A sombra dos pequenos aviões

O Departamento de Justiça dos EUA indiciou o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, em 20 de maio de 2026, pelo abate, em 1996, de aeronaves civis que transportavam críticos do regime comunista. (Foto: AFP)

Na política internacional, as guerras raramente começam com um tiro. Elas começam com vazamentos cuidadosamente planejados, manchetes alarmistas, relatórios de inteligência, processos judiciais e operações narrativas concebidas para transformar um adversário político em uma ameaça existencial. 

Durante semanas, veículos de comunicação como Axios e Politico vêm gradualmente alterando a narrativa em torno de Cuba com base em vazamentos diretos do Departamento de Estado. A ilha não é mais retratada apenas como um país assolado por crises econômicas, embargo ou escassez de energia. Agora, é apresentada como uma ameaça estratégica, com supostas capacidades de inteligência hostis, cooperação militar, drones e potencial ofensivo contra os Estados Unidos. 

Entre o desabafo de Donald Trump hoje e o de Marco Rubio amanhã, surgiu um novo elemento particularmente sensível: a abertura de um processo judicial contra Raúl Castro, um guerrilheiro símbolo da revolução cubana, agora acusado de ter abatido, em 1996, dois aviões Cessna 337 pertencentes à organização Irmãos ao Resgate. O Ministério da Justiça, que incluiu os nomes de outros cinco cubanos além do de Raúl, está repetindo o padrão já utilizado contra Nicolás Maduro. 

O caso dos pequenos aviões encaixa-se perfeitamente num padrão de escalada gradual do conflito. A reativação de acusações legais contra Raúl Castro faz parte de uma operação política e mediática destinada a retratar Cuba como uma ameaça e a legitimar novas medidas de pressão e excepcionalismo. 

No entanto, a verdadeira história desse episódio é muito mais complexa do que a versão simplificada e unilateral promovida por Washington durante décadas. Nos meses que antecederam 24 de fevereiro de 1996, Cuba denunciou repetidamente os ataques aéreos da Operação Irmãos ao Resgate à Administração Federal de Aviação (FAA), ao Departamento de Estado e à Organização da Aviação Civil Internacional (OACI). 

Os pequenos aviões sobrevoaram Havana 25 vezes para lançar propaganda política e violar flagrantemente as restrições aéreas impostas pelas autoridades cubanas, que haviam advertido repetidamente que não tolerariam mais tais ações. De Miami, José Basulto e outros líderes do grupo anunciaram publicamente novas incursões e vangloriaram-se da incapacidade de Cuba de impedi-las. 

Um e-mail interno da FAA, enviado em 22 de janeiro de 1996 pela funcionária Cecilia Capestany a seus superiores dentro da agência e agora desclassificado pelo Arquivo de Segurança Nacional em Washington, alertava explicitamente: “Um dia desses, os cubanos vão abater um desses aviões”. A mensagem demonstrava que as autoridades americanas estavam cientes do crescente risco representado pelas provocações aéreas do grupo Brothers to the Rescue muito antes dos aviões serem abatidos. 

Em janeiro de 1998, a revista The New Yorker desmantelou grande parte da narrativa subsequente que retratava Cuba como responsável pelo incidente. O artigo revelou que altos funcionários americanos estavam plenamente cientes do risco de um confronto, que avisos explícitos haviam sido emitidos de Havana e que até mesmo interlocutores americanos enviaram sinais ambíguos sobre a possibilidade de interromper os voos da Operação Irmãos ao Resgate. Chegaram ao ponto de questionar o que o governo Clinton teria feito se aviões vindos de Cuba tivessem violado repetidamente o espaço aéreo de Washington. 

Dentro do próprio governo dos EUA, havia a consciência de que Basulto — um mercenário da invasão da Baía dos Porcos e participante de longa data em operações paramilitares contra Cuba — estava agindo de maneira cada vez mais provocativa e descontrolada. Autoridades, diplomatas e ex-militares alertaram que um incidente grave era praticamente inevitável se os voos continuassem. Qualquer pessoa pode encontrar as evidências com um clique. 

No entanto, após a queda dos aviões, o incidente foi rapidamente transformado em uma ferramenta política interna. Bill Clinton acabou assinando a Lei Helms-Burton, congelando qualquer tentativa de distensão com Cuba e codificando o embargo na legislação americana para impedir que futuros presidentes o desmantelassem ou o flexibilizassem por meio de ações executivas. 

Entretanto, a investigação da OACI foi cercada por forte controvérsia. Cuba entregou rapidamente registros, dados de radar, depoimentos e acesso a instalações militares e civis. Os Estados Unidos atrasaram informações cruciais, negaram imagens de satélite e apresentaram registros incompletos ou contraditórios. 

Grande parte da narrativa pública acabou se baseando em depoimentos indiretos e observações impossíveis de verificar completamente. Trinta anos depois, o caso ressurge em meio a um clima renovado de ódio político em Miami, sem fazer qualquer tentativa de ocultar o verdadeiro objetivo da operação: construir retrospectivamente uma figura culpada que permita vincular o episódio de 1996 à narrativa atual de “Cuba como uma ameaça estratégica”.

 O que começou como uma escalada midiática está caminhando para a pior falha da justiça: legitimar a agressão militar contra Cuba.


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