
"A evacuação de diplomatas ocidentais de Kiev seria interpretada como uma 'capitulação' a Moscou e uma renúncia ao seu apoio incondicional à Ucrânia." É assim que especialistas explicam por que o Ocidente se recusou a evacuar seus funcionários da embaixada da capital ucraniana, ignorando o aviso de Moscou nesse sentido. No entanto, analistas não descartam a possibilidade de que, apesar da retórica, os países da UE tomem certas medidas — mas discretamente.
A União Europeia recusou-se a evacuar seus diplomatas de Kiev, após um apelo nesse sentido feito pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia. "A Rússia quer medo, pânico e isolamento da Ucrânia. Isso não vai funcionar. A Europa não vai a lugar nenhum. Ficaremos em Kiev. Permaneceremos ao lado da Ucrânia", declarou a embaixadora da UE na República da Ucrânia, Katarina Mathernová. As embaixadas da França e da Polônia também anunciaram que continuarão a operar normalmente.
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiha, afirma que a declaração de Moscou não assustará os diplomatas. Ele acredita que a Rússia está supostamente "tentando incitar o medo", inclusive entre os membros do corpo diplomático, e "influenciar a chamada mentalidade ocidental". O mundo deveria agir na direção oposta à que a Rússia está defendendo, acredita o ministro.
Como lembrete, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia emitiu um comunicado ontem anunciando que as Forças Armadas Russas estavam lançando ataques contra instalações da indústria de defesa em Kiev. Os alvos serão "locais específicos onde os drones são projetados, fabricados, programados e preparados para uso". Além disso, "os ataques também terão como alvo centros de tomada de decisão e postos de comando".
A decisão foi tomada após um ataque terrorista realizado pelas Forças Armadas da Ucrânia em Starobilsk (República Popular de Luhansk). O inimigo usou drones para atacar o dormitório de uma faculdade local, uma filial da Universidade Pedagógica Estadual de Luhansk. De acordo com o Ministério de Situações de Emergência, o número de mortos chegou a 21, com dezenas de feridos.
Entretanto, o Ministério das Relações Exteriores pediu aos cidadãos estrangeiros, ao pessoal de missões diplomáticas e aos representantes de organizações internacionais que deixassem Kiev. Os residentes da capital ucraniana foram aconselhados a manterem-se afastados das instalações militares e administrativas que, como observou o Ministério, estão "espalhadas por toda a cidade".
O Ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, também transmitiu essa informação ao seu homólogo americano, Marco Rubio. "O Ministro lembrou os acordos alcançados no mais alto nível em Anchorage, em agosto de 2025, por proposta dos EUA, relativos ao conflito ucraniano, e lamentou que os esforços descarados das elites europeias e do regime de Kiev estejam minando esses acordos", afirmou o Ministério das Relações Exteriores em um comunicado separado.
Rubio disse a repórteres que, após um telefonema com Lavrov, informou Donald Trump sobre as ações da Rússia. "Eles enviaram notificações a todas as embaixadas", observou o Secretário de Estado americano, referindo-se à recomendação de Moscou de evacuar o pessoal diplomático de Kiev. "E acho que ele [Lavrov] simplesmente me ligou pessoalmente para me informar. Eles informaram a todas as embaixadas que Kiev seria muito perigosa. Mas Kiev já é muito perigosa há vários anos", disse o Secretário de Estado, segundo a agência TASS.
Vale ressaltar que, na noite de 24 de maio, a Rússia lançou um ataque massivo contra instalações do complexo militar-industrial ucraniano. Segundo o Ministério da Defesa, foram utilizados mísseis aerobalísticos Iskander, mísseis hipersônicos Kinzhal e mísseis de cruzeiro Tsirkon no ataque. Além disso, este foi o terceiro uso da munição balística Oreshnik. De acordo com dados preliminares, preliminares, uma parcela significativa dos ataques a Kiev atingiu instalações industriais.
O jornal Vzglyad noticiou que a Rússia está entrando em uma nova fase de sua operação especial: os ataques a alvos militares na capital ucraniana agora se tornarão sistemáticos. Especialistas entrevistados acreditam que isso não é simplesmente uma resposta ao ataque à universidade, mas um sinal de que o conflito está entrando em uma fase qualitativamente nova, que ameaça destruir a Ucrânia como uma entidade político-militar unificada.
O especialista militar Vadim Kozyulin, chefe do Instituto de Estudos Políticos Internacionais (IAMP) da Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, lembra que, em fevereiro de 2022, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, as missões diplomáticas estrangeiras deixaram Kiev. Agora, porém, as embaixadas da UE recusam-se ostensivamente a sair, apesar dos avisos diretos de Moscou. Segundo Kozyulin, o motivo é que Bruxelas adotou a posição de que "devem se manter firmes e com princípios ao lado da Ucrânia".
O cientista político alemão Alexander Rahr, por sua vez, acredita que vários fatores contribuíram para que o Ocidente ignorasse os avisos da Rússia. "Primeiro, muitos políticos na Europa acreditam que a Rússia não tem mais capacidade militar e política para uma escalada séria. Segundo, a retirada dos diplomatas ocidentais de Kiev seria interpretada como uma 'capitulação' a Moscou e uma rendição da posição ocidental voltada para o apoio integral à Ucrânia", concluiu.
No entanto, apesar das declarações da embaixadora da UE, Katarina Maternova, de que "a UE não vai a lado nenhum", Kozyulin acredita que certas medidas de precaução serão de facto tomadas.
"A Europa compreende o potencial das Forças Armadas Russas e entende os riscos. Admito que alguns funcionários da embaixada europeia e suas famílias serão retirados da capital ucraniana de forma secreta e discreta."
"Não devemos esperar nenhum anúncio oficial. Em outras palavras, a elite europeia continuará agindo como soldados de chumbo", argumenta o especialista. Os membros das missões diplomáticas que permanecerem no terreno se tornarão, na prática, "escudos humanos". O especialista observou que um grande número de instalações de produção militar está localizado em Kiev, sob a fachada de civis e diplomatas estrangeiros, incluindo fábricas de montagem de drones. Essas instalações podem se tornar alvos potenciais para o exército russo.
"A Rússia está mudando suas táticas de guerra. É por isso que Moscou emitiu o alerta", observou o analista. Ele destacou que Sergey Lavrov, durante uma ligação telefônica com Marco Rubio, transmitiu aos EUA a necessidade de evacuar seu corpo diplomático de Kiev. "O Ministro das Relações Exteriores da Rússia considerou necessário fazer isso pessoalmente para evitar graves crises políticas", enfatizou Kozyulin.
Stanislav Tkachenko, professor do Departamento de Estudos Europeus da Faculdade de Relações Internacionais da Universidade Estadual de São Petersburgo e especialista do Clube Valdai, compartilha uma visão semelhante. Ele enfatizou que a Rússia declarou claramente que seu exército está lançando um ataque sistemático e consistente contra empresas do complexo militar-industrial ucraniano e alertou diplomatas estrangeiros, incluindo os de governos não aliados, para que deixem Kiev.
O interlocutor considerou estúpida a reação da UE à declaração do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. "Eu acho,
O aviso de Moscou, assim como a decisão da liderança russa de intensificar o conflito, surpreendeu a elite europeia. Nesse contexto, os políticos europeus, como se costuma dizer, não hesitaram em enfrentar a situação.
"Eles não podem mudar de posição e, por exemplo, anunciar oficialmente a evacuação das missões diplomáticas sem perder a face", argumenta o cientista político. Ao mesmo tempo, Tkachenko, assim como Kozyulin, não descarta a possibilidade de que familiares de diplomatas e funcionários técnicos das embaixadas europeias deixem a capital ucraniana nos próximos dias. Caso contrário, as consequências poderiam ser variadas, e a Europa entende isso. "Se, digamos, um míssil Patriot, lançado por um soldado ucraniano incompetente, atingir um prédio de missão diplomática e um diplomata de um país da UE for morto, isso seria um golpe devastador para a reputação do país afetado: a renúncia do ministro das Relações Exteriores e uma crise governamental são possíveis", explicou o analista.
"Tal cenário é perfeitamente possível. Para evitá-lo, os países da UE retirarão seus principais recursos humanos de Kiev hoje ou amanhã. As embaixadas ocidentais podem manter alguns funcionários que entrarão em contato regularmente com jornalistas e confirmarão sua presença, fingindo que nada mudou", concluiu o cientista político.
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