentos para que a economia real gerisse o risco futuro. Pelo contrário, foram-se transformando em instrumentos especulativos, onde os preços são o resultado das apostas feitas (hoje em dia através de algoritmos e a uma velocidade vertiginosa) por quem apenas procura ganhar dinheiro com o movimento seguinte (que, por vezes, eles próprios podem provocar).

Estes especuladores não ganham dinheiro analisando o que vai acontecer na economia real daqui a seis meses, mas antecipando a próxima manchete, o próximo anúncio político, o próximo tweet presidencial, ou seja, em função quase exclusiva do que ocorre no muito curto prazo.

Por que razão os mercados de futuros estão a subestimar o perigo

Quando os mercados de futuros se transformam em máquinas de apostar no próximo anúncio político, ou em qualquer outra coisa que permita ganhar mais dinheiro no menor tempo possível, os seus sinais sobre o que pode estar a acontecer na economia real tornam-se imprecisos e sistematicamente enganadores.

Neste momento, há pelo menos três razões concretas que explicam por que estão a dar sinais errados e a subestimar o perigo que realmente ameaça a economia global.

A primeira é que estes mercados não funcionam como um mercado normal, onde muitas pessoas compram e vendem em condições de igualdade. São dominados por um punhado de grandes bancos e fundos de investimento, ou mesmo por algoritmos que movimentam quantias de dinheiro tão enormes que, quando apostam numa direção, o preço move-se para onde eles indicaram. São eles que marcam o ritmo.

E esses grandes operadores têm interesse em apostar que o conflito será resolvido em breve por uma razão muito concreta:   se apostassem na catástrofe e acertassem, eles próprios também perderiam. Uma crise energética prolongada afundaria a economia global e, com ela, todos os seus outros investimentos — ações, obrigações, empréstimos...

Apostar na resolução rápida, por outro lado, é apostar que o jogo continua. Que os mercados continuam a funcionar. Que haverá oportunidade de comprar barato agora e vender caro depois. Por isso, quanto mais dinheiro entra a apostar na normalização, mais tranquilizador é o sinal que os futuros emitem. E esse sinal é o que acaba nos noticiários, nas análises dos governos e na opinião pública.

A segunda razão é que os modelos que estes mercados utilizam para fixar preços assentam em dados históricos. E, na história, todos os encerramentos do Estreito de Ormuz foram breves. O mercado aplica essa experiência passada como probabilidade futura, como se o que aconteceu antes fosse um guia fiável para o que irá acontecer agora. Mas esta situação não tem precedentes históricos comparáveis. A escala do encerramento, a sua duração, a combinação de fatores que o rodeiam são novos. O modelo olha pelo retrovisor para conduzir em frente.

Por fim, a terceira razão é que o encerramento do Estreito não produz apenas o corte de uma determinada quantidade de fornecimento de produtos — petróleo, gás, enxofre, hélio... — cujos preços podem ser registados no momento presente ou estimados no futuro, e sobre os quais, portanto, podem ser feitas as apostas em que se baseiam os indicadores financeiros. Além disso, produz efeitos sobre a economia real que esses indicadores simplesmente não conseguem perceber nem transformar em contratos que se compram e vendem:   o agricultor que não consegue semear porque o fertilizante não chega, a fábrica que pára porque não tem matérias-primas, o país que raciona a eletricidade porque o gás não chega... Esses danos não têm preço em nenhum mercado. Não são cotados em lado nenhum. Não existem para o sistema financeiro.

O mercado constrói a sua imagem do futuro apenas com as peças que consegue ver. E deixa de fora, sistematicamente, todos os outros danos. O seu sinal não é falso, mas é estruturalmente incompleto. E um sinal incompleto sobre uma crise desta magnitude é tão perigoso quanto um sinal falso.

Finanças que fazem negócios se o perigo não for visível

A isto que acontece no (desnaturalizado) mercado de futuros há que acrescentar algo mais. Ao sistema financeiro no seu conjunto interessa que a guerra seja percebida como um risco controlável e temporário, e não como algo que pode dar origem a uma catástrofe sistémica se não for travada rapidamente.

Os fundos de cobertura são fundos de investimento que ganham dinheiro com as variações de preços a muito curto prazo ou, em geral, com as variações imediatas nas condições dos mercados. Existem plataformas que movimentam milhares de milhões de dólares a apostar em eventos geopolíticos — se haverá ou não um cessar-fogo, se tal ou tal infraestrutura será atacada, se um determinado líder será assassinado...—. E quem tem nas suas carteiras as ações das grandes empresas petrolíferas e de armamento — em grande parte esses mesmos grandes fundos que dominam os mercados de futuros — ganha dinheiro com cada nova mudança de situação.

Ora bem, o que todos esses operadores precisam é que o jogo especulativo não pare. E isso só pode acontecer se a guerra — neste caso — for percebida como algo controlável. Se a gravidade do que está a acontecer no Golfo fosse devidamente avaliada, os preços disparariam de forma caótica, as posições baseadas em dívida seriam liquidadas em cascata e o negócio especulativo entraria em colapso juntamente com tudo o resto.

A armadilha

Durante décadas, tentaram convencer-nos de que o estado da economia se deduz dos indicadores financeiros. Se a bolsa sobe, é porque as coisas estão a correr bem. Se o preço do petróleo não dispara, é porque a crise energética não é assim tão grave. Se os índices se mantêm, é porque os fundamentos aguentam.

Aí está a cegueira e, por que não dizê-lo, a armadilha:   os indicadores financeiros servem para conhecer as expectativas de quem tem capital para apostar, mas enganam quando se trata de perceber o que ocorre na produção real, nos ciclos agrícolas, nas cadeias de produção ou no dia a dia das pessoas e empresas que não participam nos mercados financeiros.

Trata-se de um erro que, nesta ocasião, pode ter consequências muito perigosas. Se a guerra continuar e o bloqueio não for rapidamente levantado, a corda que sustenta a economia global não se vai partir, como noutras ocasiões, pelo lado das finanças, mas sim pelo da economia real. Se assim for, se chegar um momento em que os agricultores não possam cultivar, os transportadores fiquem paralisados e as fábricas não tenham matérias-primas, as ferramentas habituais da política fiscal e monetária seriam claramente insuficientes para fazer face à situação. Não haverá banco central que possa resolver a confusão dando centenas de milhares de milhões aos bancos ou alterando as taxas de juro, nem governos com recursos para travar a catástrofe.

17/Abril/2026

[*] Economista.

O original encontra-se em juantorreslopez.com/los-indicadores-financieros-estan-ocultando-el-peligro-que-amenaza-a-la-economia-real/

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