Entre o negacionismo conspiratório e o escapismo tecnológico: uma alegoria sobre a recusa do grande capital em frear o colapso climático global
Em 2026, à margem do encontro da elite mundial em Davos, um pequeno grupo de bilionários reuniu-se na casa de um magnata suíço para uma conversa informal sobre as mudanças climáticas. Aqui está uma transcrição fiel desse encontro.
Albert Wertman (bilionário suíço): Caros amigos, eu convidei vocês para uma conversa sobre uma questão que está sendo muito discutida neste momento e que suscita, com ou sem razão, preocupações no público: as mudanças climáticas. Gostaria de conhecer suas ideias, que são muito mais sérias do que as que podemos ler na imprensa, ou as que são propaladas por nossos camundongos verdes.
Alton Tusk: Senhores, não vejo o interesse desta reunião… Todos sabemos que as mudanças climáticas não passam de uma bobagem, uma coleção de notícias falsas, propagadas pelos comunistas, ou pela China, para sabotar nosso crescimento econômico. Felizmente, nos Estados Unidos, pusemos fim a esta farsa: fechamos todos os centros da chamada “pesquisa sobre o clima” e obrigamos as universidades a fazer o mesmo. É assim que se resolve o problema!
Bertrand Parnault: Estou quase concordando com essa ideia. É preciso combater ativamente todos esses ecoterroristas, que tentam desmantelar nossas fábricas e impedir a construção de nossas rodovias. Querem levar-nos de volta à Idade da Pedra ou, na melhor das hipóteses, à época em que nos iluminávamos com lamparinas a óleo. São inimigos do progresso.
Patrice Poujadé: Esses malucos querem deixar o petróleo e o carvão no solo! Como vamos funcionar nossas máquinas, dirigir nossos automóveis, aquecer nossas casas sem petróleo, gás e carvão? Felizmente, os esforços deles não dão em nada, a produção de petróleo e carvão vai crescer consideravelmente nos próximos anos.
Vincent Malloré: Eu também concordo com o que diz Alton Musk: essa história de “mudanças climáticas” é muito barulho por nada. Com o apoio de Donald Trump, temos condições de marginalizar todos esses bolcheviques verdes na Europa, e reconstruir nosso país e nosso continente em bases nacionais, cristãs e modernas. Nos meus jornais e canais de televisão, estes “melancias” (verdes por fora, vermelhos por dentro) não têm voz ativa.
Alton Tusk: Sim, vocês europeus têm que seguir nosso exemplo: nunca exploramos tantos poços de petróleo e minas de carvão como agora. Como diz nosso presidente: “drill baby, drill!” Não se pode parar o progresso!
Mark Sonnenberg: Não concordo! Vocês estão equivocados em ignorar os relatórios do IPCC: as mudanças climáticas existem. Mas não há motivo para preocupação: graças às novas técnicas de captura de CO2, brevemente teremos resolvido o problema.
Jerry Pesos: Infelizmente, as instalações destinadas a capturar o CO2 da atmosfera ainda não provaram sua eficácia…
Mark Sonnenberg: Pouco importa: recorreremos a técnicas de geoengenharia. Por exemplo, a injeção de aerossóis na atmosfera ou a construção de um escudo solar (guarda-sol espacial). Sem falar desta solução maravilhosa: fertilizar o mar com sulfato de ferro para fazer crescer o plâncton (que absorve o carbono).
Bill Tates: Acho que vocês estão sendo superficiais… Os relatórios do IPCC devem ser levados muito a sério! Estamos diante da ameaça de uma catástrofe ecológica. E os métodos de geoengenharia não são apenas perigosos, mas provavelmente ineficazes.
Jerry Pesos: E então, o que você propõe?
Bill Tates: Não sei… Se eu optasse por um rumo ecológico, redução dos meus investimentos, abandono do petróleo – eu iria à falência! Ou então eu seria deslocado por vocês, meus concorrentes, que só estão à espera disso para ficar com minha parcela de mercado. Mas é preciso fazer alguma coisa. Nossos filhos serão vítimas de uma catástrofe climática terrível.
Alton Tusk: Você não me assusta! Se as coisas piorarem no planeta Terra, eu irei para o planeta Marte, com meus onze filhos, num dos meus foguetes.
Jerry Pesos: Você é ridículo! É impossível viver em Marte! Eu procuraria refúgio, com minha família, numa ilha da Patagônia, onde estaremos a salvo.
Bill Tates: Nenhum lugar do planeta estará a salvo das mudanças climáticas. O que fazer?
Silêncio…
Warren Muffet (até agora em silêncio, decide intervir): É preciso agir! Comecemos por um imposto sobre o carbono, aplicado ao petróleo, diesel, carvão, etc. Ou um imposto sobre os motores a combustão.
Alton Tusk: Você está louco! Isso é comunismo!
Jim Marley: Com um imposto sobre os motores, meus automóveis deixarão de ser competitivos. A lei do mercado é implacável e não conhece ecologia.
Warren Muffet: Vocês que, ao contrário de Alton Tusk, reconhecem os resultados da ciência e os relatórios do IPCC, por que não fazem nada? Vocês não estão sendo razoáveis. Comportam-se como Luís XV: “Depois de mim, o dilúvio”.
Bernard Parnault: Muffet, seus discursos moralistas irritam-me. Todos sabem que você fez fortuna com a especulação financeira. Já tenho bastante dificuldade com meus negócios atuais, que eu tenho que resolver imediatamente; não posso preocupar-me com o que acontecerá daqui a vinte ou trinta anos.
Patrice Poujadé: Ouça, Muffet, sou CEO de uma multinacional petrolífera. Se, por razões ditas “ecológicas”, eu reduzir a produção, serei imediatamente demitido pelos acionistas e substituído por outro CEO. Não tenho outra escolha senão continuar: business as usual.
Jim Marley: De qualquer forma, a culpa é dos consumidores; enquanto as pessoas quiserem comprar carros, somos obrigados a produzi-los. E isso vale para todas as demais mercadorias. Em vez de nos dar lições de moral, Muffet, você deveria dirigir-se aos consumidores.
Jeff Pesos: Além disso, de que serviria introduzir medidas ecológicas rigorosas na América, se a China e a Índia não as respeitam? Sem falar da Arábia Saudita e dos Emirados.
Warren Muffet: Existem os Acordos de Paris e as reuniões das COPs, patrocinadas pelas Nações Unidas.
Alton Tusk: É simplesmente uma manobra grosseira da China comunista para atar-nos os pés e as mãos. Abandonamos essas instâncias de uma vez por todas.
Patrice Poujadé: Você está enganado! Nós, as companhias petrolíferas, participamos massivamente das reuniões das COP e, até agora, impedimos qualquer resolução que pudesse conduzir a uma saída progressiva das energias fósseis.
Ouve-se um barulho vindo do exterior.
Alton Tusk: O que é esse barulho?
Bertrand Parnault (olhando pela janela): É uma manifestação de jovens em frente às nossas janelas.
Jerry Pesos: O que eles querem?
Bertrand Parnault (abrindo ligeiramente uma janela): Eles gritam “mudemos o sistema, não o clima!”.
Alton Tusk: São eco-comunistas, tipos perigosos. Vamos ligar para a polícia, ela virá dispersá-los.
Warren Muffet (olhando para fora): Tarde demais.
Alton Tusk: Por quê??
Warren Muffet: Eles são muitos…
Cortina
*Michae Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de Marx, esse desconhecido (Boitempo). [https://amzn.to/3FaMmEe]
Tradução: Fernando Lima das Neves.
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