PIX, o sistema público de pagamentos do Brasil odiado por Trump (e que um ganhador do Prêmio Nobel de Economia considera o futuro do dinheiro)

Em julho de 2025, poucos dias após Donald Trump anunciar um aumento de 50% nas tarifas para o Brasil, o presidente brasileiro Lula da Silva publicou uma mensagem nas redes sociais com a frase: “PIX é nosso, meu amigo”. O PIX, sistema público de pagamentos digitais desenvolvido pelo Banco Central do Brasil (BCB), estava no centro da disputa comercial entre os dois países.
Um dia antes da publicação de Lula, a agência federal responsável pela política de comércio internacional do governo dos EUA havia incluído a PIX em sua investigação por "prejudicar a competitividade de empresas americanas que atuam nesses setores", em uma referência velada às empresas de cartão de crédito VISA e Mastercard, das quais a PIX conquistou a liderança em pagamentos eletrônicos no Brasil.
Uma semana após os aumentos de preços de Trump, o economista laureado com o Prêmio Nobel, Paul Krugman, escreveu um artigo defendendo o PIX, uma tecnologia que ele descreveu como o dinheiro do futuro: “As transações em PIX são quase instantâneas (levam 3 segundos, em comparação com dois dias para cartões de débito e 28 para cartões de crédito). Os custos são baixos: o sistema é gratuito para pessoas físicas e cobra apenas 0,33% do valor transferido para empresas (em comparação com 1,13% para cartões de débito e 2,34% para cartões de crédito).”
Em seu artigo, Paul Krugman destacou que o PIX “parece estar substituindo rapidamente tanto o dinheiro em espécie quanto os cartões”. De fato, o dinheiro físico praticamente desapareceu do Brasil. Ninguém mais anda com troco nas lojas. Apenas 6% dos brasileiros usam notas e moedas, em comparação com 90,9% que usam o PIX. Em 2025, o PIX bateu todos os recordes: 35,32 trilhões de reais em transações (58,69 trilhões de euros) e 63,5 bilhões de operações. Além disso, o PIX está incorporando novas funcionalidades, como o pagamento automático de contas de luz, água e internet, entre outras. “Como método de pagamento preferido dos brasileiros, o PIX se mostrou prático, rápido e mais seguro, principalmente por eliminar a necessidade de sacar dinheiro em caixas eletrônicos”, explicou Frederico Glitz, advogado especializado em direito internacional e fundador da Glitz & Gondim Legal Consulting, ao elDiario.es. Ademais, o PIX está consolidando sua posição como método de pagamento no mundo dos negócios. As transações entre pessoas físicas e jurídicas aumentaram de 30% no final de 2022 para 55%, informou o Banco Central do Brasil a esta publicação.
O PIX está morrendo por causa do próprio sucesso. E sua projeção internacional, apesar de Donald Trump, é imparável: uma espécie de “PIX internacional” (Projeto Nexus) está sendo preparada, juntamente com uma expansão do PIX para o universo econômico dos BRICS, o bloco de economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que busca contrabalançar a influência financeira e política do Ocidente.
Sistema público
Em seu artigo, Krugman enfatizou a natureza pública do PIX: “O setor financeiro dos EUA jamais permitiria que um sistema público competisse com seus serviços, especialmente se esse sistema público fosse superior”. Embora outros países do BRICS possuam sistemas de pagamento eletrônico semelhantes ao PIX (SBP na Rússia, UPI na Índia, WeChat Pay na China), nenhum deles é 100% público. O Bizum, da Espanha, por exemplo, foi lançado por um consórcio de bancos. Na maioria dos casos, os operadores privados acabam sendo favorecidos. No caso do UPI, na Índia, a participação de empresas privadas levou, em última instância, à concentração dos pagamentos instantâneos nas mãos de multinacionais como Google e Walmart.
Carlos Eduardo Brandt, considerado o pai do PIX, que deixou o Banco Central do Brasil (BCB) em 2025 para se juntar ao Fundo Monetário Internacional (FMI), acredita que a natureza pública dos sistemas de pagamento é essencial. “Para alcançar um ecossistema de pagamentos verdadeiramente inclusivo, o mais apropriado é ter um agente neutro. No caso brasileiro, o agente neutro por excelência é o Banco Central do Brasil”, disse Brandt à BBC.
Segundo a economista Carla Beni, professora da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP), o governo Trump está incomodado com o PIX porque ele compete não só com as empresas de cartão de crédito, mas também com as grandes empresas de tecnologia. “Ele substitui grande parte do uso de cartões de débito e crédito, principalmente após o lançamento de serviços como o PIX Crédito e o PIX Parcelamento. Também houve alegações de que o Banco Central impôs barreiras ao WhatsApp Pay, o que foi muito bom para o PIX e para o Brasil, e acabou impactando negativamente o Apple Pay e o Google Pay também”, disse Beni ao elDiario.es.
Em direção a um PIX global?
Uma das funções de Carlos Eduardo Brandt como Especialista Sênior do Setor Financeiro no FMI é estudar como o PIX pode ser implementado globalmente. Simplificar os pagamentos instantâneos entre diferentes países é um de seus objetivos. Os intermediários bancários estão no centro das atenções. Com o estabelecimento de um PIX global, US$ 45 bilhões atualmente retidos por empresas internacionais de transferência de dinheiro poderiam ser devolvidos às pessoas mais pobres, segundo Tobias Adrian, diretor do Departamento de Mercados Monetários e de Capitais do FMI.
Brandt acompanhou de perto o sistema que visa interconectar os sistemas de pagamento dos dezesseis países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e o Projeto Nexus, apelidado de “PIX internacional”, que já está sendo implementado em cinco países asiáticos (Índia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia). Carla Beni acredita que 2026 será o ano de transição em que o PIX evoluirá de um sistema para pagamentos domésticos para uma ferramenta de integração global e geopolítica. A especialista cita o Projeto Nexus, do Banco de Compensações Internacionais (BIS), como referência. “Ele interconectará os sistemas de pagamento instantâneo de mais de sessenta países, incluindo alguns, como a Itália, na zona do euro”, explica.
Frederico Glitz acredita que, independentemente das decisões geopolíticas, a expansão internacional do PIX já está em curso. "Os consumidores brasileiros já estão encontrando estabelecimentos no exterior que aceitam PIX, porque ele permite uma maior simplificação das transações internacionais", afirma Glitz. Na Argentina, existem até aplicativos como Belo e PagBrasil que já permitem pagamentos via PIX. Carla Beni também destaca o crescimento do PIX no exterior por meio do setor privado. "Alguns estabelecimentos em Portugal, Itália, França, Estados Unidos, Argentina, Uruguai e Espanha também aceitam pagamentos com QR Code via PIX, com conversão imediata para o real brasileiro", declara Beni.
Para piorar a situação, e para o desgosto de Trump, o PIX foi o primeiro sistema de pagamento digital com a tecnologia pronta para se conectar ao sistema de pagamento BRICSPay, uma espécie de "Pix dos BRICS", que visa acabar com a hegemonia global do dólar.
"A leitura ilumina o espírito".
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