A guinada à esquerda do Brasil continua.

As eleições presidenciais acontecem no Brasil em outubro, e Lula enfrentará Flávio, filho de Jair Bolsonaro. Será um teste crucial para ver se o legado do progressismo pode perdurar. (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

UMA ENTREVISTA COM
Entrevista por
Pablo Castaño

O governo de Jair Bolsonaro foi um período sombrio para os movimentos sociais no Brasil. Desde o retorno de Lula, esses movimentos recuperaram seu papel, não apenas nas ruas, mas também na formulação de políticas governamentais.

Vitória Genuino, secretária da Juventude no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, formou-se como ativista de base no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), liderando a luta por moradia digna e justiça social.

No último fim de semana, ela esteve em Barcelona para participar do Encontro Global de Mobilização Progressista, que reuniu chefes de governo de esquerda e centro-esquerda, como Lula, Gustavo Petro da Colômbia, Claudia Sheinbaum do México e o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Na conferência, ela falou sobre mobilização juvenil e seu trabalho no Brasil.

Em entrevista a Pablo Castaño para a revista Jacobin, Genuino discutiu as oportunidades e contradições da transição dos movimentos sociais para a política institucional. Ela também avaliou o governo Lula a poucos meses das eleições gerais de outubro, nas quais o veterano líder do Partido dos Trabalhadores enfrentará Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente de extrema-direita.

Pablo Castaño

Antes de ingressar no governo brasileiro como Secretário da Juventude, você teve uma longa trajetória de ativismo no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. Neste momento, como você vê a luta por moradia digna no Brasil?

Vitória genuína

Com a volta do presidente Lula ao poder [no início de 2023], os movimentos agora têm uma oportunidade maior de diálogo com o governo. Os espaços de participação social que estão sendo promovidos auxiliam nesse processo de reorganização dos movimentos, que durante o último período, sob o governo de Jair Bolsonaro, sofreram uma criminalização muito violenta. Por isso, considero este um momento de reorganização e fortalecimento das lutas pela reconstrução da política habitacional no Brasil.

A reestruturação do Ministério das Cidades promovida pelo presidente Lula oferece ao movimento a oportunidade de ir além do confronto direto com o governo e se tornar um participante ativo nas políticas de reconstrução. Acredito que este seja um bom momento para reavaliar os problemas, reorganizar e apresentar propostas concretas para a melhoria das condições de moradia.

PC

Em um nível mais pessoal, como você vivenciou essa mudança da política de movimentos para a política institucional?

VG

É uma mudança recente, de dezembro até agora. Estar no governo é muito diferente, mas é uma experiência importante. Mesmo ocupando agora um cargo oficial e representando o governo brasileiro, faço isso como ativista pelo direito à moradia e pelos direitos da juventude.

Acredito que o governo pode ser uma ferramenta de transformação social. É um espaço onde eu, como ativista, posso conceber e construir políticas públicas a partir dessa visão ativista, entendendo que agora respondo "do outro lado da sacada", como se diz no Brasil. Conheço as dificuldades e posso ter uma perspectiva diferente sobre as demandas que surgem. Isso não se deve apenas ao fato de eu ser ativista, mas também à minha origem: cresci na periferia da cidade de Olinda, no nordeste do Brasil. Essa perspectiva diferente me permite compreender que, embora este momento de governo seja inegavelmente temporário, ele também é uma ferramenta real de transformação social.

Vitória genuína

PC

Sua trajetória profissional é excepcional dentro do atual governo brasileiro, ou existem outras figuras que vêm diretamente de movimentos sociais?

VG

Várias pessoas que hoje fazem parte do governo têm um histórico de ativismo em movimentos sociais, mas posso falar mais diretamente sobre o Ministério [da Presidência], do qual minha secretaria faz parte. O Ministro Guilherme Boulos [do partido de esquerda Socialismo e Liberdade, PSOL], que também integra o governo pela primeira vez, tem uma longa trajetória no movimento habitacional, mas não foi o primeiro.

O governo Lula criou, pela primeira vez, a Secretaria Nacional para as Periferias. Essa era uma reivindicação histórica dos movimentos sociais, que compreendiam a necessidade de, dentro do Ministério das Cidades, criar um espaço que abordasse especificamente os problemas das áreas periféricas. Entre os membros da secretaria está Izadora Gama Brito, Secretária de Participação Social, oriunda das lutas do MTST (Movimento Operário dos Sem-Terra).

PC

Na preparação para as eleições gerais de 2022, Lula chegou a um acordo com os partidos tradicionais, que incluía a presença de um antigo rival, Geraldo Alckmin, como seu vice-presidente. Que impacto teve esse acordo nas políticas governamentais, em comparação com os mandatos anteriores de Lula?

VG

Há uma luta constante para direcionar o governo mais para a direita, mais para o centro ou para a esquerda. Cada ator no governo tem um papel a desempenhar nisso. A aliança que o presidente Lula forjou com o vice-presidente Geraldo Alckmin foi crucial para o nosso retorno ao poder no âmbito da luta contra a direita representada por Bolsonaro, mas isso também tem suas consequências. Desempenhamos nosso papel ao empurrar o governo para a esquerda.

Na semana passada, o Presidente Lula assumiu a luta contra a semana de trabalho de seis dias por semana (6x1), confrontando diretamente as plataformas baseadas em aplicativos, como parte de um debate mais amplo sobre trabalho decente. Essa iniciativa partiu em grande parte do Ministro Boulos e faz parte de sua agenda de longa data. Nosso papel é promover as demandas urgentes da classe trabalhadora dentro do governo, e o Presidente Lula abraçou diretamente essas questões.

PC

Quais políticas você destacaria do novo mandato de Lula?

VG

Quando falamos especificamente sobre o governo Lula [2023–presente], é importante enfatizar que se trata de um governo de reconstrução. Isso significa o retorno do Ministério das Cidades e a alocação de recursos para ministérios estratégicos…

Hoje, temos uma taxa de desemprego reduzida entre os jovens brasileiros. E o Ministério da Educação, por exemplo, lançou os "cursos populares", uma política muito importante voltada para estudantes de áreas periféricas e favelas do Brasil. Há também o programa Pé-de-Meia, uma política em que o governo fornece recursos para estudantes de escolas públicas. Portanto, em relação às políticas educacionais, e especialmente para os jovens — que é a agenda que estou construindo hoje dentro do governo — fizemos vários avanços.

PC

Com a proximidade das eleições presidenciais de outubro, as pesquisas mostram um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. Por que você acha que a extrema direita é tão forte no Brasil, mesmo após a tentativa de golpe e a prisão de Jair Bolsonaro?

VG

A classe mais rica, o centro que controla a riqueza global, também tem suas ramificações no Brasil. O governo Bolsonaro teve um impacto na sociedade. Hoje, por exemplo, temos um claro aumento nos casos de violência contra a mulher. Isso é resultado do legado deixado pela direita após seu período no governo.

Acredito que essa classe dominante exerce uma forte influência simbólica sobre a sociedade, e o discurso do livre mercado pode ser atraente para muitos. Mas acreditamos que o povo brasileiro é favorável a essa reconstrução do país. Hoje, temos uma situação muito melhor para o nosso povo. Acreditamos que, por meio da implementação efetiva de políticas públicas, podemos avançar e dar continuidade a esse trabalho.

PC

Um dos desafios enfrentados pelos presidentes progressistas da América Latina (Lula, Petro, Sheinbaum) é o relacionamento com Donald Trump, dadas as constantes ameaças, ataques e tarifas. Como Lula lidou com Trump?

VG

O Brasil desempenha um papel muito importante na promoção do diálogo na política internacional. O presidente Lula e nosso governo estão fortalecendo nossa soberania e independência, e defendemos uma posição muito específica em relação às políticas do governo Trump, que afetam principalmente os brasileiros que residem atualmente nos Estados Unidos. Estamos lutando com muita firmeza. Nossa intenção é sempre buscar o diálogo para evitar novos conflitos.

PC

Durante os primeiros mandatos de Lula [2002–2010], a América Latina era mais unida como ator geopolítico, com a criação do Mercosul e outros mecanismos de integração regional, do que é hoje. Você acha que ter que confrontar Trump pode ajudar a reconstruir algum tipo de unidade latino-americana atualmente?

VG

Está se tornando uma importante força motriz para a mobilização. A Mobilização Progressista Global representa essa reorganização dos países latino-americanos, levando em consideração o período histórico que estamos vivendo, dado o avanço da direita nesses países. Mas acredito que o presidente Lula, Sheinbaum e esses outros atores que se reunirão aqui em defesa da democracia estão demonstrando nosso compromisso com essa agenda. O Brasil tem esse importante papel de dialogar com ambos os lados, simultaneamente, para fortalecer a soberania do nosso território.

PC

O que você espera deste encontro em Barcelona?

VG

O principal legado que queremos deixar é a luta contra o extremismo e a defesa da democracia. Nossa participação aqui visa fortalecer a soberania dos povos e territórios por meio da democracia. Acredito que essa seja a mensagem principal.

PC

Na Europa, ouvimos frequentemente que os jovens oscilam entre a apatia e visões conservadoras, e as pesquisas mostram uma certa guinada à direita entre os jovens. Qual é a sua experiência no Brasil?

VG

Algumas pesquisas sugerem um declínio na popularidade do governo Lula entre os jovens de 16 a 24 anos. Precisamos entender melhor como comunicar o progresso e as políticas que construímos em torno da juventude. Embora haja menos mobilização nas ruas [do que em períodos anteriores], também existe alguma resistência. Temos a União Nacional dos Estudantes, o Sindicato Brasileiro dos Estudantes do Ensino Médio… movimentos históricos em escolas e universidades que permanecem fortes até hoje.

Mas também existem movimentos juvenis culturais e religiosos muito fortes que não se organizam segundo esses modelos tradicionais de partidos políticos e movimentos estudantis. Precisamos aprender com essas novas experiências. Às vezes, quando falamos de mobilização, pensamos nesse modelo tradicional. Mas temos uma nova geração. As redes sociais podem ter um lado negativo; precisamos falar sobre a saúde mental dos jovens. Mas, ao mesmo tempo, precisamos entender como podemos conversar com os jovens sobre todos esses direitos e avanços que temos conquistado.


VITÓRIA GENUÍNA
Secretaria Nacional da Juventude do Brasil.

"A leitura ilumina o espírito".

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