As representações de Donald Trump

Imagem: Egor Myznik


Por VERA CHAIA & ARTHUR SPADA*

Ao operar constantemente na tensão entre fatos verificáveis e narrativas emocionalmente mobilizadoras, Donald Trump não rompe com a realidade de maneira explícita, mas a reorganiza a partir de estratégias discursivas que privilegiam impacto e identificação

1.

O estudo da imagem e poder permite compreender a construção da imagem das lideranças políticas que ocupam e/ou ocuparam cargos executivos nos Estados Unidos da América. No cinema norte-americano, em geral, o que se verifica ao assistir suas obras cinematográficas ficcionais é a predominância do culto à personalidade, bem como uma visão do presidencialismo na qual o Chefe do Executivo teria poderes especiais para solucionar os conflitos enquanto autoridade máxima, que é exaltada como um super-herói.

Não raro esses presidentes da fantasia são tratados como salvadores, que lideram a nação em momentos de tragédia ou salvam o dia contra os ataques de criminosos. Transmite-se uma imagem mítica do poder e da liderança com o intuito de disseminar determinados valores, rotineiramente atrelados a ideologia que sustenta o status quo, enfatizando a solução dos conflitos por meio de ações individuais e não por lógicas coletivas.

Ao serem trazidas para a tela as figuras da realidade, essas representações também carregam a intencionalidade daqueles que participam da produção e a financiam. Ao apresentar uma figura como a de Donald Trump, por exemplo, seja em um documentário ou em uma versão romanceada, dificilmente a reprodução corresponderá com a figura real, sendo impossível captar a totalidade sobre ela e toda a complexidade de um personagem real.

Por isso, é fundamental buscar compreender o contexto da produção e o que se pretende transparecer para o público, ao trazer à tona um determinado período de sua história ou parte específica da carreira como liderança política, bem como ao ressaltar seu envolvimento em situações particulares ou com atores específicos. É relevante entender quais fatos são exaltados e quais são omitidos, ou até mesmo os que foram recontados com novos detalhes ou de maneira tal que atenda aos interesses da produção.

Por vezes não se trata apenas de deixar a obra mais dinâmica e atrativa ao público, mas também de contar uma história que passará a ser tida como verdadeira para muitos. Em documentários, o público tende a confiar mais na imparcialidade de sua direção e a tratar aquela como uma peça completa de informação e conhecimento, diminuindo as ressalvas quanto à possibilidade de distorção da realidade.

O que motiva determinadas escolhas cinematográficas, como o aumento da trilha sonora ou foco da câmera? São involuntárias ou conscientes? Qual contexto sociopolítico no qual a produção se deu? Quanto tempo de tela mereceu um determinado fato em relação a outro? Responder a essas questões é fundamental na análise de uma obra audiovisual.

2.

Recuperando a noção de Jean Baudrillard acerca de hiper-realidade, onde a simulação passa a ser mais verdadeira que a própria realidade, o que, acompanhada da atomização dos sujeitos sociais, incentivados à ação individualista e participantes de redes virtuais onde suas crenças são reforçadas, sem espaço para o contraditório, a representação ficcional da liderança política possui impactos mais contundentes na realidade, uma vez que esta passa a ser tratada como parte do real, ainda que os sujeitos saibam que não o é; o real não é aquilo que existe, mas o querem que o seja.

Daí outra importância da análise das obras que retratam as lideranças políticas contemporâneas, cuja atuação por vezes parece ser fruto de um comportamento no qual a imprevisibilidade é simulada, reforçando um estilo pessoal que busca o engajamento emocional e a ruptura com padrões institucionais tradicionais, como se fosse um governante de filme.

É nesse contexto que foram analisadas as obras audiovisuais sobre Donald Trump: os documentários Trump: um sonho americano e Trump’s Presidency: The first year as it happened da rede australiana 7News Australia (disponível no youtube) e o filme O aprendiz (indicado a duas categorias no Oscar 2025), que acompanham sua trajetória política desde sua origem até a primeira gestão presidencial.

Há anos que Donald Trump emergiu como uma figura midiática e pitoresca, conhecido do grande público pelo seu penteado extravagante e o excesso de dourado em seus empreendimentos, o que já fazia dele um personagem frequente da cultura popular norte-americana, aparecendo em filmes, programas de entrevistas, e até mesmo no WWE e desenhos animados.

Também será comentado o filme Era uma vez um sonho, baseado no romance autobiográfico de J. D. Vance, atual vice-presidente dos EUA, e que conta com nomes como Amy Adams e Gleen Close no elenco. A produção cinematográfica sobre as lideranças permite compreender a construção e a disseminação de suas imagens. Supõe-se, desta forma, ampliar os vínculos entre imagem e política e expandir os limites da interpretação política e da representação política.

O documentário Trump: um sonho americano, com quatro episódios, foi baseado em depoimento de pessoas que conhecem Donald Trump há muito anos, incluindo amigos e inimigos. O episódio inicial do documentário, Manhattan, recupera o clima na cidade de Nova York dos anos 1970: suja, com diversos problemas sociais e perigosa. O repórter de política do New York Post comenta o clima da cidade: “Os políticos não sabiam governar – pensamento de empresários”, “Políticos com dinheiro são como jovens com maconha. E você tem que dizer a eles que isso é tudo o que têm”.

Donald Trump aparece como uma figura que quer resolver os problemas da cidade, colocando-se de forma arrogante como um empresário jovem e que, por isso mesmo, teria novas soluções para os problemas de Nova York. Seu desejo era o de superar o seu pai, que fez fortuna no ramo da construção, especialmente com moradias populares. Donald Trump já queria estar no centro dos poderosos. Seu primeiro grande projeto é a revitalização do Hotel Commodore, um símbolo da cidade decadente. Para isso, precisaria de 70 milhões de dólares, mas o banco só emprestaria 30 milhões. Para realizar tal empreendimento, Donald Trump pede isenção de impostos para investir na reforma do hotel. Repórter pergunta: “A cidade vai conceder uma isenção de 40 anos nos impostos?”. Donald Trump consegue, com o apoio do obscuro advogado Roy Cohn.

3.

Roy Cohn é uma figura de destaque no filme O aprendiz, no qual Donald Trump é retratado como um jovem que, embora bastante ambicioso, aparece de forma desajeitada e sem muitas aptidões. Roy Cohn se torna uma espécie de mentor para Donald Trump, que ouve atentamente seus ensinamentos e quer copiar sua forma de agir e se vestir. “Você precisa estar disposto a tudo para vencer”, Cohn explica como, com o uso de três regras: “1ª Regra – Atacar, Atacar, Atacar; 2ª Regra – Não admita nada. Negue tudo; 3ª regra – Não importa o que aconteça, você declara vitória, nunca admita a derrota”. Essas regras vão acompanhar toda a trajetória de Donald Trump no filme.

O advogado Roy Cohn utiliza de métodos questionáveis para vencer suas demandas, chantageando aqueles que representam algum risco em seus processos, e mostrando como o poder funciona na realidade. A personagem de Cohn tem a dupla função; carregar Donald Trump para dentro do funcionamento do sistema capitalista americano, também servindo ao público como uma crítica deste voraz e que age de forma violenta e implacável. Ao final da película, Trump será retratado como uma versão ainda mais aprofundada de seu mestre. Enquanto aquele ainda parecia ter certos limites morais, Donald Trump sequer demonstra guardar qualquer sentimento de consideração ao próprio Roy Cohn.

Se no filme romanceado se pretende construir um paralelo do desenvolvimento do capitalismo norte-americano a partir da trajetória de Donald Trump, o documentário Um sonho americano resta mais evidente como a fronteira entre o real e o sonho parece ser nebulosa para ele. O segundo episódio enfatiza seus investimentos no mundo dos cassinos e quando as coisas começam a dar errado para ele.

Uma vida de extravagância como a de um apostador sem limites, apaixonado pela própria imagem de vencedor, mesmo que cada vez mais ela dê sinais de ser insustentável. Seu casamento também enfrenta problemas, mas, publicamente, a vida conjugal é usada como peça de propaganda – e a mulher tratada como um objeto de valor – enquanto também faz questão de sempre estar ao lado de celebridades do momento.

4.

É impossível ignorar que essa fronteira borrada entre o real e o ficcional, presente na trajetória de Donald Trump, é um dos principais elementos que explicam não somente sua ascensão política, mas também a forma como mantém sua comunicação com o público. Ao operar constantemente na tensão entre fatos verificáveis e narrativas emocionalmente mobilizadoras, Donald Trump não rompe com a realidade de maneira explícita, mas a reorganiza a partir de estratégias discursivas que privilegiam impacto e identificação.

O ambiente digital potencializa essa dinâmica ao permitir que diferentes versões dos acontecimentos circulem com igual aparência de legitimidade, sobretudo quando mediadas por plataformas estruturadas para maximizar engajamento, tendo provocado uma transformação estrutural na forma como a realidade é percebida, mediada e até produzida, cenário no qual um personagem como Donald Trump navega de forma habilidosa.

O terceiro episódio enfatiza a gastança desenfreada de Donald Trump com seus empreendimentos que se pretendem luxuosos, mas acertam no brega, além do relacionamento com sua esposa e sua amante: ele não quer se relacionar com uma mulher que tenha filhos, mesmo que estes sejam os seus. Donald Trump é um mulherengo imparável e cada vez mais arrogante, que acredita que o mundo deve se curvar aos seus pés. É obrigado a vender empreendimentos e vai à falência.

O último episódio mostra a transição da figura midiática para o ambiente político. O programa O aprendiz revitalizou sua imagem e Donald Trump foi capaz de capturar o sentimento anti-sistema e canalizar o ressentimento social, transformando a política em um verdadeiro reality show dada sua experiência pregressa em lidar com o mundo do show business. A figura construída é a de um Donald Trump que mistura verdade e ficção, ataca as elites tradicionais e afirma ser o único capaz de “salvar” os Estados Unidos e tornar a América grande novamente.

No documentário australiano a figura de Donald Trump é demonstrada como uma liderança centralizadora. A imagem que é exposta neste documentário é da intransigência de Donald Trump, que decide e orienta as ações de seu governo sem a interferência de seus auxiliares. O documentário demonstra sua atuação em várias frentes, seja defendendo a construção do muro na fronteira com o México, objetivando impedir e controlar a entrada de imigrantes, como também ao defender uma lista de países cuja população será impedida de viajar e entrar nos Estados Unidos.

A lista inclui os seguintes países que possuem a maioria da população muçulmana, identificada por ele como terroristas: Iraque, Irã, Síria, Sudão, Líbia, Somália e Iêmen. Posteriormente esta medida foi atenuada após uma série de manifestações e críticas do poder Judiciário. Na obra também se destaca o xenofobismo, o racismo e a intolerância em relação aos povos do Oriente Médio, como Síria, Irã e Iraque. O primeiro ano de sua presidência é marcado por diversas manifestações públicas e polêmicas, além do massacre em Las Vegas que deixou mais de 60 mortos, enquanto Donald Trump minimizou o risco das armas.

5.

Os documentários analisados e o filme O aprendiz constroem a imagem de uma liderança que prestigia seus interesses pessoais em primeiro lugar, mesmo acima da própria família: Donald Trump é uma figura de poucos escrúpulos e empatia, mas que se apresenta como alguém superior aos demais líderes mundiais e autoridades. Sua figura midiática vai ao encontro da forma de sua liderança política, como se a política fosse apenas um grande teatro midiático.

Nos documentários ele é reiteradamente criticado por diversos entrevistados, sobressaindo a percepção de uma liderança orientada prioritariamente por interesses pessoais e familiares, marcada por um ressentimento evidente em relação a outros governantes do Partido Democrata, sobretudo contra Barack Obama, e estruturada em torno de uma agenda centrada no combate à imigração e na retórica de recuperação de um poder absoluto dos Estados Unidos.

Nos documentários e no filme O aprendiz, projeta-se a imagem de um governante desprovido de empatia e de domínio técnico – é um tanto incompetente tanto quanto malandro –, ao mesmo tempo em que direciona críticas constantes à classe política, apresentando-se como alguém que confronta um sistema supostamente controlado por uma elite e reivindicando para si a posição de uma liderança outsider.

É relevante confrontar a imagem construída de Donald Trump com o filme baseado na autobiografia de seu vice-presidente J. D. Vance. Isso porque embora este seja um político com posições e ações bastante questionáveis, que resvalam em um certo nacionalismo étnico, crítico dos direitos LGBTQIA+ e até mesmo do divórcio, ostentando posições bastante conservadoras, a obra cinematográfica apresenta a história do verdadeiro self-made man que vence na vida apesar de vir de condições econômicas desfavoráveis e de uma família pouco estruturada.

Se Donald Trump já possuía uma imagem pública fortemente demarcada, J. D. Vance ainda podia ser desconhecido de grande parte do eleitorado, daí lhe ser relevante buscar construir uma personalidade baseada no imaginário popular de vencer baseado no próprio esforço e dedicação, mesmo que em termos objetivos isso fosse ser bastante questionável.

O filme não mostra nenhuma posição polêmica expressada pelo atual vice-presidente dos EUA ou tema controverso é colocado na obra, o que permite até mesmo que eleitores com preferências antagônicas possam se aproximar dessa figura, ao entender a sua origem e as dificuldades que enfrentou ao longo da vida. A história do capiria que chega a uma das faculdades mais prestigiadas do país, constitui uma narrativa idealizada, com o intuito de gerar ampla identificação do público, com personagens clichês e conflitos de fácil apreensão e identificação.

Assim, se as obras que retratam Donald Trump buscam enfatizar detalhes de uma trajetória que já é, de certa forma, conhecida do público, o filme baseado na autobiografia de J. D. Vance está mais preocupado em apresentar essa figura para o grande público. Retratar Donald Trump é, necessariamente, tratar de polêmicas e de um estilo de vida que sempre foi espalhafatoso. Por vezes, essas obras recaem num lugar de curiosidade, de como esse pitoresco pode chegar à presidência dos EUA e o que isso significa sobre a qualidade daquela democracia.

6.

Não se pode descurar que a política opera cada vez mais como narrativa, deslocando o eixo do debate público para um terreno em que a construção da imagem se torna tão ou mais relevante do que os próprios fatos, vide o comportamento de parlamentares brasileiros ao se dedicar mais à produção de conteúdo ao vivo, seja em comissão ou no plenário, do que para o próprio debate em si.

A recorrência de determinadas escolhas estéticas, recortes biográficos e estratégias de dramatização deixa claro que as produções cinematográficas não refletem a realidade, mas contribuem ativamente para reconfigurá-la, criando versões que, uma vez difundidas, passam a disputar legitimidade com os acontecimentos concretos, em um cenário no qual percepção e realidade deixam de ser esferas claramente separadas.

Sob essa perspectiva, não se pode tratar tais obras como meros registros ou entretenimento, mas como peças que participam da própria constituição das lideranças que pretendem retratar, de modo que assistir a esses filmes e documentários está longe de ser um ato qualquer, mas consistem verdadeiramente em um contato direto com narrativas editadas, selecionadas e orientadas por interesses específicos, que influenciam a forma como essas figuras são percebidas e, por consequência, como são julgadas no espaço público.

Ao espectador, portanto, não cabe apenas consumir essas histórias, mas reconhecê-las como construções que disputam espaço na formação da opinião e na definição do que se entende por verdade.

É justamente nesse ponto que a aproximação entre Donald Trump e J. D. Vance revela sua força analítica, na medida em que expõe dois momentos distintos de um mesmo processo: de um lado, a radicalização de uma política já profundamente imbricada com a lógica do espetáculo, em que a figura pública se confunde com o personagem midiático; de outro, a tentativa de reconstrução de uma narrativa mais tradicional de ascensão e mérito, elaborada para gerar identificação e ampliar seu alcance junto ao eleitorado.

Em ambos os casos, o que se evidencia é que o campo político contemporâneo se estrutura menos em torno de programas e propostas e mais na capacidade de produzir histórias convincentes, capazes de mobilizar afetos, consolidar identidades e, em última instância, redefinir os próprios contornos do real.

Atos e falas recentes de Donald Trump levam a crer que ele opera na lógica cinematográfica, como se a vida fosse, em verdade, um reality show. O sequestro relâmpago de Nicolás Maduro, como a guerra travada com o Irã, que levaram a morte de seu então líder supremo, Ali Khamenei, são apresentados e comunicados de forma que evocam mais a estética de um roteiro de ação do que assuntos relevantes de política externa, com declarações grandiloquentes e uma narrativa de vitória total que reforça a centralidade do próprio líder como protagonista absoluto dos acontecimentos.

Entretanto, o desenrolar dos fatos no Irã, deixam claro que o roteiro final pode não ser exatamente aquele esperado por Donald Trump.


*Vera Chaia é professora aposentada do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

*Arthur Spada é mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).


"A leitura ilumina o espírito".

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