Editorial
Os sinais enviados pelo Irã e pelos Estados Unidos nas últimas horas sugerem uma virada no conflito iniciado pelo governo americano em aliança com Israel. Teerã expressou sua disposição de encerrar as hostilidades, condicionando qualquer acordo à obtenção de garantias reais para evitar futuras agressões, enquanto o presidente Donald Trump declarou — com sua frivolidade e arrogância características — que a operação americana não durará muito mais tempo.
Contudo, o aparente acordo para pôr fim à guerra não apaga as profundas diferenças nos motivos e circunstâncias de cada lado. Para o governo Trump, o que inicialmente foi apresentado como uma campanha de punição rápida transformou-se numa guerra de desgaste que ameaça sobrepujar os cálculos iniciais da Casa Branca, forçando o presidente a moderar sua retórica de vitória total diante da resistência inabalável. Por trás de sua retórica arrogante, reside uma crescente preocupação com a impossibilidade de declarar uma vitória crível ao seu eleitorado. Com a aproximação das eleições de meio de mandato, o custo político de uma guerra paralisada, sem objetivos claros, aumenta exponencialmente. Trump, cuja carreira política se baseou na imagem de um negociador infalível que obtém resultados imediatos, agora enfrenta o risco de ir às urnas com um conflito aberto que drena recursos financeiros, encarece a vida dos cidadãos e causa baixas americanas, sem o troféu de uma mudança de regime ou uma capitulação formal de Teerã que ele possa vender como um sucesso histórico de seu governo.
Por sua vez, a República Islâmica tem amplas razões históricas e políticas para desconfiar de qualquer oferta de paz vinda de Washington. A memória do abandono unilateral e injustificado — liderado pelo próprio Trump — do acordo nuclear de 2015 e a política de sanções sufocantes pesam muito sobre a mesa de negociações. O Irã entende que uma trégua sem sólidas garantias internacionais seria apenas uma pausa temporária, permitindo que os agressores se reagrupassem. A desconfiança mútua representa o principal obstáculo para o progresso rumo a uma desescalada sustentável que não dependa do humor instável do ocupante do Salão Oval.
Para além da retórica de ambos os lados, o destino das hostilidades parece ser ditado pela lógica fria dos estoques militares e pela capacidade de substituição tecnológica. Diversas análises estratégicas concordam que o fim dos combates poderia ser precipitado pelo esgotamento de recursos críticos: os estoques de interceptores de mísseis dos Estados Unidos e de Israel versus os estoques de mísseis balísticos e drones de ataque do Irã. Dado que nenhum dos lados tem capacidade para aumentar seus estoques em um futuro próximo, devido à complexidade das cadeias de suprimentos de defesa, o esgotamento dos sistemas antiaéreos ou dos vetores de ataque forçaria um cessar-fogo.
Em última análise, o cenário menos ruim para Trump é chegar a um acordo rápido que lhe permita preservar sua imagem e evitar uma derrota estratégica antes das eleições, visto que a vitória rápida que ele inicialmente antecipava provou ser uma miragem custosa e absurda. Para as populações civis em todo o mundo, uma paz imperfeita negociada sob pressão é preferível à continuação de uma guerra irracional e injustificável que ameaça a estabilidade global. O retorno à diplomacia e a cessação da agressão israelense-americana são imperativos para evitar uma catástrofe humanitária de grandes proporções, na qual ninguém sairá vitorioso.
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